O sol brilhava forte quando Árnion riscou um círculo no chão do quintal.

    — Você conhece as regras, Ethi — disse, apoiando as duas espadas de madeira nos ombros — se me tirar daqui você escolhe o jantar.

    — Hoje vamos ter carne com batatas! — declarou Ethos, com um sorriso confiante.

    — Hahahá! O que está esperando? Tente a sorte!

    Ethos avançou, levantando poeira ao correr. Primeiro, tentou um golpe direto.

    PLAC!

    O pai bloqueou com apenas uma espada, mantendo a outra apoiada no ombro.

    O garoto sentiu seu braço vibrar com o impacto das espadas, quicou para trás e caiu sentado.

    — As pernas, Ethi. Não esqueça o centro de gravidade!

    — Blábláblá. Segura essa! — Ethos rosnou e avançou novamente.

    Ele fez uma finta para a direita e sumiu em um sopro. Reapareceu atrás do pai, lâminas cruzadas.

    PLAC!

    Árnion bloqueou sem nem olhar, como se previsse tudo.

    — Nada mal, mas ainda muito lento.

    Ethos, enquanto corria, concentrou um fluxo de energia que saía do peito, percorria o corpo e chegava aos pés. Ele saltou por cima do pai, com a ajuda da magia de vento, e usou a luz do sol como distração.

    No mesmo instante, ele ativou uma magia que havia posto sob o pé esquerdo de seu pai, fazendo o solo afundar alguns centímetros, tentando desequilibrá-lo.

    Árnion perdeu o equilíbrio de leve, o suficiente para Ethos gritar, com confiança:

    — Agora você já era, Velhote!

    Ele mergulhou no ataque final. Rodou o ar ao seu redor para que o golpe tivesse maior impacto. Era apenas meio segundo, mas com a gravidade e a magia ele conseguiu uma velocidade absurda.

    Não tem como ele escapar, pensava. Ele havia planejado a semana inteira esse golpe. Não tinha erro.

    Ele avançava a toda velocidade.

    O cabelo negro sacudia com o vento.

    Seu sorriso não escondia sua ansiedade para enfim ter uma vitória contra seu pai.

    POW!

    Em um pé só, Árnion simplesmente se inclinou o suficiente para o garoto passar reto por ele, dando de cara no chão.

    — Muito criativo, Ethi — gargalhou Árnion, provocando. — Isso foi uma runa no chão? Aprendeu direitinho com sua mãe, mas não vai ser suficiente. Hahahá!

    Ethos se levantou, com a cara cheia de terra e o rosto vermelho pela pancada no chão. Sacudiu a poeira, cuspiu um pouco de grama que tinha entrado em sua boca e bufou, tremendo de raiva.

    — SEU CHATO! Você vai ver só!

    Ethos, irritado, avançou novamente, mas agora de forma displicente.

    PLAC!

    A espada de Ethos voou longe enquanto ele ficou parado, de mãos vazias, olhando para seu pai, sem acreditar.

    — Eu já falei, Ethos — suspirou o pai, cruzando os braços. — Não adianta pular etapas, você está muito ansioso.

    — Eu achei que dessa vez eu conseguiria! Como é possível que depois de QUATRO anos eu não tenha feito você dar nem UM único passo para trás?!

    — Já falei, filho, você deve se concentrar no progresso e não no resultado. Lembre-se, cada dia um pouco mais, um passo de cada vez.

    — Mas se você nunca se move, como vou fazer você sair da linha?

    Árnion sorriu levemente.

    — Você não precisa ter pressa, eu mesmo demorei mais de oito anos para tirar seu avô do círculo.

    — Mas o vovô era um militar, ele devia ser muito forte já que lutou na guerra contra os seres do outro lado… Você… é só um fazendeiro! — Ethos começou a coçar o olho. — Se eu não consigo nem ganhar de você, como vou vencer alguém realmente forte? Eu já sou menor que meus amigos… vou ser sempre o mais fraco…

    Ethos voltou a se posicionar e seguiu tentando atacar seu pai, já muito frustrado.

    Então…

    CLAC-CLAC-CLAC — passos atrapalhados ecoaram na varanda. Uma garotinha surgiu carregando dois copos enormes de água, derramando metade pelo caminho.

    — Ethiii! Papaii!! A mamãe mandou água! — gritou Íris, sorrindo e cambaleando.

    — Íris… Cuidado! — Ethos se virou para ver a irmã, preocupado.

    PLAC!

    — Aiii, papai… — Ethos esfrega a mão atrás da cabeça. — Por que você me bateu?

    — Morreu! Hahahá! — Gargalhou Árnion, zombando do garoto — Já falei mil vezes, Ethi: distração é morte em uma batalha!

    — Mas…

    — Sem “mas”. Vamos fazer uma pausa.

    O vento soprava leve, como uma brisa que acariciava o campo.

    O sol brilhava forte no céu.

    A paisagem se completava com a trilha sonora da natureza: Pássaros cantando, galinhas ciscando, um mugido distante e porcos roncando…

    Os dois se sentaram sob a sombra de uma árvore para se refrescar. Árnion passou a mão na cabeça de Ethos, sacudindo a poeira dos cabelos.

    — Ethi… — disse com serenidade — a esgrima não é sobre vencer. Não é sobre força ou pra machucar. A esgrima é para proteger! Proteger a si mesmo e a quem você ama…

    — Mas proteger de quê, papai? Os sete heróis já não trouxeram a paz?

    Árnion ficou em silêncio por um breve momento, olhando para o chão. Tomou um pouco de ar e disse, com um tom sério:

    — A paz nunca é garantia, filho. Como o vento, a vida muda de direção sem avisar. No futuro, vai haver momentos em que você vai precisar ser forte… pra proteger aquilo em que acredita… e, principalmente, cuidar de quem ama. Um dia você vai entender o papai.

    Ethos, com um pequeno galho de árvore, rabiscava o chão com uma expressão séria, ouvindo com atenção.

    Árnion ajeitou levemente a postura e completou:

    — Por enquanto, você deve aproveitar para aprender aos poucos, do jeito certo. Você tem a mim, a mamãe e o vovô para cuidar de você… Por isso, você deve aprender com calma, um passo por vez.

    Um breve momento de silêncio caiu entre eles.

    Fuuuush… O vento batia.

    Ethos suspirou, pensou e franziu a testa.

    — Mas você poderia me deixar ganhar só uma vez! É muito frustrante nunca vencer…

    Árnion riu baixinho e apoiou o cotovelo no joelho.

    — É… eu poderia, mas aí eu estaria mentindo pra você.

    Ethos encarou seu pai e levantou as sobrancelhas, confuso.

    — Mentindo? Como assim? Me deixar ganhar é… mentira?

    — Sim. Se eu te deixar ganhar, você vai se sentir bem. Porém, quando você realmente me vencer não terá valor — Árnion se inclinou levemente em direção de Ethos. — Você nunca vai saber se realmente venceu de verdade ou se só deixei. E aí… qual o sentido? Como você vai acreditar na palavra de seu velho pai?

    O garoto continuou a rabiscar no chão, pensando sobre o que seu pai havia dito.

    Depois de tomar alguns segundos ele perguntou:

    — A palavra é algo tão importante assim?

    — É essencial, eu diria. Uma palavra pode ser mais forte que um exército.

    Ethos riu.

    — Você tá exagerando, pai. Hahahá!

    Árnion sorriu, passou a mão na cabeça do filho, bagunçando seus cabelos enquanto sorria.

    — Um dia você vai entender!

    Ethos sorriu por um momento. Largou o ganho e arrancou alguns pequenos matos do chão. Estava pensativo.

    — E segredos, papai? São mentiras? Você tem segredos?

    — Todos temos segredos, filho, são parte da vida. Eles são importantes. E se alguém confiar um segredo a você, proteja! Isso é uma prova de confiança — e confiança vale mais que ouro.

    — Guardar um segredo de alguém também faz parte do “ter palavra”, certo? Acho que entendi, papai — ele pegou uma pedrinha no chão e a arremessou, fazendo-a quicar algumas vezes. — Eu posso esconder coisas de você? — completou.

    Árnion gargalhou, enquanto Ethos olhava sério, sem entender, voltando a rabiscar com o galho.

    — Agora não, pestinha. — Deu uma risada de leve e bagunçou os cabelos de Ethos mais uma vez. — Por enquanto, você é uma criança, é melhor você não guardar segredos. Você pode confiar na gente sempre! Nós só queremos o seu bem.

    O galho de Ethos se quebrou.

    — Acho que estou entendendo, papai…

    — Que bom, filho. — Árnion se levantou, sacudiu as roupas. — Agora chega de moleza. Treinamento e depois você dá comida aos porcos.

    — Ah, não… — Resmungou Ethos, rindo levemente enquanto se levantava.

    E a noite chegou.

    — Íris, hora de dormir! Ethi, você também — gritou Ophélia.

    — Ah, mamãe, não estou com sono! — resmungou Ethos.

    — Eu sei, filho. Porém está na hora, amanhã você acorda cedo.

    — Me conta aquela história, por favor! A dos sete heróis… Por favorzinho!

    Íris sacudiu as pernas de empolgação com a ideia.

    — Sim, mamãe, por favorrrr….

    Ophélia suspirou, vencida.

    — Tá bom…

    Ela ajeitou as crianças em suas camas e se sentou em um banco que tinha no quarto. Parou por um segundo, respirou e começou a história, com uma voz calma e suave:

    ***Há muitos anos, o mundo era dividido em oito grandes reinos, cada um sob a proteção de um deus.

    Os deuses se fortaleciam com os sentimentos humanos, e podiam intervir graças a um poder que chamamos de influência. Era uma troca mútua, os humanos rezavam para os deuses e os deuses protegiam os humanos.

    Mas havia um em particular: o Deus do Medo. Ele se nutria do terror, do medo e sentimentos negativos das pessoas. Porém, com o mundo em paz, ele não conseguia se fortalecer, e por isso não ameaçava o equilíbrio do mundo…***

    — Buuuh, odeio o deus do medo — reclamou Íris.

    Ethos riu, Ophélia também.

    Ela continuou:

    ***…Certo dia, uma grande guerra se espalhou pelo mundo. O medo se espalhou e o poder do deus do medo cresceu como nunca. E sua influência começou a superar a dos outros deuses.

    Temendo perder completamente o equilíbrio, os sete deuses se uniram e escolheram cada um seu representante: os sete heróis. Cada um veio de um reino com o objetivo de trazer paz e esperança novamente para o mundo.

    Graças a eles, as guerras foram diminuindo, o medo foi dando lugar à esperança. A paz parecia possível outra vez.

    Porém, o deus do medo, embriagado pelo poder, corrompeu o próprio povo, os animais, as florestas. Transformou seu reino em um território de trevas e formou um exército de demônios que invadiu os reinos, iniciando uma nova guerra.

    Dessa vez era a humanidade contra o Reino das Trevas, os demônios eram numerosos e poderosos, alimentados pela influência acumulada durante toda a era do medo.

    Com isso, a esperança da humanidade se apagava…

    Como última alternativa, os deuses usaram suas últimas forças para dar um último presente à humanidade: as Sete Armas Sagradas, que foram entregues a cada um dos heróis. Era a última esperança de salvar o mundo.

    Com isso os Sete Heróis invadiram o Reino das Trevas, e depois de uma sangrenta batalha a guerra teve fim.

    Como resultado o deus do medo e seu reino foram selados no submundo e a humanidade enfim chegou em seu momento de paz.

    Mas, essa vitória teve um preço: os deuses sacrificaram seus próprios nomes e perderam completamente sua influência no mundo.

    E é graças ao sacrifício dos Heróis e dos Sete deuses que hoje a humanidade vive em paz.

    Porém o deus do medo jurou que um dia iria escapar e recuperar… ***

    — Vejo que já dormiram, meus amores… Boa noite. — Sussurrou Ophélia beijando a testa de cada um antes de apagar a lamparina.

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