Capítulo 155 | Ala de Cura
A ala médica ocupava o que outrora serviu como um celeiro de pedra. As paredes grossas de calcário mantinham o interior fresco e isolavam o barulho vindo da arena de treinamento.
Calixto caminhou entre as fileiras de leitos e apontou para uma enxerga de palha limpa em um canto afastado.
— Tire a armadura e pode deitar aqui — indicou. — Comporte-se e deixe as curandeiras trabalharem. Não quero reclamações sobre sua conduta.
Teseu assentiu e, após retirar a couraça e o pteruges1 acomodou o peso sobre a palha seca. O material rangeu sob seu corpo.
Sentiu o latejar rítmico em seu flanco diminuir conforme a imobilidade se estabelecia. Repousou a cabeça e observou o teto de vigas de madeira escura.
Plutarco buscou um banco de madeira no canto da sala, ajeitou a bolsa de pergaminhos no colo e iniciou o movimento para se sentar.
— Você não — Calixto interrompeu o escriba com um gesto firme.
O homem estancou o movimento e manteve o corpo em um ângulo incerto.
— Não se pode sentar nesse lugar?
A moça soprou ar pelo nariz com um sorriso.
— A ala médica é um local para os doentes. Pessoas sãs trazem sujeira para o ambiente e ruído para os ouvidos de quem precisa de repouso. Além de correr o risco de contrair uma febre desnecessária. Mostrarei seus aposentos agora.
Plutarco olhou para Teseu em busca de apoio. O rapaz fechou os olhos e fez um aceno breve com a mão, em sinal de concordância com a ordem da mulher.
Resignado, o homem suspirou, ajeitou a túnica e acompanhou Calixto em direção à saída. O som das sandálias dos dois contra o chão de pedra se afastou até que o silêncio dominou o recinto, quebrado apenas pela respiração pesada de um homem em um leito distante.
O silêncio do celeiro permitiu que Teseu mergulhasse em seus próprios pensamentos. Fechou os olhos e sentiu o peso dos últimos meses sobre as pálpebras.
A imagem de Hermes surgiu em sua mente. Questionou o paradeiro do deus e antigo amigo, esperava que estivesse bem.
O sumiço repentino da Dríade também o perturbava. A entidade das florestas partira sem explicações claras e deixara um vazio que nem mesmo a presença de seus novos aliados preenchia. Ainda retinha seus poderes, que pareciam crescer constantemente, mas o que isso queria dizer?
E Ágata…
Onde estaria sua amiga?
Após tanto tempo do sumiço, se perguntava se Hermes tinha sido capaz de encontrá-la. Será que ela estava bem com a feiticeira Circe?
O calor de um pano úmido contra o corte em seu flanco interrompeu suas reflexões. O contato súbito e quente disparou seus instintos de combate. Teseu abriu os olhos e impulsionou o corpo para cima com um movimento brusco.
Parou o movimento quando encontrou um rosto a centímetros do seu.
Ela vestia uma túnica roxa de linho grosso que contrastava com a cascata de cabelos ruivos que caía sobre seus ombros. Sardas delicadas pontilhavam a pele clara ao redor de um nariz fino, e olhos cor de mel o encaravam com uma mistura de surpresa e pavor.
A jovem deu um passo para trás e soltou um suspiro curto. O calcanhar dela encontrou uma poça de água no chão de pedra lisa. O equilíbrio se desfez e o seu corpo pendeu para o lado.
Teseu agiu antes que a mente processasse o susto. Esticou o braço esquerdo, ignorou a dor que rasgou suas costelas e envolveu a cintura da garota com firmeza.

Ele a puxou contra si e impediu que a nuca dela encontrasse o mármore frio do piso.
Eles permaneceram imóveis por um instante. A respiração de Sophia batia contra o pescoço de Teseu, rápida e descompassada. O herói notou o tremor nos ombros da moça e o brilho úmido de seus olhos. O aroma de ervas frescas e chuva emanava da pele dela.
Como se tomasse ciência do momento, ela apoiou as mãos contra o peito de Teseu e o empurrou para trás. O rapaz soltou a cintura dela e recuou até a borda da enxerga de palha.
— Eu sinto muito — balbuciou com o rosto quente. — Eu não pretendia assustar você. Eu só…
A garota ajeitou a túnica roxa, recolheu o pano molhado do chão e virou as costas. Com passos rápidos, ela desapareceu atrás de uma divisória de lona.
Deixou para trás o rastro do perfume doce e as respirações pesadas da ala médica.
Teseu ainda encarava a divisória de lona quando uma nova figura entrou na ala médica.
Uma mulher de rosto maduro, olhos perspicazes e cabelos castanhos soltos sobre os ombros cruzou o espaço. Nos lábios, um sorriso.
Mines chutou um banco para perto da enxerga e sentou-se com a bacia de barro que trazia entre os joelhos.
— Pela sua cara, ela não te deu um beijo de agradecimento — Mergulhou um pano na água morna e torceu o excesso com as mãos fortes.
Teseu se sentou de volta na enxerga com o olhar perdido na parede à frente.
— Eu só tentei evitar que ela se machucasse…
— Com a força que Héracles agarrou o Touro de Creta.
O garoto ergueu as mãos e as observou com um olhar apertado. Fechou os punhos com um suspiro.
— Você quase a matou de susto, garoto. — A mulher disse com um tom divertido e pousou a tigela no banco de madeira antes de se levantar. — Sophia carrega temores que seus braços enormes não ajudam a tranquilizar.
O garoto abaixou a cabeça, constrangido.
— Agi por instinto. Não pretendia usar tanta força…
— Eu sei. — Ela riu baixo e tocou o ombro dele. — O seu rosto vermelho como um tomate testemunha ao seu favor.
Mines desamarrou as ataduras sujas de Teseu. Limpou o sangue seco com movimentos suaves e aplicou uma pasta de ervas fresca sobre a ferida. O toque da curandeira era firme, mas transmitia um calor reconfortante.
— O unguento vai ajudar com as feridas — Mines comentou enquanto trocava os panos. — Mas não com esses ombros tensos. Você guarda muitas preocupações para um rapaz sem um único pelo no rosto.
A fala dela fê-lo perceber a própria tensão.
— Respire profundamente.
Com um olhar incerto, o garoto acenou e obedeceu à instrução da curandeira.
— Agora solte lentamente.
Ele o fez, e sentiu sua mente esvaziar quase instantaneamente, como se sua cabeça estivesse agora cheia de ar.
Mines sorriu.
— Você fez muito forte. Desse jeito vai acabar desmaiando por conta da pressão.
O garoto se voltou para ela com olhos bem abertos e preocupados. A mulher parecia se divertir com as reações.
— Já parecem mais soltos. — Ela movimentava o ombro dele para constatar sua informação.
O garoto sorriu e voltou a encarar a saída da enfermaria.
— Calixto parece se importar bastante com você. Pediu que eu o mantivesse sob vigília pessoalmente.
— Calixto é uma amiga. — Teseu relaxou os ombros conforme a queimação cedia lugar a um formigamento frio. — Ela e os outros.
— “Os outros”. — Mines pegou uma tira de linho limpa e a colocou sobre o ombro do rapaz. — É um nome curto para um grupo tão interessante.
O olhar dela foi ao teto, como se tentasse buscar lá a imagem dos visitantes.
— O magrinho dos pergaminhos não tem calos nas mãos, e o outro tem um ar de selvageria com todos que não se mostra quando fala com você.
— O escriba se chama Plutarco, e é um grande amigo. Já o selvagem… — Teseu hesitou. — O nome dele é Licaão. Ele é um rei. Ou era. Eu não sei bem…
Mines apertou o linho com uma força que o fez morder o lábio.
— Em tempos como esses, é bom ter certeza da natureza daqueles que mantém ao seu lado.
Teseu relaxou os ombros conforme a dor diminuía.
— Ele é difícil — admitiu o rapaz em uma luta para se mover sem sentir dores. — Às vezes eu acho que ele vai nos matar no sono, e às vezes acho que ele é o único de nós que sabe para onde estamos indo. Não sei se devia segui-lo até o fim.
Mines deu um tapa leve, mas firme, no ombro sadio de Teseu. Ela começou a enrolar o linho novo com uma agilidade impressionante.
— Homens como ele são como âncoras. Ou te seguram na tempestade, ou te arrastam para o fundo do mar. — Apertou o nó final com força extra, fazendo Teseu arfar. — Mas acho que se realmente o vê como um companheiro, deve fazer o possível para não deixá-lo se afogar.
Mines levantou-se e pegou a bacia. Ela parou na porta, olhou para Teseu e soltou uma risada curta.
— E da próxima vez que for salvar a Sophia, tente não envolvê-la como um urso.
Ela saiu antes que pudesse receber uma resposta, e o garoto ficou para trás com a boca aberta e o rosto vermelho.
- Saia em tiras usada por guerreiros[↩]

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