Capítulo 5 - O Teste
Era fim de tarde.
Toc, toc!
— Estou indo! — gritou Ophélia.
Ethos viu um senhor, com um livro na mão, cumprimentando seus pais e entrando em casa.
— Você chegou, professor! — exclamou Árnion.
— Claro. Um filho seu? É óbvio que eu viria — respondeu o homem.
Ophélia pousou suas mãos sobre os ombros de Ethos, aproximando-o do visitante.
— Ethi, quero que conheça o professor Hélion. Ele veio da capital para te avaliar.
Ethos mantinha o olhar baixo enquanto esfregava as mãos. Ele não estava acostumado com pessoas novas.
— É… boa tarde — Ethos se voltou para a mãe. — Como assim avaliar?
— Sou o avaliador da academia da capital do Império — disse Hélion, se aproximando de Ethos. — Eu posso te recomendar para exame de ingresso — ele ajeitou os óculos. — Você completou quinze anos mês passado, certo? Já pode fazer o teste.
— Sério? — Seus olhos se abriram um pouco mais, enquanto a timidez dava lugar à empolgação. — Eu sempre quis entrar! Li que é a maior academia do mundo. Mas fica tão longe… O senhor veio só pra isso?
— Calma, garoto — o professor sorriu de canto. — Ele faz muitas perguntas, não? — comentou, olhando para os pais.
— Nem me fale — suspirou Árnion.
O homem ajeitou os óculos e continuou.
— Normalmente, as avaliações são feitas dentro das escolas. Mas você nunca foi à escola. Teve aulas em casa com seus pais.
— Isso é ruim? — perguntou Ethos.
— Mais ou menos. No seu caso é preciso uma carta de recomendação de um professor para fazer o exame. Como eu tinha negócios aqui por perto, vim avaliar você como um favor ao seu pai e seu avô. Até porque um Emetiel precisa entrar na academia.
Emetiel? Minha família é importante?
Bem… deve ser por causa do vô. Ele realmente é alguém com contatos.
— Ah, claro… o vovô era um grande general, né?
— Sim! Mas seus pais tamb…
— Isso — cortou Árnion. — Graças ao vovô — ele apontou para a mesa, convidando-os para sentar. — Chega de perguntas, Ethi.
— Certo — respondeu Hélion, ajeitando os óculos. — Agora, garoto, vem cá. Vou te mostrar como é feito. Você já deve saber como funciona um núcleo de mana, certo?
— Sim, fica próximo ao coração. É algo que todos temos; porém, cada núcleo é único, né? Minha mãe me ensinou que era algo como as digitais: todos temos, mas são sempre diferentes.
Hélion abriu o livro sobre a mesa.
— Exatamente. E como você deve saber, como o núcleo será depende muito da sua linhagem sanguínea e sua forma é definida assim que você nasce. Ou seja, se seu núcleo for ruim não há nada que possa ser feito.
Ethos começou a roer as unhas. Não foi isso que Leo me ensinou, pensou Ethos. Como assim decidido “quando nasce”? Não me parece certo isso, mas não vou questionar, ele parece ser algum tipo de autoridade.
— O que vou medir primeiro — seguiu Hélion — é a composição do núcleo, ou seja, vamos descobrir com qual elemento você possui maior afinidade — ele tirou os óculos e limpa as lentes em um pequeno pano que tirou do bolso. — Agora, coloque a mão sobre o livro.
Ethos apoiou a mão direita, sentiu como se um pouco de energia estivesse sendo sugado. Livros catalisadores eram raros e caros, usados apenas por avaliadores oficiais.
Alguns segundos depois o livro começou a brilhar em diferentes cores.
— Muito bem… — disse Hélion, ajeitando os óculos. — Agora vamos ver os resultados: Ar: 60%; Terra: 20%, Água: 13%, Fogo: 4%, o resto: 3%. Você até tem um elemento predominante, mas nem tanto. Vai depender do próximo teste.
— Como assim? — Ethos batia o pé no chão de ansiedade.
Hélion se virou para ele e explicou:
— Basicamente, quanto mais especializado, melhor. O ideal é ter a alta concentração de um único elemento. Seu pai e seu avô, por exemplo, mais de 95% é fogo.
Ethos ficou cabisbaixo com a notícia.
— Mas calma, garoto — disse Hélion, erguendo a mão. — Predominância não é tudo. Existia uma grande maga no passado que possuía todos os sete os elementos equilibrados. A diferença? A densidade! O núcleo dela era absurdamente denso. E quanto maior a densidade, mais fácil e mais forte será a magia.
Ethos assentiu de leve.
O garoto tentou acompanhar, mas o professor falava rápido demais. Será que me falta experiência para entender coisas complicadas? Ou será que o velho simplesmente não sabe respirar entre uma frase e outra? Esses óculos dele precisam de conserto…
O professor virou algumas páginas do livro. Ethos apoiou novamente a mão sobre o livro e um pouco de sua energia foi sugada.
Um brilho intenso se espalhou pela casa.
— Uou! — Hélion arqueou as sobrancelhas. — Esse foi forte! Vamos ver… — ele apoiou sua mão sobre o livro para analisar o resultado.
— Caramba! Definitivamente isso é bom! Muito bom!
— Sério?! — perguntou Ethos, agora animado.
— Sim! Para sua idade é impressionante. Meus parabéns, garoto, você está aprovado para o exame do ano que vem — Hélion se arrumou na cadeira e ajeitou os óculos. — A carta com as instruções chegará em breve.
Ethos passava os olhos pelo livro, por seus pais, por Hélion, pelos óculos escorregando mais uma vez. Estava visivelmente confuso.
— Ainda não entendi bem…
— Para simplificar — Hélion ajeitou os óculos e começou a gesticular com as mãos. — Digamos que você tem um total de 100 partículas. Então, 60 são de vento. Seu pai tem menos partículas… digamos: 90. Porém, dessas 90, 88 são de fogo. Está me acompanhando?
Ethos assentiu.
— Ou seja, por mais que seu núcleo tenha mais magia, seu pai ganha quando o assunto é um único elemento.
Os pés de Ethos sacudiam com mais intensidade.
— Por isso é importante se especializar em algo. Porque, no fim, as magias de fogo do seu pai vão superar as suas de vento. Mas, por outro lado, alguns magos são fora da curva, por exemplo se você tem 100… — Hélion cruzou os braços —, aquela maga tinha dez mil. Pra ela não importa a porcentagem, ela tem muita quantidade de tudo.
Ethos recuou um pouco na cadeira.
— Nossa, isso quer dizer que eu sou fraco, não?
— Na verdade, não. Você pode fortalecer seu núcleo até aproximadamente 21 anos de idade. Mas a afinidade, em geral, você adquire antes dos 15. Recomendo você focar no vento.
Mas um elemento só é um pouco chato, pensou Ethos.
— Além disso — completou Hélion. — Os números não são reais, são só para você ter uma ideia, — ele se levantou. — Acredite, se eu te aprovei é porque tem talento, eu tenho um nome a zelar!
Hélion guardou o livro em sua bolsa.
Ethos relaxou um pouco mais na cadeira, se animando com a aprovação. Ophélia puxou o garoto pelo braço e começou a pular e gritar de alegria.
— Vem, filhote! Vamos comemorar como você sempre fazia. Hahahá. Ou não tem mais idade pra pular e gritar com sua mãe?
O garoto, meio envergonhado, caiu na provocação da mãe e começou a pular junto.
Logo, Árnion se juntou a pequena festa. Era um momento de celebração, afinal.
Íris acordou com a gritaria. Ela arrastava seu cobertor pela casa e seus cabelos pareciam de um ouriço.
Todos riram dela, que logo se juntou a festa, mesmo sem entender o que estava acontecendo.
Ao final, Ethos, como sempre:
— E como é o teste? Tem muita gente? O que preciso fazer? Tem prova escrita? Como faço para chegar? Pai, você vai comigo, né?
E assim a noite seguiu — risadas, brincadeiras, comemoração e ansiedade pelo futuro. A sensação era de que o mundo estava ficando cada vez maior.

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