[Continente Sudoeste: Damis]

    Tap. Tap. Tap.

    Com mais um passo, sobre as raízes que se estendiam e se conectavam como uma passadeira, Celyn saiu da grande Floresta Nhova. Mais um dia chegava ao fim, mais uma reunião terminada.

    O dourado dos seus olhos estava sem brilho e os trevos azuis de quatro folhas pareciam os céus num dia de tempestade, mas sem o reluzir dos relâmpagos.

    As pálpebras caíram, quando não conseguiram mais suportar aquela frustração que mais se parecia com montanhas sobre os seus olhos.

    — Haaaaaa. — O suspiro se arrastou por cerca de três segundos.

    Por que ela precisava lidar com as pessoas? Por que ainda precisava ser a rainha?

    Se fosse possível, ela adoraria uma vida em que não precisasse conviver com as pessoas… nunca.

    Quando seus olhos se abriram, o firmamento azulado estava no seu campo de visão, manchado com as cores do fogo e rastros de branco. O sol estava quase invisível, afundando no horizonte.

    Quando? Desde quando que se comunicar com os outros passou a ser tão cansativo? Por que ela se sentia fatigada depois de conversas, sendo que esteve sentada o tempo todo?

    Olhando em suas lembranças, ela nem sempre fora daquele jeito; então, quando?

    Com mais um suspiro, a Hosikati baixou o olhar e encontrou o prado que delimitava a floresta Nhova. Apenas alguns passos lá na frente, um pequeno riacho criava uma fronteira cujo fluxo era suave e constante, Cardio-produzindo um som que beirava a hipnose.

    Celyn encarou aquelas águas cristalinas seguindo seu curso por longos dez segundos, então desviou o olhar para trás, permanecendo naquela posição por dois instantes, até escutar o farfalhar das folhas das árvores por perto.

    A floresta respondia a sua inquietação… não havia ninguém por perto.

    Tendo recebido aquela resposta, a sombra de indiferença desapareceu num único instante dos olhos da rainha e o dourado daqueles órgãos se tornou mais brilhante que o ouro mais puro. E aqueles trevos logo se assemelharam ao céu na manhã mais linda de todos os mundos.

    No segundo seguinte, um leve peso no topo de sua cabeça chamou-lhe a atenção, então vieram as bicadas e as cantorias.

    — Hehe. — Quando os lábios dela se separaram num pequeno sorriso, o mundo pareceu parar por um instante, para que o tempo não fluísse antes que aquela expressão pudesse ser visto pelo máximo de criaturas possível.

    Os Hayim em seus ombros pareceram se inspirar no pequeno pássaro no topo da cabeça da Hosikati; sem que se soubesse quem tivera a ideia, os diminutos espíritos estavam brincando de esconde-esconde por entre os cabelos e flores sobre os fios.

    Mais e mais pássaros se aproximaram e os seus cânticos chamavam muitos outros animais pelo caminho.

    Todos os animais por perto estavam se reunindo para receber a rainha.

    Enquanto os Hayim e pequenos seres se divertiam por entre os seus cabelos, Celyn aproveitava os últimos resquícios do calor solar daquele dia.

    Sem muita demora, o pequeno rio ficou para trás, atravessado pela mulher que, de alguma forma, caminhava por sobre as águas sem nunca se molhar.

    Havia um bosque logo em seguida; suas árvores de troncos retorcidos em espiral davam uma beleza única para aquela flora e as flores, meio avermelhadas e meio rosadas, caíam em fileiras em espécies de cipós que cresciam nos ramos.

    Da posição da Celyn, não era possível ver nada adiante através daquelas árvores. Mas ela não precisou forçar a visão; sendo a mais amada pela natureza dentre os mortais, os vegetais simplesmente “caminharam” para os lados, abrindo um caminho reto até ao destino da Lihyf, não esquecendo, é claro, de criar a passadeira de raízes sobre as flores silvestres azuladas que cobriam todo o chão.

    Como macacos, os nove Hayim da Hosikati balançavam nos cabelos floridos dela, guiados pelos vários pássaros, de diferentes espécies, que voavam por perto, formando uma auréola ao redor da nuca da rainha.

    — Huh!? — Os olhos da Celyn se arregalaram por um segundo, quando os seus cabelos caíram numa trança única no seu ombro direito.

    Sua faceta de surpresa durou por dois segundos, então seus olhos, mais brilhantes que as estrelas, se estreitaram e os cantos dos lábios se elevaram.

    Quando ela deu um passo na passadeira de raízes, as inúmeras Bestas Mágicas nas laterais se curvaram com alegria e alguns até pareciam sussurrar o quão especialmente bela a rainha estava naquele dia. Seria o novo estilo no cabelo? Seria o brilho único no olhar? Ou seria aquele maravilhoso sorriso poucas vezes visto?

    Depois de alguns minutos de caminhada, Celyn já conseguia ver o seu destino, o seu majestosamente único castelo.

    Aquela construção na frente elevava o conceito de “casa na árvore” para outro patamar. Cinco robustas árv…

    — Hosikati, finalmente. — Quando aquela voz de mulher soou, o brilho no olhar da Celyn e o sorriso sumiram de um instante para o outro e os Hayim, que antes se divertiam com seus cabelos, se posicionaram com solenidade sobre os ombros. — É urgente… é muito urgente!

    Celyn fixou seus olhos gélidos na Lihyf lá na frente, que batia as suas finas asas, similares às de uma libélula, se mantendo a alguns centímetros da passadeira de raízes.

    A mulher, em uma túnica formal escura, estava encharcada pelo suor, com as mãos entrelaçadas para acalmar a tremedeira e as pálpebras sob as lentes redondas dos seus óculos tremiam de vez em quando.

    — I yini… (O que aconteceu…) — Celyn hesitou por um instante, quando notou que a sua voz congelante tinha assustado os animais por perto. Ajustou a voz e continuou. — Swoswi (desta vez)?

    — I matsalwa (são as escrituras)… — A mandíbula inferior da mulher tremia a cada sílaba. — “Aquelas” escrituras.

    Celyn ficou estática. Aquela Lihyf de pele rosada e cabelos loiros era a guardiã de um dos cómodos do seu palácio, o mais importante de todos: a Biblioteca.

    A rainha tremeu de leve, ciente de que havia apenas uma coisa que deixaria a Bibliotecária naquele estado.

    — Salmem Nala — murmurou só para si. — O selo…

    — Não foi quebrado, mas está enfraquecido… muito enfraquecido. — Ainda não ousando pisar na passadeira de raízes, a Bibliotecária levantou as mãos tentando fazer alguns gestos para explicar melhor, deixando em evidência a sua tremedeira extrema. — Precisamos ir lá imediatamente…

    A Bibliotecária paralisou por um instante, como se seu corpo estivesse envolvido por um gelo milenar. Quando o olhar se ergueu, encontrou a rainha olhando para alguma direção…

    “Aquela direção… a Árvore dos Espíritos?” — pensou, seu medo tão extremo que sentia seus pulmões sendo esmagados.

    Ela demorou alguns segundos para notar o que a rainha sentira há muito.

    — Isso… isso é…?

    Hosi (Rei)… — Celyn murmurou, se virando por completo para aquela direção. — Ya Ngati (do Sangue).

    No instante seguinte, ela sumiu dali.


    [Alguns minutos antes]

    — GHAAAAAAA!!!!

    Hiryn rasgava o chão com as garras, o corpo se contorcendo com espasmos violentos.

    Um chifre grosso e pontudo espreitava pela sua testa e, quanto mais a estrutura emergia, mais ela sentia como se o seu crânio fosse quebrado de forma lenta, só para ser reconstruído em seguida. Então tudo aquilo se repetia, num loop de dor extrema.

    Quando o chifre direito saiu por completo, trinta centímetros de comprimento e quatro de diâmetro, ela tinha desmaiado sete vezes, despertada pela dor excruciante a cada ocasião. O chifre roçava o chão, depois de abrir uma leve fenda até seu crescimento total.

    Nos próximos minutos, toda aquela dor se repetiu, mas desta vez a Hiryn desmaiou apenas três vezes. O sofrimento do nascimento do chifre esquerdo tinha sido igual ou talvez maior que a do chifre direito, mas parecia que seu corpo começava a suportar melhor o martírio.

    — Hunf! Hunf! Hunf! — Sem conseguir respirar pelo nariz, arfava pela boca, preparando-se para o último chif… — GHAAAAAAAAHHH!!!

    Sentiu como se a cabeça fosse explodida em câmera lenta, dando-lhe o desnecessário tempo de sentir cada milissegundo daquela dor. Ela desmaiou e o terceiro chifre espreitou apenas um milímetro.

    Com a onda de dor que veio em seguida, sua consciência foi obrigada a retornar. Aquilo se repetiu outras dezenove vezes.

    No fim, um chifre, similar a uma navalha de cristal preto com degradê vermelho, de cinco centímetros, tinha crescido no centro da sua testa.

    Enquanto a dor se dispersava, Hiryn ofegou mais algumas vezes, até escutar a voz do Santo.

    Xiphiqo xa wena xi fike emakumu (A sua provação chegou ao fim). — Com uma jarra, derramou um líquido azul sobre os cabelos alaranjados da Hiryn. — Sweswi famba. Ti nyiketi eka Mimoya (Agora vá. Entrega-te aos Espíritos).

    Ouvindo aquele direcionamento, Hiryn se levantou, cambaleou algumas vezes, então se colocou ereta. Os chifres apontavam com orgulho para os céus.

    O tronco da árvore, curvado como um “S”, se abria como um berço, com o interior repleto de folhas de todas as cores possíveis.

    Sua perna direita foi a primeira a mergulhar naquelas folhas; quando a perna esquerda também se firmou, de costas, se afogou na folhagem.

    A escuridão cedeu quando seus olhos se abriram e a nova paisagem recebeu-a com estranheza e cor.

    Criaturas bizarras de todas as formas e tamanhos perambulavam por aquele lugar, flutuando naquela vastidão que mais se parecia com uma pintura abstrata com cores saturadas e vibrantes.

    Havia todo o tipo de coisas pairando por ali e as cores estavam jogadas sem constância nenhuma e com bastante beleza.

    O Mundo dos Espíritos.

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