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    A ala médica ocupava o que outrora serviu como um celeiro de pedra. As paredes grossas de calcário mantinham o interior fresco e isolavam o barulho vindo da arena de treinamento.

    Calixto caminhou entre as fileiras de leitos e apontou para uma enxerga de palha limpa em um canto afastado.

    — Tire a armadura e pode deitar aqui — indicou. — Comporte-se e deixe as curandeiras trabalharem. Não quero reclamações sobre sua conduta.

    Teseu assentiu e, após retirar a couraça e o pteruges1 acomodou o peso sobre a palha seca. O material rangeu sob seu corpo. 

    Sentiu o latejar rítmico em seu flanco diminuir conforme a imobilidade se estabelecia. Repousou a cabeça e observou o teto de vigas de madeira escura.

    Plutarco buscou um banco de madeira no canto da sala, ajeitou a bolsa de pergaminhos no colo e iniciou o movimento para se sentar.

    — Você não — Calixto interrompeu o escriba com um gesto firme.

    O homem estancou o movimento e manteve o corpo em um ângulo incerto.

    — Não se pode sentar nesse lugar?

    A moça soprou ar pelo nariz com um sorriso.

    — A ala médica é um local para os doentes. Pessoas sãs trazem sujeira para o ambiente e ruído para os ouvidos de quem precisa de repouso. Além de correr o risco de contrair uma febre desnecessária. Mostrarei seus aposentos agora. 

    Plutarco olhou para Teseu em busca de apoio. O rapaz fechou os olhos e fez um aceno breve com a mão, em sinal de concordância com a ordem da mulher. 

    Resignado, o homem suspirou, ajeitou a túnica e acompanhou Calixto em direção à saída. O som das sandálias dos dois contra o chão de pedra se afastou até que o silêncio dominou o recinto, quebrado apenas pela respiração pesada de um homem em um leito distante. 

    O silêncio do celeiro permitiu que Teseu mergulhasse em seus próprios pensamentos.  Fechou os olhos e sentiu o peso dos últimos meses sobre as pálpebras. 

    A imagem de Hermes surgiu em sua mente. Questionou o paradeiro do deus e antigo amigo, esperava que estivesse bem.

    O sumiço repentino da Dríade também o perturbava. A entidade das florestas partira sem explicações claras e deixara um vazio que nem mesmo a presença de seus novos aliados preenchia. Ainda retinha seus poderes, que pareciam crescer constantemente, mas o que isso queria dizer?

    E Ágata…

    Onde estaria sua amiga?

    Após tanto tempo do sumiço, se perguntava se Hermes tinha sido capaz de encontrá-la. Será que ela estava bem com a feiticeira Circe?

    O calor de um pano úmido contra o corte em seu flanco interrompeu suas reflexões. O contato súbito e quente disparou seus instintos de combate. Teseu abriu os olhos e impulsionou o corpo para cima com um movimento brusco.

    Parou o movimento quando encontrou um rosto a centímetros do seu.

    Ela vestia uma túnica roxa de linho grosso que contrastava com a cascata de cabelos ruivos que caía sobre seus ombros. Sardas delicadas pontilhavam a pele clara ao redor de um nariz fino, e olhos cor de mel o encaravam com uma mistura de surpresa e pavor.

    A jovem deu um passo para trás e soltou um suspiro curto. O calcanhar dela encontrou uma poça de água no chão de pedra lisa. O equilíbrio se desfez e o seu corpo pendeu para o lado.

    Teseu agiu antes que a mente processasse o susto. Esticou o braço esquerdo, ignorou a dor que rasgou suas costelas e envolveu a cintura da garota com firmeza.

    Ele a puxou contra si e impediu que a nuca dela encontrasse o mármore frio do piso.

    Eles permaneceram imóveis por um instante. A respiração de Sophia batia contra o pescoço de Teseu, rápida e descompassada. O herói notou o tremor nos ombros da moça e o brilho úmido de seus olhos. O aroma de ervas frescas e chuva emanava da pele dela.

    Como se tomasse ciência do momento, ela apoiou as mãos contra o peito de Teseu e o empurrou para trás. O rapaz soltou a cintura dela e recuou até a borda da enxerga de palha.

    — Eu sinto muito — balbuciou com o rosto quente. — Eu não pretendia assustar você. Eu só… 

    A garota ajeitou a túnica roxa, recolheu o pano molhado do chão e virou as costas. Com passos rápidos, ela desapareceu atrás de uma divisória de lona. 

    Deixou para trás o rastro do perfume doce e as respirações pesadas da ala médica. 

    Teseu ainda encarava a divisória de lona quando uma nova figura entrou na ala médica.

    Uma mulher de rosto maduro, olhos perspicazes e cabelos castanhos soltos sobre os ombros cruzou o espaço. Nos lábios, um sorriso. 

    Mines chutou um banco para perto da enxerga e sentou-se com a bacia de barro que trazia entre os joelhos. 

    — Pela sua cara, ela não te deu um beijo de agradecimento — Mergulhou um pano na água morna e torceu o excesso com as mãos fortes. 

    Teseu se sentou de volta na enxerga com o olhar perdido na parede à frente.

    — Eu só tentei evitar que ela se machucasse…

    — Com a força que Héracles agarrou o Touro de Creta.

    O garoto ergueu as mãos e as observou com um olhar apertado. Fechou os punhos com um suspiro.

    — Você quase a matou de susto, garoto. — A mulher disse com um tom divertido e pousou a tigela no banco de madeira antes de se levantar. — Sophia carrega temores que seus braços enormes não ajudam a tranquilizar.

    O garoto abaixou a cabeça, constrangido.

    — Agi por instinto. Não pretendia usar tanta força…

    — Eu sei. — Ela riu baixo e tocou o ombro dele. — O seu rosto vermelho como um tomate testemunha ao seu favor.

    Mines desamarrou as ataduras sujas de Teseu. Limpou o sangue seco com movimentos suaves e aplicou uma pasta de ervas fresca sobre a ferida. O toque da curandeira era firme, mas transmitia um calor reconfortante.

    — O unguento vai ajudar com as feridas — Mines comentou enquanto trocava os panos. — Mas não com esses ombros tensos. Você guarda muitas preocupações para um rapaz sem um único pelo no rosto.

    A fala dela fê-lo perceber a própria tensão.

    — Respire profundamente.

    Com um olhar incerto, o garoto acenou e obedeceu à instrução da curandeira.

    — Agora solte lentamente.

    Ele o fez, e sentiu sua mente esvaziar quase instantaneamente, como se sua cabeça estivesse agora cheia de ar.

    Mines sorriu.

    — Você fez muito forte. Desse jeito vai acabar desmaiando por conta da pressão.

    O garoto se voltou para ela com olhos bem abertos e preocupados. A mulher parecia se divertir com as reações.

    — Já parecem mais soltos. — Ela movimentava o ombro dele para constatar sua informação.

    O garoto sorriu e voltou a encarar a saída da enfermaria.

    — Calixto parece se importar bastante com você. Pediu que eu o mantivesse sob vigília pessoalmente.

    — Calixto é uma amiga. — Teseu relaxou os ombros conforme a queimação cedia lugar a um formigamento frio. — Ela e os outros.

    — “Os outros”. — Mines pegou uma tira de linho limpa e a colocou sobre o ombro do rapaz. — É um nome curto para um grupo tão interessante.

    O olhar dela foi ao teto, como se tentasse buscar lá a imagem dos visitantes.

    — O magrinho dos pergaminhos não tem calos nas mãos, e o outro tem um ar de selvageria com todos que não se mostra quando fala com você.

    — O escriba se chama Plutarco, e é um grande amigo. Já o selvagem… — Teseu hesitou. — O nome dele é Licaão. Ele é um rei. Ou era. Eu não sei bem…

    Mines apertou o linho com uma força que o fez morder o lábio.

    — Em tempos como esses, é bom ter certeza da natureza daqueles que mantém ao seu lado.

    Teseu relaxou os ombros conforme a dor diminuía. 

    — Ele é difícil — admitiu o rapaz em uma luta para se mover sem sentir dores. — Às vezes eu acho que ele vai nos matar no sono, e às vezes acho que ele é o único de nós que sabe para onde estamos indo. Não sei se devia segui-lo até o fim.

    Mines deu um tapa leve, mas firme, no ombro sadio de Teseu. Ela começou a enrolar o linho novo com uma agilidade impressionante. 

    — Homens como ele são como âncoras. Ou te seguram na tempestade, ou te arrastam para o fundo do mar. — Apertou o nó final com força extra, fazendo Teseu arfar. — Mas acho que se realmente o vê como um companheiro, deve fazer o possível para não deixá-lo se afogar.

    Mines levantou-se e pegou a bacia. Ela parou na porta, olhou para Teseu e soltou uma risada curta.

    — E da próxima vez que for salvar a Sophia, tente não envolvê-la como um urso.

    Ela saiu antes que pudesse receber uma resposta, e o garoto ficou para trás com a boca aberta e o rosto vermelho.


    1. Saia em tiras usada por guerreiros[]

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