Capítulo 149 - O covil, a cidade, as vinhas, os planos e o pedido
A iluminação na cidade e a luz da lua passam pelas janelas do hall da torre. Lá dentro, a claridade externa se mistura com o brilho da tocha de Brok.
Assim como a succubus, o orc senta no chão, bem diante de Rubi. A raposa, ao lado da diminuta árvore, deita-se e se enrola na própria cauda.
Somente Byron permanece de pé, intrigado, examinando cada parte do salão de pedra.
“Agora consigo dizer que aqui é uma base perfeitamente funcional”, ele comenta. “Avisou aos outros para, ao menos, não virem até aqui sem avisar? Seria um problema nos avistarem.”
“Sim… Avisei que aqui é um lugar proibido. Ninguém vai vir até aqui”, confirma o orc. “Na verdade… é melhor dizer que ninguém nem quer vir até aqui. Quando… viram todos aqueles ossos e a planta, muitos até ficaram com medo de ajudar na reconstrução. Parecia… um lugar amaldiçoado.”
Eu não posso tirar a culpa deles. A gestão anterior era horrível, pensa Rubi.
“É bom ouvir isso”, pontua Byron.
“Não entendi”, diz a raposa, de canto. “Esses orcs trabalham para vocês ou o quê? Tem algum problema eles encontrarem vocês dois?”
Os demônios e o orc se entreolham por um instante.
“Brok, assim como você, possui um pacto firmado com a senhorita Rubi. A nossa relação com os demais é algo mais indireto”, responde o demônio.
“O Brok é o chefe deles e, para o nosso plano dar certo, precisamos do apoio de muita gente”, completa Rubi.
A feição da raposa se enruga. “Então tudo isso aqui faz parte daquele tal grande plano”, supõe ela.
Byron lança um olhar afiado para Yrah. “Está começando a conectar os pontos.”
“É por aí. A história é um pouco longa, depois eu te faço um resumo com calma”, diz Rubi. “Os outros estão nos ajudando, mas só o Brok está ciente da gente.”
O orc encara a raposa e expele uma bufada de ar pesado. “E é melhor manter isso escondido dos outros, especialmente… dos espíritos”, adverte ele, sério.
Yrah, não abaixa a cabeça. “Eu sei disso, não precisa me lembrar”, responde ela, encarando-o tão severa quanto ele.
Esses dois são como gato e rato, pensa Rubi, sentindo a tensão entre os dois. Melhor tentar focar nas coisas importantes.
A succubus volta sua atenção à Brok.
“Enfim, nós cumprimos a missão com as garras-brancas”, ela comenta.
“Eu percebi…”, diz o orc. “Elas pararam de avançar pela floresta há alguns dias e as que encontramos por aqui começaram a evitar nos caçar. Imagino que foi tudo como… planejado.”
“De fato”, confirma Byron. “A criatura que estimulava a agressividade delas era real e a força dela era consideravelmente acima das outras aves. Agora ela já está morta.”
“Deve haver outras como ela pela floresta, ou, ao menos, vão surgir quando a mudança de enxame acontecer”, comenta Rubi. “Ainda é difícil prever como isso funciona na prática.”
“Vamos estar prontos. Isso… eu garanto”, Brok afirma, confiante. “Com as outras tribos voltando até suas terras, vamos poder ao menos terminar o resto da cidade e nos… fortificar.”
É. Eu imagino que o problema dessa cidade sempre ser destruída sejam os ataques constantes de criaturas fortalecidas pelo enxame. Sem o Senhor das Garras incitando elas, todos vão ter bem mais espaço para se preparar para a próxima leva, analisa Rubi. Falando nisso…
“Mais cedo você falou da planta. O que aconteceu com ela?”, a diaba pergunta. “A maior parte das vinhas secou, então achei que ela já tinha morrido.”
“Com certeza isso não aconteceu. Ela está bem vivinha e saudável”, constata Yrah.
O orc olha para a pequena árvore, pensativo.
“No primeiro momento… eu também pensei isso, mas não foi ruim ela ter ficado viva”, diz ele.
O demônio se aproxima. “O que aconteceu?”, indaga Byron.
“Bem…, um pouco antes de começarmos a reconstruir esse lugar, percebemos que quase todas as vinhas já estavam secas. Quando eu senti segurança, começamos a fazer… testes, jogar coisas e a cutucar as vinhas. Nada aconteceu. Nenhuma vinha se mexeu, nem as verdes. Achamos que a planta… tinha morrido”, explica Brok. “Só que… no mesmo dia ela atacou de novo.”
Rubi franze a testa. “Quem ela atacou?”, ela pergunta, intrigada.
“Não foi um de nós. Um… pássaro pousou acima de uma das vinhas verdes e foi repartido no meio”, conta o orc. “Foi aí que… eu vim verificar a planta e a encontrei viva, só que com todos os ramos caídos, igual folhas secas. Os únicos cipós que restaram verdes são os que brotam do chão, espalhados lá fora.”
“São os que vêm das raízes dela”, completa Yrah.
“Aqueles lá… não nos atacam, mesmo pisando em cima, mas ainda atacam qualquer um que não seja da nossa tribo”, completa Brok.
Rubi olha para a pequena árvore, reflexiva. “Que estranho”, comenta ela.
“É algo bem inesperado”, pontua Byron.
A raposa se volta para a diaba, com uma expressão confusa. “Mas você deu permissão para esses orcs viverem aqui, não deu? É normal isso acontecer”, ela comenta.
“Mas o que isso tem a ver?”, indaga Rubi.
“Ah… você ainda não percebeu, né?”, conclui Yrah, com um leve estreitar dos olhos.
“Pode clarear a informação? Também estou um pouco sem entender o motivo disso”, diz Byron.
A raposa se levanta e rodeia a árvore. “Eu disse, essa planta cresce em domínios de criaturas com muita magia e esse domínio aqui é seu”, explica ela. “Esse agora é o estado natural dela. Se ela tinha mais vinhas crescendo por cima, é porque o dono anterior colocou muita magia nela.”
Byron estala os dedos, com uma linha de raciocínio se acendendo na mente. “Então a presença da senhorita já demarcou essa região como lar?”, ele pergunta.
“Isso, eu acho. Tem um pouco de magia natural se misturando, por isso é um pouco difícil de perceber logo de cara”, Yrah responde.
“Calma, isso é como o seu antigo covil, Byron?”, Rubi pergunta.
“Exato”, responde o demônio, no mesmo instante. “A noite que passamos aqui já deve ter sido o bastante para marcar esse domínio como seu.”
“E devia ser fácil assim? Só chegar e dizer que é meu”, a diaba pontua, levemente perplexa.
O orc murmura, com os olhos semi-abertos, por um momento. “Eu… acho que foi exatamente isso que o dragão fez”, responde ele.
“Se não há nenhuma outra presença para questionar, a posse do território fica livre”, completa o demônio.
“Então é algo bem mais simples do que eu achei”, diz Rubi. “Eu estava pensando em algo mais complexo, como um pacto.”
Ela suspira, sentindo um pouco de alívio. Fiquei preocupada que iria ficar algo mais tenebroso e sem vida, como aquela toca do Byron, mas até que ficou bonitinho com essas plantas espalhadas por aí, reflete a diaba. Só parece um pouco… vago demais.
“Yrah, como funciona esse negócio de permissão mesmo?”, Rubi pergunta.
Antes de responder, a raposa se aproxima da diaba e se senta ao seu lado. “Qualquer um que tenha a sua magia já deve ter permissão. O restante, só você pensar no grupo ou nas pessoas que você não atacaria aqui dentro do domínio, e a planta faz o resto”, responde ela com calma.
Byron acena. “Bem prático”, ele comenta.
Em grande contraste com a reação calma do demônio, Rubi congela com a testa franzida.
Espera. Isso é vago pra caramba. Os orcs que estão aqui têm permissão porque são a tribo do Brok ou porque eu permiti orcs no geral?, ela divaga, perdida. Aqueles outros que vieram aqui não foram atacados nem nada assim… e eu nem tinha ciência da existência da tribo deles. Se alguém com permissão trouxer visitantes e eu não os conhecer, eles vão ser atacados quando chegarem perto?
“Lorde…”, chama o orc, captando a atenção da diaba.
“Pode falar. Eu me… distraí um pouco”, diz a diaba.
O orc acena. “Talvez eu tenha que… falar com os elfos. Um grupo deles abordou um dos meus mensageiros.”
O demônio encara Brok com seriedade. “O que eles querem?”, pergunta ele.
“Querem partes do dragão.”
Ein? Os elfos negros? A floresta toda está metida nisso?, Yrah se pergunta, incrédula.
“Hum. Espertos”, murmura Byron. “Eles sabem o valor que o corpo de um dragão tem.”
“O que acha, lorde?”, Brok pergunta.
Antes de responder, Rubi brevemente pondera em silêncio.
“Até que isso é bom”, diz ela. “Acham que podemos negociar com eles?”
“Qual a sua ideia?”, Byron indaga.
“Essa torre ainda está pouco vazia e tem muitos materiais aos quais não temos acesso nessa floresta. Podemos tentar conseguir alguns móveis ou equipamentos para a tribo do Brok.”
“Acredito ser bem provável”, Byron responde. “A maioria dos elfos sombrios vive em vilas subterrâneas. Acredito que seja o mesmo caso dos que vivem nessa floresta.”
“É sim”, acrescenta Yrah. “Eu ouvi falar que tem um buraco na região deles que leva até uma cidade.”
“Bem típico deles”, o demônio comenta.
Bingo, pensa Rubi, com ânimo. Eles devem ter produtos manufaturados. Podemos conseguir coisas para melhorar a cidade.
“Algumas das tribos mais ao norte já negociam com eles”, Brok constata. “Podemos tentar fazer o mesmo. Os elfos… têm de tudo. Armas, ferramentas e até… coisas mágicas. Se puder pagar, é só… pedir que eles conseguem, mais cedo ou mais tarde.”
Rubi se levanta. “Então é isso que vamos fazer. Pode marcar essa reunião”, afirma ela. “Temos recursos, vamos usá-los!”
Tenho até uma encomenda bem especial em mente, pensa a diaba.
Final do volume 10.

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