A caçada, então, começou.

    Logo eles avistaram um grupo que parecia javalis comuns, até que olharam com atenção.

    Ethos se assustou com o tamanho deles. Eram enormes! Tinham presas afiadas e olhos vermelhos que brilhavam na penumbra da floresta. Uma aura densa os envolvia, acompanhada por um cheiro forte de carne podre que emanava de seus corpos.

    A influência do medo, ironicamente, tirava o medo dos animais e transformava até o mais dócil dos coelhinhos em criaturas muito agressivas. Eles atacavam qualquer coisa que se mexia, principalmente humanos.

    Um verdadeiro desastre.

    Ethos engoliu seco. Suas mãos tremiam, mas tentou se acalmar e escutar as instruções dos adultos.

    — Um passo de cada vez, Ethi. — disse Árnion, sorridente.

    Ethos respirou fundo. E inspirou mais uma vez. Firmou o olhar e deu seu primeiro passo — o mais importante — em direção ao inimigo.

    Os adultos, propositalmente, derrotaram quase todos os javalis para que apenas um enfrentasse Ethos, para testá-lo.

    O garoto apertou forte as espadas. Seu coração batia forte. Se concentrou para que o fluxo de energia passasse por todo o corpo. Encheu os pulmões de ar, olhou bem nos olhos do javali e…

    SHING!

    Com um corte seco e rápido, ele estava do outro lado do animal. A lâmina passou pelo pescoço do javali tão rápido que, sem emitir som, o monstro caiu no chão.

    Durak assobiou, impressionado.

    — Muito rápido! Vejo que treinou bem seu pirralho, Árnion!

    — Quinze anos? Nada mal! — comentou Cárion.

    Árnion sorriu.

    — É meu garoto…

    Mas não houve muito tempo para comemorar. Do meio da mata, dezenas de olhos cor-de-sangue se aproximavam. Outro grupo se acercava.

    Ethos se posicionou entre os adultos e o grupo avançou contra os monstros.

    Com o passar do tempo, Ethos foi se acostumando com o ritmo dos adultos. Já lutava ao lado deles. A ansiedade ia desaparecendo enquanto ele se soltava cada vez mais.

    Os amigos de Árnion estavam impressionados com a velocidade de aprendizado de Ethos.

    Cárion se impressionou com a quantidade de perguntas após cada batalha. O garoto era ávido para aprender.

    No meio de uma das batalhas, Ethos estava cercado por dois javalis. Enquanto um o atacava de frente, o outro vinha pelas costas.

    Ethos golpeou com as espadas o que estava à frente, se defendendo a investida. Ao mesmo tempo, sem olhar para trás, ele deu um pisão, erguendo do chão um bloco de pedra pontiagudo que perfurou o monstro e o matou na hora. Em seguida, cortou o monstro restante com certa facilidade.

    — Hahahá! Vento e terra? — gargalhou Durak. — Esse pirralho é cheio de surpresas. O que você tem dado pra ele comer, Arni?

    — Confesso que essa eu também não esperava — respondeu Árnion, sorrindo. — Deve ser coisa da mãe dele.

    Ethos seguia concentrado em acompanhar os adultos e enfrentar os inimigos.

    Piscava o mínimo possível. Precisava prestar atenção em tudo. Não queria atrapalhar.

    Porém, em certa altura, o cansaço começava a bater no grupo e os pequenos ferimentos, a se acumular.

    As batalhas continuavam.

    Os monstros não paravam de surgir.

    Um grupo atrás do outro… e depois outro.

    PLAC!

    POW!

    TAC!

    SHING!

    Durak bufou, enquanto limpava o suor da testa:

    — São muitos dessa vez, não?

    — Você que está ficando velho. Hahahá! — respondeu Árnion, rindo enquanto cortava mais alguns javalis.

    PLAC-PLAC!

    TOW…

    — Mas eu concordo, era para estarem diminuindo, por que há tantos? Já vai escurecer — retrucou Cárion empalando vários javalis com um único golpe.

    POW — O martelo de Durak fez um buraco no chão e alguns javalis voaram longe.

    — Pirralho, você está bem? — gritou Durak.

    SHING — Ethos cortava os dois últimos daquele grupo, nitidamente cansado.

    — Sim, consigo me virar! — respondeu enquanto forçava um sorriso e limpava o suor e o sangue de seu rosto.

    Sua respiração estava mais profunda e cansada, seus dedos ficavam cada vez mais rígidos. Seus pés doíam e os cortes nos braços ardiam com o sangue podre dos javalis-monstro.

    Mas ele não queria fraquejar. Tentava parecer forte.

    Mas até mesmo os adultos estavam cansados a essa altura.

    O laranja do sol se pondo tingia o céu.

    Árnion suspirou — em um breve momento de pausa — e disse:

    — Ok! Mais um grupo foi, são muitos dessa vez então vamos descansar quinze minutos e vamos recuar, amanhã voltamos para terminar o serviço.

    O grupo se sentou, pegou água e algumas barras de alimento, e começou a descansar para recuar.

    Ethos estava feliz; finalmente poderia ir para casa tomar um banho. Esse cheiro de carne podre não vai sair fácil, pensava.

    — Muito bem, pirralho! — disse Durak. — Seu pai te treinou direitinho.

    Ethos sorriu, orgulhoso e ofegante. — Obrigado! Espero não ter atrapalhado vocês.

    — Você foi bem, pirralho! Dá pra ver que…

    ROOWW!!

    Um rugido ensurdecedor interrompeu a conversa.

    As aves fugiram em bandos, as árvores se agitavam violentamente, o chão começou a tremer. Algo estava se aproximando.

    — Ethos, fique atrás da gente! — Ordenou Árnion, já empunhando as espadas. — E lembre-se: se eu mandar, você foge!

    Ethos assentiu e se posicionou seguindo as ordens.

    Os quatro se reagruparam rapidamente. Os adultos se posicionaram à frente de Ethos. O som das árvores caindo e o tremor do chão ficava cada vez mais alto. O que quer que estivesse vindo, se aproximava.

    O grupo estava apreensivo.

    Os tremores ficavam cada vez mais forte.

    De repente…

    Silêncio.

    Por um instante, apenas o som do vento soava pelas brechas entre as árvores…

    POW! ROOOWWWW!

    A floresta explodiu diante deles.

    Um ser colossal — com quase três metros de altura — emergiu entre as árvores, derrubando-as como se fossem gravetos.

    Sua pele era verde-acinzentada, seus olhos brilhavam em vermelho vivo, suas presas não cabiam na boca e carregava uma clava que devia ser maior que o próprio Ethos. E aquele cheiro… o cheiro de carne podre estava ainda mais forte.

    — Um… Orc?! — gritou Árnion, incrédulo. — Era para estarem extintos!

    Durak levantou o martelo, bufando.

    — Que diabos isso está fazendo aqui?

    Cárion girou a lança, firme.

    — O que deve ser feito, vai ser feito.

    Árnion olhou para seu filho e disse com um sorriso cansado:

    — Filho… fique para trás, está na hora dos adultos mostrarem como se faz.

    Ethos recuou, em guarda. Seu coração batia forte, suas pernas tremiam, a respiração era rápida e curta, ele suava frio, enquanto sua mão formigava.

    Era cansaço? Medo? Ansiedade?

    Ele não conseguia pensar direito.

    O monstro se aproximou lentamente, cada passo que ele dava, o chão tremia.

    E quando o chão tremia.

    Seu coração parava.

    E então — num piscar de olhos — os três partiram em direção ao inimigo.

    Durak pulou e usou seu martelo para desferir um grande golpe contra o Orc, que se defendeu usando sua clava, mas não sem ter que dar alguns passos para trás.

    Ao mesmo tempo Árnion e Cárion avançaram pelos flancos.

    SHRACK! — atingiram as pernas do monstro, fazendo-o ajoelhar-se, urrando de dor.

    No mesmo instante em que Durak chegou ao chão, se impulsionou e se jogou em direção ao monstro.

    BOMM! — Acertou com seu martelo no peito da criatura, lançando-o a vários metros.

    Sinergia, Confiança, Força.

    Eram impecáveis.

    O coração saltitante de Ethos, aos poucos, se acalmava. A situação parecia controlada, aqueles três eram imbatíveis.

    Árnion correu em direção ao Orc, que tentava se levantar, para finalizar aquela batalha. Quando ele estava a alguns passos de distância…

    ROOWWWWW!!

    O monstro soltou um grande rugido, que pôde ser ouvido por toda a floresta.

    Árnion não se deixou intimidar e cortou o pescoço do monstro.

    Ethos respirou aliviado. No fim das contas, aquele monstro não teve a menor chance.

    Mas algo estava errado…

    Árnion virou-se, assustado, e começou a correr em direção a Ethos.

    — Droga… não conseguimos a tempo! ETHOS, CORRE!!

    O sangue do garoto congelou.

    O que está acontecendo?

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