Índice de Capítulo

    Naki Senrou avançou sem emitir um único ruído. As chamas ciano giravam ao redor do seu corpo como um furacão perfeitamente controlado, moldando-se à sua silhueta de forma a não desperdiçar uma única partícula de energia. Seus olhos, dominados por aquele negro abissal com pupilas ciano incandescentes, brilhavam frios. Vazios. Totalmente focados.

    Do outro lado do quadrante, San Ryoshi deu um passo firme à frente. Sua aura ciano escura subiu com uma lentidão imponente, manifestando-se de forma pesada, abissal, como se o próprio espaço estivesse cedendo à sua presença.

    E então, os dois colidiram.

    BOOOOOOM.

    O impacto hercúleo do choque de forças afundou o centro da arena instantaneamente, criando uma concavidade perfeita no concreto vitrificado. Naki desferiu um soco direto. San bloqueou com o antebraço esquerdo, girando o quadril para responder com um contragolpe brutal direcionado ao abdômen do garoto. Naki rotacionou o tronco no mesmo microssegundo, fazendo o punho do líder inimigo raspar por centímetros no tecido de sua roupa.

    Veio outro soco. Outro desvio milimétrico. Outro impacto seco que ecoou pelas arquibancadas.

    E pela primeira vez em toda a partida, San Ryoshi não estava dominando de forma absoluta o ritmo mecânico da luta.

    Os dois trocavam golpes em uma velocidade que desafiava a física e a percepção visual do público. Não havia pausas, não existia hesitação e nenhuma abertura clara era deixada por ambas as partes. Agiam como duas correntes opostas de energia pura, tentando ocupar o exato e mesmo espaço geométrico.

    San estreitou minimamente os olhos em meio à trocação de socos. Ele sentiu. A precisão técnica dos movimentos de Naki estava perigosamente perto da sua. Não em termos de experiência de combate acumulada ou tempo de treino, mas em execução pura. Naki simplesmente não desperdiçava movimento algum. Não acelerava além do estritamente necessário para esquivar e não hesitava antes de contra-atacar. Cada pisada dele no chão rachado era cirúrgica. Cada desvio de tronco era mínimo. Cada ataque lançado buscava um ponto vital com a frieza de uma máquina.

    — …Então esse é o estado que você escondeu — verbalizou San, a voz saindo firme em meio aos estalos de vácuo.

    Naki não respondeu. Outra sequência violenta de impactos explodiu entre os dois.

    BOOM. BOOM. BOOM.

    O solo cedia e rachava em novas ramificações a cada colisão de nós de dedos. As ondas de choque concêntricas atravessavam a arena inteira, levantando poeira e poeira residual.

    Ao longe, em outra ala do campo, Kaede Shizuma continuava preso na velocidade absurda da técnica de Renji Asakura.

    O Buzz Flow operava no limite. Rastros de luz amarela cortavam o campo em zigue-zagues geométricos e espasmódicos, enquanto socos e chutes surgiam de ângulos teoricamente impossíveis. Kaede descarregava golpes brutais, destruindo tudo ao redor com seus mini leões de plasma em uma tentativa desesperada de acertar o oponente. Sem sucesso.

    Renji gargalhava abertamente, sumindo e reaparecendo na periferia da visão do garoto. — VOCÊ AINDA NÃO CONSEGUE ME PEGAR!

    — FICA PARADO, DESGRAÇADO! — berrou Kaede, os dentes cerrados de frustração.

    Mas então, no meio do frenesi do combate elétrico, a percepção tática de Kaede mudou. Ele percebeu algo na periferia do campo: Naki estava recuando de forma lenta, compassada. Ele não estava perdendo terreno ou sendo empurrado pela força dos golpes de San; ele estava guiando. Conduzindo San Ryoshi passo a passo.

    Trazendo o topo para o centro exato da arena.

    Os olhos de Kaede se estreitaram sob os reflexos vermelhos de sua aura. Ele entendeu a leitura do tabuleiro. Naki não estava apenas se defendendo e tentando sobreviver; ele estava montando as peças da armadilha.

    E no centro da arena, focado na perfeição do combate à queima-roupa, San Ryoshi ainda não havia se dado conta da mudança geográfica. Os dois continuavam trocando golpes brutais. Naki cedendo centímetros milimetricamente calculados de espaço; San avançando para preencher o vácuo. Sempre para o mesmo eixo. Sempre para o mesmo ponto de convergência.

    Até que os olhos de San mudaram.

    Por uma mera fração de segundo, o líder sentiu a incongruência tática do posicionamento. Mas o tempo de reação havia se esgotado. Era tarde demais.

    Porque naquele exato instante, Kaede Shizuma explodiu em energia.

    Sua aura vermelha subiu violentamente, superaquecendo o ar ao seu redor. Os mini leões de plasma manifestaram-se em sequência ao redor de seus membros, mas ele parou abruptamente de tentar interceptar a velocidade de Renji. Em vez disso, voltou toda a sua força para destruir a própria estrutura física do campo abaixo de si.

    BOOOOM.

    Um soco vertical abriu uma cratera monumental no piso. Outro golpe arrancou uma parede inteira de concreto de seus alicerces. O terceiro impacto lançou destroços gigantescos e pontiagudos em todas as direções possíveis, criando uma barreira caótica de poeira e pedras voadoras.

    Renji foi forçado a interromper a corrida e recuar imediatamente para não ser atingido pelos estilhaços maciços. Foi a primeira quebra de ritmo desde a ativação do Buzz Flow.

    Kaede então rotacionou o próprio corpo sobre os calcanhares. Seus olhos vermelhos travaram na coordenada exata do centro da arena. — ACHEI VOCÊ.

    EXPLOSÃO.

    Ele disparou como um míssil teleguiado, utilizando toda a propulsão de seus raios vermelhos para cruzar a arena em linha reta. Ele foi direto para o ponto onde San e Naki estavam travados.

    Do outro lado da arena devastada, Karaku Sabito arregalou minimamente os olhos por trás das lentes dos óculos. Sua Meta-Visão operava em frequência máxima, e a projeção futura já desenhava aquele exato cenário milissegundos antes de ele acontecer.

    O atirador viu as linhas convergirem: Kaede chegando ao centro com força total, San sendo cercado pela pinça tática e o controle da partida mudando de mãos.

    Karaku ergueu o cano de sua arma de forma instantânea, o dedo pressionando o gatilho sem o menor vislumbre de hesitação. — Não.

    Disparo.

    BOOOOOOM.

    O projétil imbuído em Sen escuro rasgou a atmosfera, cortando a extensão da arena inteira em uma trajetória de interceptação perfeita direcionada à lateral de Kaede.

    Mas antes que o tiro pudesse alcançar o alvo e desestabilizar o avanço, uma barreira massiva de sangue coagulado atravessou violentamente a trajetória do projétil.

    Ryuji Arata surgiu do vácuo. CTD e Ancifogo já estavam empunhadas com firmeza em suas mãos, exibindo descargas de raios azuis que envolviam e faziam as lâminas metálicas vibrarem. O disparo de Karaku colidiu diretamente contra o aço das adagas, explodindo em uma chuva violenta de energia negra e azul que estalou pelo ar.

    O impacto residual da detonação empurrou o corpo de Ryuji alguns metros para trás, fazendo suas botas deixarem sulcos no solo queimado. Mas ele não caiu. Manteve a base firme.

    Seus olhos fixaram-se diretamente nos de Karaku Sabito através da fumaça azulada. — Você não vai interromper isso — afirmou Ryuji, a voz saindo concentrada, despida de qualquer dúvida.

    Karaku estreitou os olhos. Sob o foco de sua Meta-Visão ativa, as linhas futuras começaram a se multiplicar rapidamente, ramificando-se em possibilidades caóticas que exigiam cálculo contínuo.

    Ryuji baixou minimamente o centro de gravidade, flexionando os joelhos na postura clássica de contenção. As adagas vibraram em alta frequência. — Dessa vez… — Ryuji fez uma breve pausa, e sua aura azul explodiu ao redor do corpo com uma violência renovada, porém visivelmente mais estável, mais pesada e consideravelmente mais perigosa do que nos rounds anteriores. — …eu vou te manter ocupado até o fim.

    Silêncio tenso.

    No centro geométrico da arena, Naki e San trocaram mais um soco brutal que gerou um estalo de vácuo. Kaede já cruzava os metros finais em velocidade máxima na direção do flanco do topo.

    E pela primeira vez desde o início daquela guerra de desgaste, o time de Ryuji Arata estava executando um plano em absoluta e perfeita sincronia.

    Em outra ala do campo de batalha, a tempestade tática havia mudado de direção de forma drástica.

    BOOOOOM!!

    Mais um projétil pesado, imbuído no Sen escuro de Karaku Sabito, cruzou a arena rasgando o ar. Só que, dessa vez, o disparo não encontrou o alvo. Ryuji Arata inclinou o corpo no último microssegundo, esquivando em um movimento perfeitamente fluido.

    Karaku franziu o cenho, a gota de suor frio descendo pela têmpora. Puxou o gatilho mais uma vez. E outra. E outra. Três esferas de alta densidade cortaram o oxigênio, mas todas passaram pelo vazio.

    Pela primeira vez desde o exato segundo em que o torneio havia começado, a Meta-Visão do atirador não estava conseguindo antecipar ou controlar os rumos do confronto. O motivo era simples, porém aterrorizante para um estrategista: Ryuji estava mudando, se adaptando e evoluindo em tempo real, quebrando os padrões matemáticos a cada pisada.

    — Impossível… — murmurou Karaku, os nós dos dedos esbranquiçados na arma.

    Antes que pudesse recalcular a rota, Ryuji surgiu bem na sua frente, quebrando a distância de segurança. A adaga CTD cortou o ar em um arco horizontal violento. Karaku jogou o tronco para trás num reflexo defensivo, mas a lâmina da Ancifogo veio logo em sequência, de baixo para cima.

    Faíscas elétricas e azuis explodiram contra a blindagem protetora do atirador. Forçado a abandonar completamente a longa distância, Karaku se viu preso no pior cenário possível para o seu estilo de jogo: o combate franco a curta distância.

    Ryuji abriu um sorriso de canto, mantendo a pressão implacável. — Sem espaço pra respirar agora?

    Em uma reação desesperada, Karaku tentou disparar à queima-roupa, mirando direto no peito do protagonista. Ryuji deu um passo lateral curto. Apenas um. O tiro passou raspando por sua jaqueta.

    Karaku arregalou os olhos por trás das lentes dos óculos. Através de sua projeção mental da Meta-Visão, ele viu o frame do futuro imediato: uma lâmina azul atravessando o seu peito de forma limpa. Mas antes que o golpe se consolidasse, a linha temporal fraturou e mudou por completo.

    Uma presença massiva materializou-se logo atrás dele. Tsubasa Hayashi já estava com a espada desembainhada. — Achou que eu ia deixar ele fazer tudo sozinho? — soltou o espadachim.

    Karaku tentou rotacionar a base para se defender, mas o tempo tático havia estourado. Tarde demais.

    SENKAI.

    Um corte. Dois. Três. Dez. O mundo ao redor pareceu congelar por uma fração de segundo enquanto linhas geométricas de pura energia cortavam o espaço ao redor do corpo de Karaku.

    BOOOOOM!!

    Todas as marcas explodiram rigorosamente ao mesmo tempo. Karaku foi lançado violentamente para trás, o corpo coberto por ferimentos profundos de corte, enquanto a sua arma escapava de suas mãos, quicando contra o solo destruído.

    Silêncio na ala leste. Karaku fincou os dedos na terra, tentando forçar os músculos a se levantarem, mas o sistema nervoso simplesmente não respondeu ao comando.

    A voz do alto-falante ecoou, fria: [Karaku Sabito eliminado.]

    Pela primeira vez em todo o confronto, o cérebro e estrategista do time de San Ryoshi havia caído.

    Do outro lado do quadrante, o líder supremo continuava travado no combate. Só que agora, a matemática jogava contra ele: San Ryoshi estava enfrentando dois monstros ao mesmo tempo.

    BOOOOOM!!

    Aproveitando o ritmo imposto pela armadilha, Naki Senrou conectou um soco brutal direto no abdômen de San, fazendo a aura ciano escuro oscilar de leve. No mesmo microssegundo de abertura, Kaede Shizuma surgiu pelo flanco oposto em pura propulsão.

    SOCÃO.

    O direto de direita de Kaede atingiu a lateral do rosto do topo. San foi arremessado para longe pela primeira vez naquela partida, sendo arrastado e pressionado de verdade. Ele bloqueava os golpes sequenciais, desviava quando possível e respondia com contrataques rápidos, mas a mecânica da luta não permitia que ele construísse qualquer vantagem tática.

    Naki cobria perfeitamente os espaços vazios com suas chamas e sua precisão impecável; Kaede usava sua agressividade destrutiva para fechar qualquer brecha de fuga. Era um encaixe perfeito. Era exatamente o que Ryuji havia desenhado no vestiário.

    Companheirismo puro.

    Ao longe, percebendo o colapso do centro, Renji Asakura cerrou os dentes. — Merda.

    O Buzz Flow explodiu novamente com força total ao redor de seus músculos. A aura amarela e elétrica tomou conta do setor enquanto ele disparava em alta velocidade em direção ao centro geométrico. Ele precisava intervir, precisava ajudar San Ryoshi a quebrar o cerco. Precisava.

    Mas um borrão prateado interceptou a sua trajetória. Renji mal conseguiu reagir a tempo de armar a guarda.

    Tsubasa barrou o caminho, a espada em riste. — Vai pra onde?

    — Sai da frente! — rosnou Renji, tentando forçar a passagem.

    Tsubasa simplesmente desapareceu de sua linha de visão. Renji arregalou os olhos, as pupilas incapazes de acompanhar o vetor de deslocamento do espadachim.

    Um corte limpo atingiu seu braço. Outro cortou o flanco. Mais um cruzou o peito, seguido por um golpe vertical. O sangue explodiu no ar em uma névoa vermelha, e Renji desabou de joelhos contra o chão rachado. As faíscas amarelas do Buzz Flow piscaram e desapareceram por completo de seu corpo.

    Tsubasa passou caminhando pelo adversário caído, mantendo a lâmina baixa, sem sequer olhar para trás. — Lento.

    [Renji Asakura eliminado.]

    O silêncio estendeu-se e a arena inteira travou. A configuração do tabuleiro havia virado do avesso de forma inacreditável. Porque agora, restava apenas um do lado oposto.

    San Ryoshi. Contra quatro.

    Ryuji, Naki, Kaede e Tsubasa moveram-se em sincronia, fechando as saídas e cercando o líder em um quadrado perfeito. Pela primeira vez desde o início do torneio, o topo inquestionável do mundo estava encurralado.

    San olhou ao redor, passando os olhos calmamente por cada um dos quatro rostos. Então, um sorriso pequeno, genuíno e sincero desenhou-se em seus lábios. — Então… era isso que vocês estavam construindo.

    Naki avançou desferindo o primeiro feixe ciano. Tsubasa cortou pela lateral com velocidade. Ryuji usou as duas adagas para forçar o bloqueio frontal. San utilizou o Sen para interceptar a tripla investida, mas o estresse mecânico abriu uma brecha na sua defesa. Apenas uma. Mas foi o suficiente.

    Kaede viu a abertura no exato instante em que ela se formou.

    Os raios vermelhos de sua aura explodiram com uma violência nunca antes vista, fazendo o chão inteiro da arena tremer sobre as fundações. O braço direito dele foi puxado para trás, as veias saltando sob a pele tensionada pela adrenalina. A energia ao redor de seu corpo rugiu.

    E então, Kaede saltou, projetando todo o seu peso no golpe final. — LEÃOOOOOOOOOO!!

    O chute descendente veio com força total. Um leão gigantesco e colossal de plasma vermelho nasceu do movimento — uma criatura infinitamente maior, mais feroz, mais destrutiva e mais viva do que qualquer outra invocada anteriormente.

    O leão elétrico abriu as mandíbulas massivas no ar e engoliu o corpo de San Ryoshi por completo, descarregando toda a potência da técnica no solo.

    BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!!!

    A deflagração monumental de energia vermelha iluminou a totalidade da arena com um clarão cegante. O estádio inteiro balançou violentamente, fazendo as estruturas das arquibancadas vibrarem enquanto o céu simulado parecia se partir ao meio pela pressão térmica.

    Quando a densa fumaça vermelha e a poeira finalmente começaram a ceder e se dissipar, revelaram a cena.

    San Ryoshi ainda estava de pé. Por um breve, único e isolado segundo. Então, seus joelhos cederam, batendo contra o solo queimado. O corpo pendeu para a frente, tocando o chão da cratera de forma inerte.

    Silêncio absoluto nas arquibancadas. Ninguém na plateia ousava falar ou puxar o ar.

    A voz mecânica do sistema anunciou, quebrando o transe: [San Ryoshi eliminado.]

    Ninguém comemorou de imediato; o choque da realidade era grande demais.

    [Fim do Terceiro Round.] [Vencedores: Ryuji Arata, Naki Senrou, Kaede Shizuma e Tsubasa Hayashi.]

    No milissegundo seguinte, a arena inteira explodiu em um coro ensurdecedor de gritos, aplausos e aclamação. Pela primeira vez em toda aquela guerra de desgaste, o impossível havia se materializado diante dos olhos do mundo.

    Placar Geral:

    • Time San, Sander, Karaku e Renji: 2
    • Time Ryuji, Naki, Kaede e Tsubasa: 1

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