Ophélia terminava de arrumar a mesa quando Ethos desceu as escadas correndo.

    — Bom diaa!! — sentou-se à mesa e mordeu um pedaço de pão. — Eu vou na casa do Léo hoje, tá bom? Terminei de ler os livros que ele me emprestou e vou devolver. Os livros são demais, mas eu tô cheio de perguntas.

    Ophélia sentou-se à mesa.

    —Não volte tarde, você tem que estudar, viu?

    — Tá bom, mãe!

    Ethos engoliu o pão e já estava correndo até a porta quando Árnion o parou:

    — O lixo!

    O menino parou abruptamente.

    — Mas pai…

    — Sem “mas”.

    —Tá bommm… — resmungou Ethos, enquanto voltava para recolher o lixo da casa.

    Ophélia descansou a caneca de café sobre a mesa e sorriu:

    — Engraçado… quem diria que aquele velho ranzinza acabaria “adotando” o Ethi. Lembro do susto que tomei quando ele chegou em casa falando que conheceu um velho maluco que explode coisas. Fui lá preocupada, pronta pra brigar… e era o senhor Leo. Hahahá.

    Árnion se ajeitou na cadeira e gargalhou.

    — Pois é, eu nem acreditei que aquele velho estava escondido aqui perto esse tempo todo. Espero que um dia ele consiga voltar pra casa.

    — Sim, eu tenho certeza de que ele vai conseguir…

    Três anos antes…

    — Tá vendo? E-Eu disse que a casa era assustadora…! — sussurrou Matheus, o amigo de Ethos. Suas mãos suadas acompanhavam o tremor da voz enquanto se escondia, apavorado, atrás de uma árvore.

    — V-você tinha razão… até que é meio assustadora — respondeu Ethos, apertando o tronco de outra árvore, tentando parecer corajoso. Mas seus joelhos balançando diziam o contrário.

    — Mamãe falou que tem um fantasma aí dentro… que só de chegar perto já dá pra escutar uns sons estranhos, tipo explosões!

    Ao ouvir aquilo, Ethos paralisou por um instante. Mas, logo, olhou para o amigo indignado, gritando sussurradamente:

    — Mas antes de me conhecer você me chamou de fantasma também, só porque eu moro afastado…

    — Mas isso é diferente — respondeu cruzando os braços, emburrado. — Dessa vez é mesmo um fantasma!

    Os dois garotos observavam aquela velha casa de madeira.

    Com janelas quebradas, um jardim com muito mato e uma grama alta como se ninguém cortasse há muito tempo. Além de muitas telhas no chão e uma placa de “não se aproxime” na entrada.

    Zizzzz…

    Um som estridente acompanhado de uma luz forte emanava da janela.

    Zizzzz…

    Os garotos deram um pulo, assustados.

    — O que é isso? — disse Ethos, com o coração disparado.

    — Sei lá — o amigo quase subiu na árvore.  — Eu falei que tinha fantasmas!

    — Fantasmas estranhos…

    As pernas do amigo tremiam.

    — Vamos embora daqui logo  — disse, já se virando para ir embora.

    — Você é um cagão — Ethos levantou a voz levemente, tentando parecer corajoso.

    O amigo, ainda de costas e com raiva, sussurrou alto:

    — Duvido você ir lá e bater na porta, senhor corajoso! Hahah… — seus olhos se arregalaram. — Ethos? Onde você vai?!

    Ethos caminhava em direção à casa.

    — Ué!? Vou bater na porta. Preciso ver o que é essa luz.

    Com seus olhos curiosos, ele caminhava devagar, afastando o mato com as mãos. Sua boca estava seca e os dentes rangiam, mas a curiosidade não o deixava recuar.

    Por outro lado, Matheus apertava cada vez mais forte a árvore.

    — Você está maluco? Ethi, volta aqui!!

    A velha porta de madeira surgiu diante de dele.

    TOC-TOC.

    — Olááá? Tem alguém aí…?

    BOOOOM!

    A casa inteira tremeu. O som de uma explosão fez os vidros estilhaçarem; e os garotos, gritarem.

    Os ouvidos de Ethos zumbiam devido ao barulho.

    Ele aos poucos abriu os olhos.

    Enquanto o amigo fugia, Ethos correu na outra direção.

    — AAH!!… TÁ TUDO BEM AÍ DENTRO?! — gritou Ethos, desesperado. — TO ENTRANDO!

    Ele entrou e viu um homem com os cabelos em pé, coberto de fuligem.

    — O senhor está bem?

    O homem olhou confuso e logo se irritou.

    — Quem é você? Saia já daqui! Não sabe ler as placas? Não se aproxime dessa casa!!

    — Mas senhor, você está…

    — Já mandei ir embora, não volte mais! — gritou o velho expulsando o menino de lá.

    Lá fora o amigo estava esperando, em pânico.

    — CORRE! — gritou Ethos.

    Os meninos correram desesperados.

    — Ethi, isso foi perigoso! — exclamou o amigo, ofegante.

    — Sim, esse velho é doido. Mas, você viu que incrível aquela casa? — ele abriu os braços, empolgado. — Ele engarrafou estrelas! O teto parecia uma noite estrelada, mas de dia!

    — Como assim estrelas? Eu não reparei nada, estava morrendo de medo. Você é maluco de entrar lá. Mamãe tinha razão, aquilo era um fantasma!

    — Como não viu? Era incrível, além disso tinha mais umas coisas muito estranhas — Ethos passa a mão no queixo. — Acho que ele pode ser um bruxo.

    — Só você mesmo para reparar nessas coisas — o amigo se vira para ir embora. — Eu só queria sair de lá o mais rápido possível. Nunca mais vamos voltar aqui!

    — É… Mas a casa dele era incrível…

    No dia seguinte, sozinho, Ethos não conteve sua curiosidade e voltou.

    TOC-TOC!

    — Oi, Sr. Velho Bruxo, o senhor está aí?

    — Eu não mandei não voltar? — gritou o homem, furioso. — Você não tem medo? Aqui é perigoso!

    — Até tenho…, mas como o senhor engarrafou es…

    PÁH! — Porta na cara.

    Ethos, desanimado, já estava indo embora quando ouviu sons vindos de dentro. Ele se esticou para espiar pela janela que ainda estava quebrada.

    Era incrível. O teto brilhava, rodas de metal giravam presas a cordas, vidros com líquidos coloridos borbulhavam.

    Além disso vinha de dentro um estranho cheiro, parecia com algo queimado. Lembrava Ethos da vez em que sua mãe esqueceu um bolo no forno, a casa ficou fedendo por uma semana.

    Será que ele queimou um bolo? Talvez esteja de mal humor por isso.

    Ethos estava fascinado, porém, tropeçou e faz barulho. O velho homem se virou. O garoto caiu para trás e fugiu correndo.

    Mas Ethos não desistiu. Voltou no outro dia.

    Dessa vez, a janela estava tapada com uma madeira.

    Ethos ficou decepcionado, mas não desistiu, deu uma volta ao redor da casa pra procurar algum lugar para espiar.

    Nada.

    Nos fundos, encontrou alguns objetos de metal espalhados pelo chão.

    Ele mexeu um pouco, tentou entender.

    Sem resultado.

    Ele queria levá-los pra casa, mas se levasse sem permissão seria roubo. Então ele os devolveu onde estavam.

    Tentou novamente bater na porta.

    TOC-TOC-TOC.

    — Oi… senhor velho bruxo!

    Sem resposta.

    Ele foi para casa.

    Mas voltou no dia seguinte.

    E no outro.

    E no outro.

    Um dia ele encontrou o senhor no lado de fora. Ele tentou se aproximar, mas o homem gritou com ele.

    Ethos não fugiu dessa vez.

    Então, o homem decidiu apenas ignorá-lo.

    No fim, ele é inofensivo, pensou Ethos.

    Ele continuou voltando.

    Aos poucos, Leo foi se acostumando com a presença dele e não se opunha mais com a sua entrada. Afinal lutar se demonstrou inútil. Talvez ele se canse, pensou.

    — Se vai continuar me enchendo pelo menos tome cuidado, isso corta.

    Três segundos depois, Ethos se cortou.

    — Aaaii!

    — Eu avisei! Vem cá, deixa eu ver.

    Leo analisou o corte.

    — Não foi profundo, vamos fazer um curativo.

    — Por acaso o senhor é um bruxo?

    — O quê? Eu não sou um bruxo, sou um cientista!

    — O que é isso?

    — Cientistas são aqueles que tentam entender como as coisas funcionam e tentam criar coisas a partir disso.

    — Hmm… E você mesmo engarrafou aquelas estrelas? — disse Ethos olhando para cima.

    — Estrelas? Não, são apenas lâmpadas!

    — Lâm… O que?

    — Lâmpadas. São elétricas, nada demais.

    — E como são feitas? O que é “e-lé-tr-tri-ca”? É magia? O senhor quem as fez?

    O velho suspirou, irritado.

    —Garoto, você faz perguntas demais… Eletricidade e magia são energias de naturezas diferentes. A eletricidade sai desse aparelho — ele apontou pra uma barulhenta caixa metálica. — Se chama gerador. Agora fica quieto que vai arder um pouco

    — Tá b… Ai!! Dói!!

    — Eu te falei, estou lavando a ferida! Droga, eu falei pra ter cuidado, o que estava pensando?

    Ethos encarou um objeto redondo que Leo tinha no pescoço.

    — O que é isso?

    — Ah isso, uma velha bússola.

    — Bú…ssô…la. O que é uma bússola?

    — Nada demais, é somente algo que te ajuda a chegar em casa — mesmo contrariado, o velho cientista respondia a todas as perguntas.

    Ethos ficou encantado. Ele pensava em como era incrível que um objeto ajudava a encontrar sua casa.

    — Uau… Com isso você não se perde? Como ele sabe onde você mora? Eu preciso de uma, a mamãe sempre diz que tô sempre perdido. Deve ser algo mágico!

    — Não… não é bem isso… enfim. — Leo suspirou profundamente.

    Um silêncio raro tomou conta da sala.

    Porém, Ethos cortou rapidamente, com entusiasmo.

    — Me ensina a ser um cientista, senhor velho bruxo?

    — Não! — respondeu o homem de forma ríspida. — E eu não sou um bruxo!! E nem velho! Meu nome é Leo!

    — Senhor Leo? Eu sou Ethos, mas pode me chamar de Ethi.

    — Eu não vou te chamar de nada além de fedelho. E tome mais cuidado! Agora vá pra sua casa!

    — Até amanhã, senhor Leo! — disse Ethos enquanto saía da casa.

    — Não volte! — resmungou Leo… se virou e, sem perceber, esboçou um leve sorriso.

    De volta ao presente…

    — Terminei! Posso ir? – Ethos já ia saindo com uma bolsa cheia de parafernálias que ele pegou emprestadas de Leo.

    — Meio-dia, Ethi — Ophélia ergueu o dedo.

    — Prometo!

    Se despediu dos pais e saiu correndo porta afora. Cheio de energia como sempre.

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