Capítulo 119 — Células.
A porta do galpão abriu com um rangido curto.
Marco entrou primeiro, com uma caixa estreita presa contra o corpo. Os frascos lá dentro batiam uns nos outros a cada passo, abafados por tiras de pano enroladas entre o vidro.
Marco tinha passado o dia inteiro transformando essência em sevoflurano.
Lou-reen ainda tentara arrancar dele um procedimento simples: uma sequência, uma ordem de imbuimento, qualquer coisa que pudesse ser repetida se ele não estivesse por perto.
Não funcionou.
Para Marco, aquilo era química presa em essência: proporção, estrutura, estabilidade, ponto de evaporação. Ele sabia o que precisava formar, sabia onde cada parte deveria se encaixar e sabia quando a substância estava errada antes mesmo de terminar. Para os soldados, era uma runa complicada demais, feita de exigências que não tinham nome em Taeris.
Quando Marco tentou ensinar, eles entenderam a intenção, mas não o caminho. Não sabiam o que era uma molécula então não tinham como imaginar uma estrutura que nunca tinham visto. Conseguiam puxar essência, espalhar ar, conduzir vapor, aquecer, conter e afastar uma substância já criada. Mas criar aquela substância do nada exigia uma lógica que não pertencia ao treinamento deles.
No fim, Lou-reen cortou a tentativa. Marco criaria o sedativo e os soldados só precisariam saber quando abrir, como espalhar e quando recuar.
Kalamera vinha logo atrás, carregando outra caixa fechada com dois braços e mantendo o peso nivelado demais para alguém que também tinha passado horas curvada sobre metal, vidro e selenita.
Ela tinha ficado na oficina, montando novos radares com o que a forja local conseguia oferecer. Lou-reen passara as horas lá fora, levando patrulhas por Velunthar, fechando rotas, revistando casas abandonadas e mantendo a vila inteira em alerta.
Um soldado perto da entrada viu a caixa de Marco e atravessou o espaço quase depressa demais. A mão dele parou antes de tocar no tampo, esperando autorização.
Marco entregou.
O soldado recebeu a caixa com cuidado e soltou a tensão dos ombros.
— Chegaram em boa hora. A última foi aberta há pouco.
Marco olhou para o centro do galpão.
Reinna continuava presa às novas correntes.
O corpo estava desacordado, a cabeça baixa, o cabelo sujo caindo dos dois lados do rosto. O aro no pescoço tinha sido reforçado por uma segunda linha de metal. Os braços estavam abertos em ângulos diferentes, presos por correntes duplas. As pernas tinham travas novas cravadas na pedra.
Mesmo assim, o chão ao redor dela tinha marcas recentes.
Uma lasca de pedra estava solta perto do pé esquerdo, um dos aros tinha um risco fundo no metal. Dois soldados mantinham mais distância do que antes, lanças baixas, olhos presos no corpo apagado como se a garota pudesse levantar sem mover um músculo primeiro.
O soldado com a caixa completou:
— Ela começou a puxar outra vez. A general mandou manter desacordada enquanto a doutora examina.
Marco apertou os dedos na lateral da própria caixa vazia.
Só então Marco viu o resto do galpão.
A mesa onde o outro corpo tinha sido aberto não estava mais no centro da atenção. Hegoria tinha tomado uma lateral inteira do espaço e transformado aquilo em uma estação de exame. Lâminas finas estavam alinhadas sobre um pano claro, frascos pequenos ocupavam uma fileira ao lado de uma bacia de água escura. Havia panos dobrados, pinças, agulhas, pedaços de vidro, amostras seladas e uma folha com anotações presas sob uma pedra lisa para não virar com o vento que entrava pelas frestas.
Hegoria estava inclinada sobre a bancada.
Chralazar estava ao lado dela.
Marco demorou um instante para reconhecer o rapaz. Sem a irmã agarrada ao braço e sem a rua coberta de neve atrás, ele parecia menor. Ou talvez fosse só o jeito de manter os ombros presos enquanto passava um frasco para Hegoria e conferia a marca feita na lateral.
— Você está ajudando aqui?
Chralazar ergueu os olhos.
— Ajudo na enfermaria quando precisam.
A resposta saiu baixa, sem firmeza. Marco olhou para a porta aberta atrás de si, depois para os soldados espalhados pelo galpão.
— Lou-reen não colocou todo mundo na rua?
A mão de Chralazar parou sobre a bancada.
Por um instante, ele não respondeu. Os dedos se fecharam devagar, como se obedecessem a um teste que ele já conhecia e ainda assim repetia. Um fio de essência apareceu entre eles, fraco, pálido, tentando tomar forma.
A energia endureceu em uma película opaca na dobra da palma, sem calor, sem luz, sem função. Chralazar olhou para aquilo por meio segundo a mais do que deveria. Depois fechou a mão de vez, esmagando o resíduo antes que Marco pudesse fingir que não tinha visto.
— Chralazar é mais útil aqui — Hegoria disse, sem tirar os olhos da lâmina que segurava.
O rapaz abaixou a mão.
Hegoria ajustou a amostra com a ponta da pinça.
— Mãos firmes. E pouca essência solta para contaminar o ambiente.
Chralazar não reagiu à frase. Apenas pegou outro pano limpo, passou pela borda da bancada e voltou a organizar os frascos na mesma ordem de antes.
Marco ficou olhando por um instante.
Depois desviou quando Kalamera colocou a segunda caixa sobre a bancada. O som fez Hegoria erguer os olhos.
A elfa abriu as travas com as mãos superiores. Dentro, peças de metal estavam presas em encaixes de pano: uma base pesada, uma haste com parafuso fino, uma placa de selenita polida, grampos pequenos e quatro lentes encaixadas em anéis separados.
Hegoria olhou para as peças.
— O que é isso?
Marco tirou um dos anéis da caixa.
— Um microscópio.
A palavra não pareceu ajudar.
Hegoria continuou olhando para o instrumento desmontado.
— E isso faz o quê?
— Sabe uma luneta? — Marco perguntou. — Ela serve para ver o que está longe.
— Sei.
— Isso faz o mesmo, só que com coisas pequenas.
Hegoria olhou de novo para as lentes. Marco apoiou o anel na bancada.
— Eu reparei mais cedo que você usa uma lente para ver melhor as amostras. Funciona até certo ponto, mas não é suficiente para realmente enxergar o que existe dentro de um corte fino. Então pedi para a Kalamera montar isso.
Kalamera soltou um som curto pelo nariz enquanto encaixava a base.
— Pediu como se fosse simples.
— Eu disse que era possível.
— Disse com a cara de quem acha que isso ajuda.
Marco ignorou. Kalamera prendeu a haste na base, depois encaixou o primeiro conjunto de lentes.
— Foi corrido — Marco disse a Hegoria. — O vidraceiro daqui só conseguiu entregar essas lentes. Em Ga-el ficaria melhor. O vidraceiro de lá já entende um pouco mais como eu peço esse tipo de coisa.
— Um pouco. Eu ainda tenho que explicar o que eu vou fazer pra ele entender o que precisa fazer. — Kalamera disse.
— Um pouco é melhor do que nada.
Hegoria acompanhou a montagem sem piscar.
Kalamera encaixou o segundo par de lentes acima do primeiro, deixando os anéis alinhados pela haste central. Depois colocou a placa de selenita sob o suporte e passou um fio mínimo de essência pelo cristal. A luz subiu fraca, uniforme, sem chama e sem tremor.
— Quatro lentes? — Hegoria perguntou.
Marco assentiu.
— Uma sozinha aumenta pouco e distorce rápido. Com várias, dá para ampliar em etapas. Não é perfeito, mas deve funcionar melhor que uma lupa.
Kalamera girou o parafuso lateral. A haste desceu quase nada, depois subiu de novo.
— Esse ajuste aproxima ou afasta as lentes da amostra — ela disse. — Se descer demais, perde a imagem. Se subir demais, vira borrão.
Marco pegou uma lâmina limpa.
— A amostra precisa ser muito fina. Fina o bastante para a luz atravessar. Pode ser um fio de cabelo, uma raspagem de pele, uma gota de sangue aberta no vidro.
Hegoria ficou olhando para a lâmina.
— Pele — ela decidiu.
Pegou uma das amostras já separadas, retirou um fragmento quase transparente com a ponta da lâmina fina e o colocou sobre o vidro. O movimento era preciso, mas Marco percebeu que ela ainda preparava aquilo como prepararia qualquer corte para inspeção comum.
— Mais fino — ele disse.
Hegoria olhou para ele.
Marco não recuou.
— Se ficar grosso, você só vai ver sombra.
A doutora aparou de novo. O fragmento ficou menor, quase nada sobre o vidro.
Marco posicionou a lâmina no suporte e prendeu com os grampos.
— Agora olha por cima.
Hegoria se inclinou.
— Não vejo nada.
— Porque ainda está fora de foco.
Marco girou o parafuso devagar, fazendo a lente descer.
— Continua.
— Espera.
Ele girou mais um pouco.
Hegoria ficou imóvel e Marco parou.
— Agora?
Ela não respondeu de imediato.
Até Chralazar parou pra ver, com um frasco na mão.
Hegoria manteve o rosto junto à lente.
— Isso não é uma superfície.
Marco soltou o parafuso.
— Não.
— Tem… partes.
— Sim.
Hegoria afastou o rosto só o bastante para olhar para ele.
— A pele não é uma coisa só.
— Nada no corpo é uma coisa só — Marco disse. — No meu mundo, chamamos essas partes de células.
Hegoria repetiu a palavra sem som, só com o movimento da boca.
Marco apontou para a lâmina.
— São pequenas demais para ver sem isso. Pele, sangue, músculo, órgão. Tudo é feito delas. Tipos diferentes, funções diferentes. Sozinhas, são quase nada. Juntas, viram tecido. Tecido vira órgão. Órgãos mantêm o corpo funcionando.
Hegoria voltou ao microscópio. Dessa vez, demorou mais olhando.
— Então quando um órgão falha…
— As células já falharam antes — Marco disse.
A mão de Hegoria apertou a borda da bancada. Não foi força suficiente para tremer o instrumento, só o bastante para Chralazar olhar para os dedos dela.
— Então não é só a fibra que endurece — ela disse.
Marco não respondeu.
Hegoria ajustou o rosto contra a lente, como se quisesse atravessar o vidro.
— Antes de chegar no órgão… isso já está errado.
— Sim.
Ela ficou parada por mais alguns segundos.
— A essência tenta empurrar o corpo inteiro — Hegoria disse. — Mas o corpo é feito disso.
Marco olhou para a lâmina.
— De células.
— De células — ela repetiu, ainda sem tirar o olho da lente.
Hegoria pegou o carvão ao lado da lâmina, puxou a folha de anotações e escreveu a palavra no canto. Depois afastou o rosto do microscópio e olhou para Reinna.
— Então preciso ver as células dela.

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