Capítulo 5 - O Teste
O vento batia frio naquela manhã.
Ethos caminhava junto de sua mãe pelo longo caminho na floresta. Ele roía as unhas enquanto sua mente estava distante.
Pah! — ele sentiu um leve tapa em sua mão.
— Tira o dedo da boca, Ethi! Você já tem quinze anos, não tem mais idade para fazer isso — disse Ophélia, franzindo a testa. — Não vai querer ser igual seu pai até nos podres, né?.
— Foi… mal, mãe — respondeu, passando a mão atrás da cabeça. — Eu nem percebi.
Vendo sua reação, Ophélia suspirou e apoiou sua mão sobre o ombro do garoto.
— Eu sei que você está ansioso — ela abriu um sorriso doce. — Mas não precisa se preocupar, eu sei que você vai se sair bem no exame. Sendo sincera, você sabe muito mais do que deveria para sua idade.
Mesmo ouvindo aquilo, ele seguia a caminhar olhando para o chão.
— Você é minha mãe, claro que vai dizer essas coisas — Ele apertou os punhos com força..
Ela inflou as bochechas de leve e bateu o pé com força contra o chão.
— Eu sou sua mãe, mas também sou sua professora, mocinho. Eu sei bem como você quer entrar na academia que o sr. Leo falou tanto, mas você estudou e praticou muito. Confia em sua mim, você vai conseguir — ela estufou o peito e deu um sorriso largo. — A mamãe nunca erra, pode perguntar pro seu pai!
— Hahahá — Ethos deixou escapar uma risada. — Ele disse mesmo algo assim….
O garoto suspirou fundo e chutou uma pedrinha que estava no caminho.
— Não é só pelo que Leo disse. Você e o pai se conheceram lá, não foi? Sempre me contaram histórias da época da academia. Quero saber como é com meus próprios olhos.
Ophélia deu um leve sorriso.
O vento carregava algumas folhas enquanto eles seguiam caminhando. Pouco tempo depois, eles param numa espécie de bosque mais aberto.
— Mãe, você pode me explicar de novo sobre os sete elementos? Quero ter certeza de acertar tudo o que eu puder.
— Claro!
Ela ergueu uma das mãos e uma luz vermelha surgiu. Dessa claridade, um amontado de raízes e pedregulhos minúsculos circularam o seu punho.
— O vermelho representa a terra. É o elemento da raiz, da estabilidade, o “eu sou”.
Ophélia levantou seu braço novamente e agora uma luz laranja brilhou, fazendo pequenas gotas se aglomerarem, formando uma pequena bola de água.
— O laranja é a água. O elemento sacral, da criatividade, o “eu sinto”.
Ethos observava atento. Ele acompanhava cada movimento da mãe sem piscar. Era incrível a sutileza e precisão dela com a magia.
— Mais em cima, temos o…
— Plexo solar — interrompeu Ethos. — Amarelo do fogo.
Um brilho amarelo emanou da mão de Ophélia. Ela estalou os dedos e uma chama se formou.
— Muito bem! — ela seguiu. — Fogo é o elemento da confiança, o “eu faço”.
— Igual o pai, excesso de autoconfiança. Hahahá.
— Seu pai está mais para um chato — Ela riu junto. — A próxima seria… você sabe?
— Ah! Essa eu sei — Ethos sorriu e um brilho verde surgiu de sua mão, fazendo uma corrente de ar girar sobre sua palma. — Verde é o vento, o elemento do coração.
— Ele combina muito com você, filho — disse Ophélia enquanto passava a mão nos cabelos de Ethos. — É o elemento do amor, o “eu amo”.
Ethos ficou com as bochechas levemente vermelhas.
— T-Tá bom, mãe, vamos seguir… Eu não me lembro do próximo.
Ela ergueu novamente uma camada fina de terra que ficou parada sobre sua mão. Então, uma luz azul surgiu, produzindo um som agudo como o cantarolar de um pássaro e fazendo a terra vibrar.
— O azul é o som. Elemento da garganta, da comunicação. É o “eu falo”.
— Eu ainda acho estranho que o som é a vibração das coisas — disse Ethos, encarando a terra vibrando. — O que escutamos é o ar vibrando, isso ainda não faz muito sentido.
Ophélia riu de leve.
— É bem estranho mesmo. O próximo — seguiu. — É o terceiro olho, o “eu vejo”… mas a mamãe não consegue te mostrar esse.
— Ah! — interrompeu Ethos. — A cor de anil, certo? O elemento da mente. Esse é o que menos entendo.
— Isso. Ele é muito raro e ninguém sabe ao certo como funciona esse elemento, já que o segredo de como obtê-lo é guardado por poucas pessoas.
O menino levou as mãos até a cintura.
— Pelo menos não vão perguntar sobre na prova, né!?
— Hahahá — ela riu alto.
Ela tomou um pouco de ar e continuou.
— Por último — ela apoiou o dedo no queixo—, vem o violeta. É tão raro quanto o anil. É o “eu compreendo”. É o elemento espiritual.
— Desse eu tenho medo — disse Ethos, levantando as sobrancelhas. — Vovô me contou que as pessoas com esse elemento são geralmente doidas.
— Não é bem assim — respondeu Ophélia franzindo a testa de leve. — São pessoas diferentes, eu diria. Eu conheci uma maga espiritual, ela gostava de falar com as árvores — ela deixou escapar uma risada sutil. — Mas era uma ótima pessoa.
— Eu hein, falar com árvores?
Eles seguiram caminhando após tudo e um breve período de silêncio pairou. Até que Ethos se virou bruscamente para a mãe, com os olhos arregalados.
— Depois do teste podemos ver os dragões? Por favor…
— Que susto, Ethi — disse Ophélia, levando a mão ao peito. — Eu estava distraída… Se der tempo podemos ir sim. Mas vai depender da hora que você for chamado.
— Tá bom! — respondeu animado.
E continuaram a viagem até chegar ao vilarejo.
Era um lugar pequeno e tranquilo. As casas eram espalhadas com ruas desorganizadas e as pessoas iam e vinham por todos os cruzamentos.
Ethos só tinha ido algumas vezes até lá, já que ficava há algumas horas de caminhada. A única pessoa que conhecia ali era seu amigo de infância, que ia o visitar de tempos em tempos, já que sua mãe era amiga de Ophélia.
— Chegamos, Ethi — disse Ophélia. Eles pararam em frente a um grande edifício com muitas janelas e uma grande porta. — Essa é a escola, o local do teste.
O rapazinho engoliu seco. Suas mãos suavam enquanto o nervosismo voltava a tomar conta de seu corpo.
— Pode entrar… — Ophélia deu um empurrãozinho de leve nas costas do garoto. — Eu não posso te acompanhar. Então, vou ficar fazendo compras. Me encontra por lá quando acabar, tá bom?
— T-ta bom, mãe. — Ethos apertava suas mãos sobre o peito enquanto dava seu primeiro passo em direção à escola.
— Filho — ela o abraçou por trás. — Vai ficar tudo bem, faça seu melhor que você vai conseguir.
Ele respirou fundo, soltando o ar lentamente.
— S-Sim! Eu consigo! — Ele forçou um sorriso tentando parecer confiante e seguiu em frente.
…
O céu começou a tingir de laranja enquanto o sol ia se pondo.
Ophélia estava na frente da escola, batendo o pé de ansiedade.
Que demora, todas as outras crianças já saíram, pensava.
Até que, a porta se abriu e Ethos saiu com os olhos cansados. Ele correu em direção à sua mãe e pulou nos braços com um abraço forte.
— Eu consegui! — gritou ele.
— Eu sabia, filho! Meus parabéns! — Ela gritou junto. — Você demorou, fiquei preocupada.
Ethos soltou sua mãe e ambos começaram a caminhar.
— Sim, foi muito demorado — ele suspirou. — Todos os outros saíram rapidamente, só ficou eu lá. Acho que eu era o único que queria ir para a capital.
— Entendo. Mas mesmo assim, demorou demais.
— Pois é! — Ethos cruzou os braços. — Era um velhinho com óculos. Ele falou que conhece vocês. Professor Hélion, você conhece?
— Sim! — disse Ophélia, surpresa. — Ele ainda dá aulas? Ele foi professor meu e do seu pai.
— Ah, entendi. Ele deve ter uma ótima memória por lembrar de vocês depois de tantos anos, né?
— É — ela olhava para os lados, meio sem graça. — Mas o que ele disse?
— Ele fez muitas perguntas, intermináveis! — Ethos bufou enquanto seus ombros murchavam. — Perguntou minha opinião a respeito de algumas teorias e depois mediu meu núcleo de mana usando um livro.
— Ele é assim mesmo… — Ophélia deu um leve sorriso.
— Depois ele queria ver como eu usava as espadas contra um boneco de madeira. Ele disse que eu me saí bem.
— Que bom, Ethi! Estou muito orgulhosa, vamos comemorar com sua comida preferida!
— Carne ensopada com batatas? — ele levantou os braços em alegria.
— Isso mesmo! — Ela sorriu largo enquanto adentravam novamente a floresta.
— Alguém tem que avisar ao professor que ele precisa arrumar os óculos — disse Ethos coçando a cabeça.
— Os óculos ainda caem? Hahahá — Ophélia gargalhou.
— Sim, ficavam escorregando toda hora. Era difícil me concentrar.
E assim, com Ethos exausto, mas orgulhoso, eles retornaram para a casa durante o fim do entardecer.

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