PRIMEIRA PARTE: AQUELE QUE DEFENDE IDEAIS

    No início, havia apenas o Nada.

    Então, do Nada, nasceu a Luz — e, com a Luz, surgiu a Escuridão.

    Com a Luz e a Escuridão, surgiram o Tempo e o Espaço.

    E nasceu a Vida.

    E, da Vida, surgiu a Humanidade.

    Encantada com a Humanidade, a Luz presenteou-a com as Cores, e delas brotaram as Virtudes — e, por um breve tempo, tudo foi perfeito.

    A Escuridão, com inveja, corrompeu as Virtudes e criou os Pecados sete Cores, sete Virtudes, sete Pecados.

    Vendo a Humanidade ruir, a Luz concedeu seu último e mais precioso presente: o Amor, capaz de fortalecer e restaurar as Virtudes.

    A Escuridão respondeu reunindo toda a sua fúria e moldou o Ódio, reflexo distorcido do Amor.

    E assim iniciou o eterno conflito: Luz e Escuridão, Bem e Mal, Amor e Ódio.

    Mas, bem longe de tudo isso, em um pequeno vilarejo nas montanhas, uma família de fazendeiros vivia em uma região afastada…

    Capítulo 1 – O Tesouro

    O som de água fervendo acompanhava o cheiro de carne sendo cozida. Ophélia estava na cozinha enquanto Árnion descascava batatas à mesa.

    — Mamãeee…! Papaiii…! Chegueeei…! — Ethos entrou ofegante em casa. — Passei pelo doutor no caminho. Tem alguém doente?

    — Ethi… os sapatos! — disse Ophélia, apontando com uma colher de pau.

    — Tá bom… — ele chutou as botas para o canto e se aproximou, ainda agitado. — Mas quem está doente? Mamãe?

    Árnion respirou fundo e abriu um sorriso cansado ao ver o garoto.

    — Quanta energia, Ethi… depois falamos melhor sobre isso. Agora vá lavar as mãos e venha jantar.

    — Mas…

    — Ethos! — interrompeu Árnion, sorrindo e balançando a batata como se fosse uma espada. — Anda logo, ou vai acabar ficando sem jantar!

    O garoto inflou as bochechas, resmungou baixinho e subiu as escadas correndo. Ophélia sorriu de leve.

    — Ele não para, né? — suspirou Árnion.

    — Sim… puxou o pai dele — ela deu um sorriso debochado e se voltou para a panela. — Pelo menos antes de você se tornar esse velho rabugento.

    — Saudades de quando eu tinha essa energia — ele sorriu e continuou com as batatas.

    Depois do jantar, Árnion terminava de lavar os pratos enquanto Ophélia ajeitava os lençóis que cobriam Ethos na cama.

    — Tá confortável, filhote? — disse Ophélia, sentada à beira da cama.

    Ethos assentiu, mantendo apenas os olhos de fora.

    Árnion, com a parte de baixo da camisa molhada, entrou no quarto e parou atrás de Ophélia.

    — Filho — ele apoiou suas mãos nos ombros de Ophélia. — Temos novidades.

    — Novidades? — o garoto se virou franzindo levemente a testa. — Que novidades? É sobre o doutor? Sabia que alguém estav…

    — Ethi… — interrompeu Ophélia. Segurou a mão do menino e sorriu com os olhos cheios d’água. — Você terá um irmãozinho… ou uma irmãzinha! A mamãe está grávida!

    Ethos ficou paralisado por alguns instantes. Piscou algumas vezes, confuso, tentando entender a situação.

    — Um… irmão? — murmurou. — Como assim…? Irmão?

    De repente, seu rosto se iluminou.

    — Pera, um… IRMÃO!? DEMAIS!!

    Ele pulou nos braços dos pais, quase derrubando os dois.

    Isso, claro, não impediu a enxurrada de perguntas do garoto.

    — Como aconteceu? Quando ele nasce? Quando posso brincar com ele? Seremos uma dupla incrível! Vai demorar muito?

    Árnion e Ophélia se entreolharam, suspirando e rindo ao mesmo tempo.

    — Vai ser uma noite longa… muito longa — comentou o pai, sorrindo cansado.

    E, de fato, foi…

    A barriga de Ophélia já estava grande o suficiente para se notar à primeira vista.

    Ethos entrou correndo no quarto — e congelou ao ver Árnion deitado sobre a barriga de Ophélia. Ele parou por um segundo, observando em silêncio. Com as sobrancelhas levantadas e os olhos arregalados, gritou:

    — Papai! O que você está fazendo!? Vai machucar o bebê! Tanto lugar pra deitar, sai daí!

    Eles trocaram um olhar e Árnion deixou escapar uma risada. Ophélia logo riu junto.

    — Qual é a graça? Sai daí, pai! Árnion se levantou para acalmá-lo.

    — Calma, filho. Tá tudo bem. Papai não estava machucando a mamãe — disse Árnion, com um sorriso largo.

    — Sim, filhote — completou Ophélia, acariciando a barriga com um sorriso leve — Ele só estava conversando com o bebê.

    — Conversando? Ele escuta?

    — Claro que escuta. Vem conversar você também.

    Ethos, ainda desconfiado, se aproximou. Apoiou com cuidado o rosto na barriga da mãe e, timidamente, começou a falar baixinho:

    — Oi… você aí dentro. Você ainda não tem nome. É… irmão ou irmã — ele se levantou de repente. — Mamãe, isso não faz sentido… o que eu deveria dizer?

    — Ethi, tenta outra vez — respondeu ela.

    — É, cara. Vai lá, se apresenta — completou Árnion.

    — Me apresentar… tá… — ele voltou a deitar na barriga da mãe — eu sou Ethos… seu irmão mais velho. Você tem que nascer logo, temos muita coisa pra fazer. Preciso te ensinar sobre a fazenda, como dar comida pros porcos…

    Ele continuava falando, cada vez mais empolgado. Árnion e Ophélia trocaram um olhar e sorriram.

    — Ah! — Ethos gritou e se afastou correndo.

    — O que foi? — perguntaram juntos.

    — Eu senti uma coisa mexendo, acho que o bebê não gosta de mim!

    — Mexendo? — Ophélia apoiou a mão na barriga. — Ah! — disse, surpresa — Um chute!

    — Chute? — repetiram Árnion e Ethos.

    Ophélia levou as mãos ao rosto, emocionada.

    — Mamãe está chorando? É porque o bebê está brabo? Falei algo de errado?

    Árnion se inclinou, tentando acalmá-lo.

    — Não, Ethi. Sua mãe está emocionada. Seu irmãozinho gostou tanto de conversar com você que até deu seu primeiro chute.

    Ethos piscou algumas vezes, confuso, olhando para o pai.

    — E isso é bom?

    — Claro! Isso quer dizer que ele é forte e saudável. Ele gostou de você.

    — Ah, que bom! Ele vai ser um lutador!

    Os três se abraçaram. Pouco depois, Ethos já estava de volta à barriga da mãe, falando sem parar.

    A barriga de Ophélia ficava cada vez maior com o passar dos meses.

    Ethos contava os dias. Mal podia esperar pelo nascimento de mais um Emetiel.

    A ansiedade só aumentava conforme se aproximava o dia do nascimento. A cada poucos dias ele perguntava: Falta quanto tempo pra nascer? E perguntava de novo. E de novo.

    Nesse período, ele se esforçava para ajudar como podia. Depois que ouviu do médico que ela precisava tomar muita água e comer frutas, passou a levar, todas as manhãs, um copo com água e algumas frutas para sua mãe.

    Em casa, fazia o que conseguia — e, o que não conseguia, ficava no pé do pai até ele fazer. Evitava qualquer esforço desnecessário de Ophélia.

    A tensão tomava conta da casa quando o dia finalmente chegou.

    Ethos esperava na sala junto do avô, Tharion. Os dois estavam em silêncio, à espera de notícias.

    Tharion era um homem gentil, às vezes sorria, mas no geral era muito sério, com um leve ar de tristeza.

    — É UMA MENINA! — gritou Árnion, que chegou pulando na sala com a camisa encharcada de suor e o rosto banhado de lágrimas.

    Logo voltou correndo para o quarto.

    — É UMA MENINA! — abraçados, o menino e o avô gritavam na sala.

    — Você é oficialmente um irmão mais velho, Ethi — disse Tharion.

    — Sim! Quero ver ela! — gritou Ethos enquanto pulava ainda eufórico.

    — Claro, logo, logo vamos poder vê-la.

    Não demorou para irem até o quarto.

    Lá estava Ophélia, cansada, mas sorrindo, com a filha nos braços.

    — Vem cá, Ethi. Olha sua irmãzinha.

    Ethos se aproximou devagar, com os olhos brilhando de curiosidade.

    — Ela é tão linda, mamãe, tão pequena… Quando vou poder brincar com ela?

    Um riso leve tomou conta do quarto.

    — Calma, filho — disse Árnion, sorrindo — primeiro ela precisa crescer um pouco mais. Você vai ajudar a mamãe e o papai a cuidar dela?

    — Claro! — respondeu o menino enquanto batia no peito, como um soldado. — E qual o nome dela?

    Ophélia olhou para o bebê.

    Sorriu.

    Segurava aquele pequeno e frágil ser, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

    — O nome dela é Íris… nosso tesouro.

    Aquele pequeno mundo.

    Dentro daquela pequena casa.

    Estava completo.

    Ethos sorriu, com o coração transbordando de felicidade, disse:

    — Bem-vinda à família, Íris.

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