Capítulo 4 - A Plantação
PÁ!
A enxada cravou no solo seco.
PÁ!
Poeira subiu.
— Ah!! Droga, morreu tudo. Droga de ervas daninhas.
PÁ!
Árnion passou o braço no rosto para limpar o suor. Acabou espalhando terra na testa e parte entrou em seu olho. Piscou forte, irritado.
— DROGA — gritou, deixando a enxada cair no chão.
— Papai? — Ethos surgiu de repente.
Árnion, assustado, virou-se rapidamente.
— Filho? Eu… não vi você aí.
Ethos estava alguns passos atrás, com os olhos arregalados.
— Tá tudo bem?
Árnion demorou um segundo para responder.
Respirou um pouco mais fundo do que o habitual.
Sorriu e respondeu:
— Sim, só entrou um pouco de areia no olho do papai.
— A mamãe mandou água — disse Ethos, entregando uma garrafa. — Pode usar pra lavar o rosto.
Enquanto Árnion lavava o rosto, o garoto ficou quieto por um instante, pensativo. Respirou fundo e falou:
—Papai…?
— O que foi, filho?
— Você e a mamãe se odeiam agora?
Árnion engoliu seco. Olhou para Ethos, que o encarava com os olhos arregalados.
— Claro que não, filho. De onde você tirou isso?
— Eu vi vocês brigando de manhã — ele apertou as mãos. — Você vai embora? O pai do Matheus foi embora depois de uma briga.
Árnion ficou sem palavras por um instante. Seu coração apertou.
Ele não imaginava que uma criança pudesse ter esse tipo de preocupação. Ou será que o pequeno Ethos já não era mais tão criança assim? Ele não sabia ao certo.
— Não, cara. Eu não sabia que você tinha ouvido isso. Fica tranquilo, tá bom? — ele tentou sorrir. — Eu não sei o que houve na família do seu amigo, mas eu não vou a lugar nenhum. Eu e a mamãe só discutimos um pouco… isso acontece.
Ethos levantou as sobrancelhas e seguiu encarando-o.
— Mas por que vocês brigaram? Você não ama a mamãe?
— Claro que amo, filho — ele respirou fundo. — Mas às vezes brigas acontecem. É que a gente tá um pouco estressado, então acaba descontando nas coisas erradas.
— Estressados? O que aconteceu?
Árnion puxou mais um pouco de ar e apontou para a terra.
— É que as ervas daninhas acabaram matando boa parte do que plantamos. Temos reservas pra esse tipo de situação, mas ainda assim é muito estressante ver todo o seu trabalho morrendo.
Ethos escutava com atenção.
—Mas o que isso tem a ver com a briga?
Árnion deixou escapar uma risada leve.
— Hahá! Na verdade… nada. É só porque eu estou muito estressado e infelizmente acabei descontando em sua mãe.
Ethos franziu um pouco mais a testa.
— Você brigou com a mamãe por causa das ervas daninhas?
— Não… — ele cruzou os braços. — Brigamos porque ela mandou eu guardar as roupas no lugar. Coisa idiota.
— Eu odeio guardar as roupas também! — respondeu Ethos, fechando os punhos. — Não faz sentido. Se vamos usar, pra que guardar?
Árnion caiu na gargalhada.
—Hahahá! Talvez você tenha razão, mas não é sobre ter razão.
Ethos levantou as sobrancelhas.
— É sobre o que então?
O pai passou a mão na cabeça do garoto.
— É sobre cuidar! A mamãe gosta das coisas organizadas… e a gente ama a mamãe, né?
— Sim!
— E a mamãe faz de tudo pela gente, certo?
— Certo! — respondeu mais forte.
— Então temos que tentar manter as coisas arrumadas, já que queremos ver a mamãe feliz.
— Entendi. Vou me esforçar pra não deixar nada jogado — disse, levantando os braços.
— É… Eu também! Hahahá! Você quer ajudar a refazer a plantação?
— Sim! — Ethos tinha um sorriso largo. — Vamos matar todas essas ervas do mal! Vamos plantar de novo. A comida vai crescer ainda mais forte!
— É assim que se fala!
Árnion agarrou a enxada e começou a instruir Ethos com o que ele podia ajudar.
Depois de um tempo trabalhando, Ethos voltou a perguntar:
— Papai…
— Sim, filho.
— Você vai fazer as pazes com a mamãe?
— Claro. Eu estou errado, então eu devo pedir desculpas pra ela.
— Mas se você sabia que estava errado por que não pediu antes?
Árnion parou, limpou o suor da testa, e respondeu:
— É que às vezes… — ele fez uma pequena pausa. — As vezes, precisamos de um tempo pra se acalmar. Tentar fazer as coisas de cabeça quente pode piorar tudo. Um pedido de desculpas tem que ser de coração. E não dá pra fazer isso irritado.
Ethos apertou os olhos, tentando entender…
Árnion completou:
— Quando estamos irritados, às vezes precisamos nos afastar um pouco, se acalmar e aí tomar decisões. Não é só sobre falar, e sim sobre como falar. Temos que estar calmos para que a situação não piore ainda mais.
— Acho que entendi. É melhor se acalmar antes de pedir desculpas.
— É quase isso — Árnion abriu um largo sorriso. — Mas fique tranquilo, a primeira coisa que vou fazer quando chegar em casa é pedir desculpas, tá bom?
— Tá bom! — Ethos sorriu junto. — Eu também vou!
— A mamãe brigou com você também?
— Não, mas ela vai. Eu também deixei minhas roupas jogadas.
Árnion não aguentou e começou a gargalhar alto.
Ethos, mesmo sem entender, acompanhou o pai rindo também.
E assim, entre enxadadas, poeira e risadas, a guerra contra as ervas daninhas continuou.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.