Era dia.

    Mas quase não havia luz.

    O sol avermelhado mal brilhava, sufocado pelo cinza-escuro do céu.

    Chovia.

    E a água escura da chuva escorria pelas cascas secas das árvores.

    — Droga de chuva. Além de molhar, ainda mancha toda minha roupa — disse a Da Lança. — Sobrou alguma comida?

    — Você já comeu tudo! — respondeu o Do Arco. — Nossa… não vejo a hora de sair deste lugar. Sinto falta do sol — ele suspirou profundamente. — Esse escuro dá muita preguiça…

    — Você tá sempre com preguiça! — exclamou a Do Cajado. — Mas eu não recusaria uma praia quando tudo isso acabar.

    A Do Livro estava deitada no chão, olhando para uma das árvores secas.

    — Eu até que gosto daqui, as árvores são feias, mas são gentis.

    — Hahá. Só você mesmo — respondeu o Do Escudo. — Mas chega de papo furado, temos que ver como vamos entrar no castelo.

    Um pouco afastado do grupo, o Da Espada estava sentado ao lado de uma árvore quando o Do Martelo se aproximou.

    — Ela deve estar bem…

    — Eu espero que sim — respondeu o Da Espada.

    O Do Martelo apoiou a mão em seu ombro.

    — Ela é uma mulher forte, tenho cert…

    — Como eu deixei isso acontecer? — interrompeu o Da Espada. — Por que ele não me levou no lugar dela?

    — Você sabe o porquê… ele quer te desestabilizar e te atrair.

    Ele sentou-se ao lado do Da Espada. Os dois encararam o gigantesco castelo à sua frente.

    Suas pontas sumiam nas nuvens cinzas. As paredes negras quase desapareciam na escuridão do ambiente. As portas eram grandes o suficiente para um gigante atravessar sem se curvar.

    E estavam abertas.

    Como se os convidassem a entrar.

    O silêncio da região só era interrompido vez ou outra por corvos buscando pela próxima refeição.

    — Eu estou arrastando vocês pra essa armadilha… me desculpe. Se eu fosse mais forte, ele não teria a levado.

    — Não precisa se desculpar. Mais cedo ou mais tarde teríamos que enfrentá-lo.

    — Eu sei, mas parece errado entrar assim de frente. Ele simplesmente nos deixou chegarmos até aqui. Não faz sentido, é suicídio. Droga — ele apertou a mão e socou o chão. — Não sei o que fazer…

    O Do Martelo deu um leve soco no ombro do Da Espada e sorriu.

    — Mas é por ela — afirmou. — Todos nós queremos salvá-la.

    — Mas…

    — Sem “mas”! — ele deu um tapa nas costas do amigo e se levantou. — Anda logo, o grupo está esperando as palavras do líder. Capricha. Talvez sejam as últimas. Hahahá

    Um leve sorriso escapou do Da Espada.

    Ele se levantou.

    O amigo parou à sua frente e disse:

    — É! — ele ergueu seu martelo e gritou alto. — Já que vamos morrer, vamos fazer isso com estilo.

    O restante do grupo ouviu e se aproximou deles.

    — É — exclamaram todos, erguendo suas armas.

    O líder deu um sorriso largo dessa vez.

    — Já que querem tanto morrer — ele apontou a espada para o céu. — Vamos! Afinal, o anfitrião está nos esperando.

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