PÁ!

    A enxada cravou no solo seco.

    PÁ!

    Poeira subiu.

    — Ah!! Droga, morreu tudo. Droga de ervas daninhas.

    PÁ!

    Árnion passou o braço no rosto para limpar o suor. Acabou espalhando terra na testa e parte entrou em seu olho. Piscou forte, irritado.

    — DROGA — gritou, deixando a enxada cair no chão.

    — Papai? — Ethos surgiu de repente.

    Árnion, assustado, virou-se rapidamente.

    — Filho? Eu… não vi você aí.

    Ethos estava alguns passos atrás, com os olhos arregalados.

    — Tá tudo bem?

    Árnion demorou um segundo para responder.

    Respirou um pouco mais fundo do que o habitual.

    Sorriu e respondeu:

    — Sim, só entrou um pouco de areia no olho do papai.

    — A mamãe mandou água, pode usar pra lavar o rosto.

    — Obrigado.

    Árnion lavou o rosto.

    Ethos ficou quieto por um instante, pensativo. Respirou fundo e falou:

    —Papai…?

    — O que foi, filho?

    — Você e a mamãe se odeiam agora?

    Árnion engoliu seco. Não estava esperando esse tipo de pergunta.

    — Claro que não, filho. Por que você acha isso?

    — Eu vi vocês brigando de manhã. Você vai embora? O pai do Matheus foi embora depois de uma briga.

    Árnion ficou sem palavras por um instante.

    Seu coração apertou.

    Ele não imaginava que uma criança pudesse ter esse tipo de preocupação. Ou será que o pequeno Ethos já não era mais tão criança assim? Ele não sabia ao certo.

    — Não, cara. Eu não sabia que você tinha ouvido isso. Fica tranquilo. Eu não sei o que houve na família do seu amigo, mas eu não vou a lugar nenhum, tá bom? Eu e a mamãe só discutimos um pouco. Isso acontece.

    Ethos encarou com um olhar repleto de dúvida.

    — Mas por que vocês brigaram? Você não ama a mamãe?

    — Claro que amo, filho. Mas às vezes brigas acontecem. É que a gente tá um pouco estressado, então acaba descontando nas coisas erradas.

    — Estressados? O que aconteceu?

    Árnion puxou mais um pouco de ar. Apontou para a terra e falou.

    — É que as ervas daninhas acabaram matando boa parte do que plantamos. Temos reservas pra esse tipo de situação, mas ainda assim é muito estressante ver todo o seu trabalho morrendo.

    Ethos escutava com atenção as palavras do pai.

    —Mas o que isso tem a ver com a briga?

    Árnion deixou escapar uma risada leve.

    — Hahá! Na verdade… nada. É só porque eu estou muito estressado e infelizmente acabei descontando em sua mãe.

    — Você brigou com a mamãe por conta das ervas daninhas?

    — Não. Brigamos porque ela mandou eu guardar as roupas no lugar. Coisa idiota.

    — Eu odeio guardar as roupas também! Não faz sentido. Se vamos usar, pra que guardar?

    Árnion caiu na gargalhada.

    —Hahahá! Talvez você tenha razão, mas não é sobre ter razão.

    Ethos franziu a testa e levantou as sobrancelhas.

    — É sobre o que então?

    — É sobre cuidar. A mamãe gosta das coisas organizadas… e a gente ama a mamãe, né?

    — Sim!

    — E a mamãe faz de tudo pela gente, certo?

    — Certo!

    — Então temos que tentar manter as coisas arrumadas, já que queremos ver a mamãe feliz.

    Ethos pensou por um momento.

    — Entendi. Vou me esforçar pra não deixar nada jogado.

    — É… Eu também! Hahahá! Você quer ajudar a refazer a plantação?

    — Sim! Vamos matar todas essas ervas do mal! Vamos plantar de novo. A comida vai crescer ainda mais forte!

    — É assim que se fala!

    Árnion agarrou a enxada e começou a instruir Ethos com o que ele podia ajudar.

    Depois de um tempo trabalhando, Ethos voltou a perguntar:

    — Papai…

    — Sim, filho.

    — Você vai fazer as pazes com a mamãe?

    — Claro, filho. Eu estou errado, então eu devo pedir desculpas pra ela.

    — Mas se você sabia que estava errado por que não pediu antes?

    Árnion parou, limpou o suor da testa, e respondeu:

    — É que às vezes… precisamos de um tempo pra se acalmar. Tentar fazer as coisas de cabeça quente pode piorar tudo. Um pedido de desculpas tem que ser de coração. E não dá pra fazer isso irritado.

    Ethos apertou os olhos, tentando entender…

    Árnion completou:

    — Quando estamos irritados, às vezes precisamos nos afastar um pouco, se acalmar e aí tomar decisões. Não é só sobre falar, e sim sobre como falar. Temos que estar calmos para que a situação não piore ainda mais.

    — Acho que entendi. É melhor se acalmar antes de pedir desculpas.

    — É quase isso — Árnion abriu um largo sorriso. — Mas fique tranquilo, a primeira coisa que vou fazer quando chegar em casa é pedir desculpas, tá bom?

    — Tá bom! — Ethos sorriu junto. — Eu também vou!

    — A mamãe brigou com você também?

    — Não, mas ela vai. Eu também deixei minhas roupas jogadas.

    Árnion não aguentou e começou a gargalhar alto.

    Ethos, mesmo sem entender, acompanhou o pai rindo também.

    E assim, entre enxadadas, poeira e risadas, a guerra contra as ervas daninhas continuou.

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