Índice de Capítulo

    Fizeram uma pausa na jornada logo após o amanhecer. 

    Anayê odiou a decisão porque cada minuto perdido significava mais distância entre eles e as crianças sequestradas. Foi somente então revelado para Heitor o motivo da presença dos dois ceifadores nas terras cintilantes.

    — Eu já perdi muito tempo enfrentando Elchor — ela pontuou sem mencionar o confronto com os próprios moradores.

    — Se você não descansar, não vai poder enfrentar um exército de maggs… e humanos — ele retrucou.

    Heitor revelou que as terras cintilantes se tornaram palco de uma guerra liderada pelo barão Mafur e, provavelmente, enfrentariam resistência por parte dos humanos. Ele mesmo estava deixando Brakivad quando se deparou com a luta de Anayê e Fenrir contra a aberração.

    — Eu sei onde ficam as montanhas que você mencionou — ele afirmou. — São as montanhas gêmeas de Omelen, conhecidas popularmente como chifres do mundo.

    A informação animou a ceifadora e, apenas depois de Heitor prometer levá-la até lá, aceitou descansar um pouco.

    Pararam na borda de um lago em formato circular, perpendicular à estrada. A água refletia o céu cinzento da manhã como um espelho imóvel.

    Heitor molhou a garganta com um odre, retirou o corpo inconsciente de Fenrir do cavalo e também molhou os lábios do ceifador, mas com outro odre.

    — A sua técnica de vento… — Heitor começou enquanto se levantava e fechava a tampa do objeto. — É deveras interessante.

    Anayê estava sentada na margem do lago. Tirara as botas, enrolara as calças até os joelhos e deixava os pés na água fria. Essa ação remontava os seus tempos de criança no vilarejo primavera.

    — Tentei aperfeiçoá-la nas colinas verdes, mas não creio que ficou tão eficiente — ela comentou. — Talvez se fosse como a sua coluna de fogo, eu tivesse derrotado Elchor com mais facilidade e Fenrir não precisasse…

    A sua mandíbula travou relembrando do momento em que o ceifador se jogara na sua frente para defendê-la de uma porção de espinhos venenosos.

    — Eu não derrotei Elchor — Heitor afirmou. — Apenas contive o seu ato suicida.

    Anayê manteve a cabeça voltada para os pés. 

    — Mesmo assim, foi uma técnica incrível.

    O ceifador caminhou lentamente até ficar ao seu lado.

    — Você utiliza a adaga para canalizar a sua energia espiritual, certo?

    Ela meneou a cabeça.

    — Posso te ensinar a encontrar um caminho para a extensão do seu poder — ele continuou.

    Ela ergueu os olhos com um brilho no rosto.

    — Sério?

    — De todos os ceifadores que já conheci — ele se abaixou. — Os manipuladores de elementos tem as técnicas com mais possibilidades de extensão.

    Heitor levantou a mão e, de repente, pequenas faíscas de fogo dançaram nos seus dedos como pequenos vaga-lumes alaranjados. A ceifadora observou, maravilhada.

    — Eu posso conseguir isso?

    — Com o seu elemento, sim.

    — O que quer dizer?

    — Os ceifadores dessa categoria só podem manipular um elemento — Heitor explicou fechando a mão e fazendo um pequeno espetáculo de luzes piscantes.

    — Entendi.

    — Exceto por um ceifador da era dourada — mencionou, enigmático. — As histórias dizem que ele podia manipular dois elementos ao mesmo tempo.

    Anayê franziu o cenho com a informação.

    — Eu mesmo já tentei… e fracassei — seu tom era melodramático. — Portanto, me foquei em melhorar as minhas habilidades com o fogo.

    Os olhos da ceifadora acompanharam-no se levantar.

    — Mas, o caminho para a extensão de poder é o mesmo, independente do elemento — explicou.

    Anayê se ergueu num pulo.

    — Então me ensine, por favor.

    Heitor sorriu.

    — Garota… — colocou a mão no peito. — Você acaba de se tornar aluna do melhor mestre dos Reinos Livres.

    Anayê assentiu, sorrindo também. E, naquele momento, agradeceu ao Deus sem face por não estar sozinha na jornada. Seus pensamentos tinham permanecido na luta com Elchor durante a noite inteira, e agora se sentia animada outra vez.

    Heitor caminhou até a sela de seu cavalo, vasculhou por um momento e voltou com um ovo de galinha.

    Anayê estreitou os olhos.

    — Pegue — ele lançou o alimento para ela.

    A ceifadora observou o ovo com cuidado sem notar nada de diferente nele.

    — A sua energia espiritual se manifesta através do vento quando canalizada na sua adaga — Heitor falou, cruzando os braços. — Agora, você vai canalizar seu poder sem depender dela.

    — Isso parece fácil — ela admitiu.

    — Você nem me esperou terminar — ele interrompeu e ergueu um dedo. — Só existe uma regra.

    Ela fitou-o, ansiosa.

    — Você não pode fechar a mão e nem quebrar o ovo.

    Anayê estancou, boquiaberta. Um imenso ponto de interrogação se encarnou em seu semblante.

    — No seu treinamento no quarto do ceifador, você canalizou sua energia e a liberou, transformando na rajada de vento — Heitor continuou. — Depois, pelo que entendi, você treinou sozinha e adaptou o tamanho da rajada de vento.

    — Foi sim — ela confirmou.

    — Muito bem — ele voltou a cruzar os braços. — Agora, quero que faça o contrário.

    Anayê franziu o cenho.

    — Ao invés de liberar a energia… segure ela.

    O silêncio pairou por um instante.

    — Isso pode destruir meu braço — Anayê retrucou.

    — Pode — Heitor concordou, calmo. — Se despejar energia demais de uma vez. 

    Os olhos dela retornaram ao pequeno objeto branco em suas mãos.

    — Você não vai usar a mesma potência da sua técnica principal. O segredo é precisão. 

    Heitor esperou um instante, absorvendo o canto de um passarinho em algum lugar da floresta ao redor do lago.

    — Além disso, podemos continuar viajando sem interferir no seu treinamento.

    A notícia a deixou ainda mais animada.

    — Enquanto vou comer, você pode treinar.

    E assim, ele caminhou na direção da sua sela, vasculhou a bolsa e tomou um pedaço de pão que havia pegado na casa do vilarejo.

    Anayê, no entanto, nem reparou nisso. Toda a sua atenção era distribuir um pouco da sua energia para a palma da mão com cuidado. Em seguida, começou a deixar o poder se esvair, o que gerou um pequeno formigamento nos dedos.

    No instante seguinte, uma faísca semelhante a um pequeno raio riscou a palma da sua mão e derreteu o ovo num piscar de olhos. Ela se espantou, recuou um passo e mirou o ceifador.

    — É melhor não perder esse alimento — Heitor falou correndo na direção dela e colocando o ovo derretido em uma vasilha redonda. — Não achou que ia acertar de primeira, né?

    Anayê não respondeu. Heitor entregou outro ovo para a ceifadora, se sentou de pernas cruzadas e molhou o pão no ovo derretido.

    — Vamos lá, tenho uma dúzia de ovos esperando — ele mencionou, divertido.

    Anayê curvou os lábios e retornou ao treinamento.

    O fluido correu em seu corpo, se transformou em energia, passeou por sua mão, mas sequer faíscas saíram dessa vez, exceto por um estalo nada aconteceu.

    A ceifadora observou o objeto, frustrada.

    O ovo tinha rachado.

    E, no momento posterior, Fenrir se ergueu de repente como alguém arrancado de um pesadelo. O ar entrou rasgando seus pulmões enquanto seus olhos esbugalhados procuravam inimigos ao redor.

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