Capítulo 7 - A Floresta - Parte 1
A caçada, então, começou.
Logo eles avistaram um grupo que parecia javalis comuns, até que olharam com atenção.
Ethos se assustou com o tamanho deles. Eram enormes! Tinham presas afiadas e olhos vermelhos que brilhavam na penumbra da floresta. Uma aura densa os envolvia, acompanhada por um cheiro forte de carne podre que emanava de seus corpos.
A influência do medo, ironicamente, tirava o medo dos animais e transformava até o mais dócil dos coelhinhos em criaturas muito agressivas. Eles atacavam qualquer coisa que se mexia, principalmente humanos.
Um verdadeiro desastre.
Ethos engoliu seco. Suas mãos tremiam, mas tentou se acalmar e escutar as instruções dos adultos.
— Um passo de cada vez, Ethi. — disse Árnion, sorridente.
Ethos respirou fundo. E inspirou mais uma vez. Firmou o olhar e deu seu primeiro passo — o mais importante — em direção ao inimigo.
Os adultos, propositalmente, derrotaram quase todos os javalis para que apenas um enfrentasse Ethos, para testá-lo.
O garoto apertou forte as espadas. Seu coração batia forte. Se concentrou para que o fluxo de energia passasse por todo o corpo. Encheu os pulmões de ar, olhou bem nos olhos do javali e…
SHING!
Com um corte seco e rápido, ele estava do outro lado do animal. A lâmina passou pelo pescoço do javali tão rápido que, sem emitir som, o monstro caiu no chão.
Durak assobiou, impressionado.
— Muito rápido! Vejo que treinou bem seu pirralho, Árnion!
— Quinze anos? Nada mal! — comentou Cárion.
Árnion sorriu.
— É meu garoto…
Mas não houve muito tempo para comemorar. Do meio da mata, dezenas de olhos cor-de-sangue se aproximavam. Outro grupo se acercava.
Ethos se posicionou entre os adultos e o grupo avançou contra os monstros.
Com o passar do tempo, Ethos foi se acostumando com o ritmo dos adultos. Já lutava ao lado deles. A ansiedade ia desaparecendo enquanto ele se soltava cada vez mais.
Os amigos de Árnion estavam impressionados com a velocidade de aprendizado de Ethos.
Cárion se impressionou com a quantidade de perguntas após cada batalha. O garoto era ávido para aprender.
No meio de uma das batalhas, Ethos estava cercado por dois javalis. Enquanto um o atacava de frente, o outro vinha pelas costas.
Ethos golpeou com as espadas o que estava à frente, se defendendo a investida. Ao mesmo tempo, sem olhar para trás, ele deu um pisão, erguendo do chão um bloco de pedra pontiagudo que perfurou o monstro e o matou na hora. Em seguida, cortou o monstro restante com certa facilidade.
— Hahahá! Vento e terra? — gargalhou Durak. — Esse pirralho é cheio de surpresas. O que você tem dado pra ele comer, Arni?
— Confesso que essa eu também não esperava — respondeu Árnion, sorrindo. — Deve ser coisa da mãe dele.
Ethos seguia concentrado em acompanhar os adultos e enfrentar os inimigos.
Piscava o mínimo possível. Precisava prestar atenção em tudo. Não queria atrapalhar.
Porém, em certa altura, o cansaço começava a bater no grupo e os pequenos ferimentos, a se acumular.
As batalhas continuavam.
Os monstros não paravam de surgir.
Um grupo atrás do outro… e depois outro.
PLAC!
POW!
TAC!
SHING!
Durak bufou, enquanto limpava o suor da testa:
— São muitos dessa vez, não?
— Você que está ficando velho. Hahahá! — respondeu Árnion, rindo enquanto cortava mais alguns javalis.
PLAC-PLAC!
TOW…
— Mas eu concordo, era para estarem diminuindo, por que há tantos? Já vai escurecer — retrucou Cárion empalando vários javalis com um único golpe.
POW — O martelo de Durak fez um buraco no chão e alguns javalis voaram longe.
— Pirralho, você está bem? — gritou Durak.
SHING — Ethos cortava os dois últimos daquele grupo, nitidamente cansado.
— Sim, consigo me virar! — respondeu enquanto forçava um sorriso e limpava o suor e o sangue de seu rosto.
Sua respiração estava mais profunda e cansada, seus dedos ficavam cada vez mais rígidos. Seus pés doíam e os cortes nos braços ardiam com o sangue podre dos javalis-monstro.
Mas ele não queria fraquejar. Tentava parecer forte.
Mas até mesmo os adultos estavam cansados a essa altura.
…
O laranja do sol se pondo tingia o céu.
Árnion suspirou — em um breve momento de pausa — e disse:
— Ok! Mais um grupo foi, são muitos dessa vez então vamos descansar quinze minutos e vamos recuar, amanhã voltamos para terminar o serviço.
O grupo se sentou, pegou água e algumas barras de alimento, e começou a descansar para recuar.
Ethos estava feliz; finalmente poderia ir para casa tomar um banho. Esse cheiro de carne podre não vai sair fácil, pensava.
— Muito bem, pirralho! — disse Durak. — Seu pai te treinou direitinho.
Ethos sorriu, orgulhoso e ofegante. — Obrigado! Espero não ter atrapalhado vocês.
— Você foi bem, pirralho! Dá pra ver que…
ROOWW!!
Um rugido ensurdecedor interrompeu a conversa.
As aves fugiram em bandos, as árvores se agitavam violentamente, o chão começou a tremer. Algo estava se aproximando.
— Ethos, fique atrás da gente! — Ordenou Árnion, já empunhando as espadas. — E lembre-se: se eu mandar, você foge!
Ethos assentiu e se posicionou seguindo as ordens.
Os quatro se reagruparam rapidamente. Os adultos se posicionaram à frente de Ethos. O som das árvores caindo e o tremor do chão ficava cada vez mais alto. O que quer que estivesse vindo, se aproximava.
O grupo estava apreensivo.
Os tremores ficavam cada vez mais forte.
De repente…
Silêncio.
Por um instante, apenas o som do vento soava pelas brechas entre as árvores…
POW! ROOOWWWW!
A floresta explodiu diante deles.
Um ser colossal — com quase três metros de altura — emergiu entre as árvores, derrubando-as como se fossem gravetos.
Sua pele era verde-acinzentada, seus olhos brilhavam em vermelho vivo, suas presas não cabiam na boca e carregava uma clava que devia ser maior que o próprio Ethos. E aquele cheiro… o cheiro de carne podre estava ainda mais forte.
— Um… Orc?! — gritou Árnion, incrédulo. — Era para estarem extintos!
Durak levantou o martelo, bufando.
— Que diabos isso está fazendo aqui?
Cárion girou a lança, firme.
— O que deve ser feito, vai ser feito.
Árnion olhou para seu filho e disse com um sorriso cansado:
— Filho… fique para trás, está na hora dos adultos mostrarem como se faz.
Ethos recuou, em guarda. Seu coração batia forte, suas pernas tremiam, a respiração era rápida e curta, ele suava frio, enquanto sua mão formigava.
Era cansaço? Medo? Ansiedade?
Ele não conseguia pensar direito.
O monstro se aproximou lentamente, cada passo que ele dava, o chão tremia.
E quando o chão tremia.
Seu coração parava.
E então — num piscar de olhos — os três partiram em direção ao inimigo.
Durak pulou e usou seu martelo para desferir um grande golpe contra o Orc, que se defendeu usando sua clava, mas não sem ter que dar alguns passos para trás.
Ao mesmo tempo Árnion e Cárion avançaram pelos flancos.
SHRACK! — atingiram as pernas do monstro, fazendo-o ajoelhar-se, urrando de dor.
No mesmo instante em que Durak chegou ao chão, se impulsionou e se jogou em direção ao monstro.
BOMM! — Acertou com seu martelo no peito da criatura, lançando-o a vários metros.
Sinergia, Confiança, Força.
Eram impecáveis.
O coração saltitante de Ethos, aos poucos, se acalmava. A situação parecia controlada, aqueles três eram imbatíveis.
Árnion correu em direção ao Orc, que tentava se levantar, para finalizar aquela batalha. Quando ele estava a alguns passos de distância…
ROOWWWWW!!
O monstro soltou um grande rugido, que pôde ser ouvido por toda a floresta.
Árnion não se deixou intimidar e cortou o pescoço do monstro.
Ethos respirou aliviado. No fim das contas, aquele monstro não teve a menor chance.
Mas algo estava errado…
Árnion virou-se, assustado, e começou a correr em direção a Ethos.
— Droga… não conseguimos a tempo! ETHOS, CORRE!!
O sangue do garoto congelou.
O que está acontecendo?

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