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    Ian não levantou.

    O corpo tentou.

    Não respondeu.

    A mão direita ainda fechada ao redor do cabo da espada quebrada. A esquerda havia parado de ser dele alguns minutos atrás — só sangue escorrendo pelo antebraço, pingando na pedra em cadência que ele conseguia ouvir mas não conseguia parar.

    Dan veio andando.

    Sem pressa.

    O martelo pendendo no lado como coisa esquecida.

    Parou a dois passos.

    Olhou de cima para baixo com a expressão de quem está tentando entender alguma coisa.

    — Então é isso?

    Ian não respondeu.

    Dan chutou.

    O impacto jogou o corpo metros para trás, as costas batendo contra o que restava da carroça virada, a madeira cedendo com o peso. O ar saiu seco dos pulmões de uma vez, enquanto a espada finalmente se desprendia do braço com o impacto.

    Ian tentou puxar o ar de volta enquanto forçava a mana a estancar o ferimento.

    Veio pouco, apenas o suficiente para reduzir.

    — O grande Guardião…

    Outro chute. Barriga dessa vez.

    O conteúdo do estômago subiu. O corpo falhou na hora de segurar.

    — …morre assim?

    A frase saiu cortada por um riso curto.

    Mais um chute. Costelas.

    Algo cedeu com um som que Ian sentiu antes de ouvir. Seco, interno, ele registrou antes do cérebro processar a dor.

    Dan inclinou a cabeça.

    — Em cima do próprio vômito.

    Ian tossiu.

    Sangue veio junto.

    Dan ficou olhando para isso por um segundo.

    Depois continuou.

    — E as tuas garotas?

    Silêncio.

    Mais um chute.

    O corpo já não acompanhava o impacto direito — só deslocava, rolava, parava onde a física decidia.

    — Aquela do gelo…

    Outro.

    — …já deve estar no chão.

    Mais forte.

    Ian tentou levantar o tronco.

    Não conseguiu.

    — A Arquimaga?

    Dan pausou.

    Depois chutou de novo com força que Ian sentiu nos dentes.

    — Deve ter gritado bonito.

    Eldrik deu um passo à frente.

    — Chega.

    Aedin estendeu o braço sem olhar para ele.

    — Ainda não.

    Dan sorriu.

    Mais aberto.

    — Tá vendo?

    Ele chutou de novo.

    Lateral da cabeça dessa vez.

    O mundo não virou de uma vez.

    Virou devagar — o chão subindo pelo lado errado, os sons chegando de ângulos que não faziam sentido, a pedra da rua aparecendo onde o céu deveria estar antes de tudo parar de se mover e ficar desalinhado.

    Ian ficou olhando para o chão perto do rosto.

    Para uma rachadura na pedra.

    Fina.

    Longa.

    Irrelevante.

    O cérebro ficou nela por um segundo porque era a única coisa no campo de visão que não estava se movendo.

    Depois o barulho voltou.

    Passos.

    A voz de Dan chegando de longe mesmo estando perto.

    — Nem ele acha que você vale terminar rápido.

    Ian não respondeu.

    Os olhos meio abertos.

    Sem foco completo.

    O chão frio contra a bochecha.

    O gosto de ferro constante, espesso, chegando de algum lugar acima da garganta que ele não tinha mais condições de identificar.

    O sangue do antebraço pingando na pedra ao lado do rosto em cadência regular.

    lento, mas regular.

    Ele ouvia tudo.

    Processava em partes.

    A mana não vinha.

    Tentou.

    Veio irregular, insuficiente, dissipando antes de chegar a qualquer forma.

    Kenzaru.

    O pensamento apareceu.

    Desapareceu.

    Não.

    Dan percebeu que ele havia parado de tentar levantar.

    — Ah….

    Levantou a perna devagar.

    Encostou a sola da bota na testa de Ian.

    Sem peso.

    Só marcando.

    — Já desistiu?

    Ian não respondeu.

    Não porque não queria.

    Porque a resposta que tinha não ia sair da forma que deveria e ia gastar o que não tinha para gastar.

    Ficou quieto.

    Os sons ao fundo começaram a mudar.

    Metal.

    Passos.

    Vozes chegando de direção que não era nenhuma das que havia sido antes.

    Aedin ouviu primeiro.

    O olhar mudou — pequeno, preciso, o tipo de ajuste que não precisa de gesto.

    — Acabou.

    Dan tirou a sola da testa de Ian.

    — Agora?

    Aedin já estava se movendo.

    Passo firme.

    Direto.

    Sem pressa.

    Sem raiva.

    O machado subiu no segundo passo.

    Ian não tentou se mexer.

    Os olhos encontraram o machado subindo.

    O braço esquerdo no chão ao lado, imóvel, a lâmina de Eldrik estava caída ao lado, e após os impactos de Dan o sangramento havia retornado.

    O campo de visão piscou.

    Escureceu em uma gradação.

    Voltou.

    Aedin deu o último passo.

    O machado alinhou.

    Ian ficou olhando para ele.

    Não para o machado.

    Para Aedin.

    Para o rosto dele — firme, com um toque de raiva. Só resolução. O tipo de expressão que aparece em pessoas que acreditam completamente no que estão fazendo.

    Ian soltou o ar devagar.

    Não foi decisão.

    O corpo simplesmente liberou o que ele havia estado segurando sem que ele percebesse — tensão nos ombros que havia durado decadas, pressão no peito que havia chegado a tempo suficiente para ele não se lembrar quando havia iniciado e nunca saído completamente, a contração constante dos músculos que insistiam em estar prontos para o próximo movimento mesmo quando não havia necessidade.

    Tudo foi embora de uma vez.

    O corpo afundou mais um centímetro contra a pedra.

    O frio do chão chegou diferente.

    Mais presente.

    Como se a pedra tivesse estado lá o tempo inteiro esperando ele parar de resistir para poder ser sentida completamente.

    Não havia mais nada para fazer com o que tinha.

    O braço esquerdo no chão, imóvel.

    O direito sem força suficiente para erguer o que restava da espada.

    O joelho que não ia responder mesmo se o resto respondesse.

    A mana que chegava em fragmentos inúteis, dissipando antes de chegar a qualquer forma.

    Ian fechou os olhos.

    A mana ambiente respondeu.

    Não porque ele pediu.

    Porque sentiu.

    Uma velha pontada fria no coração.

    O ar ao redor ficou mais pesado — não vento, não pressão direcional, só densidade aumentando de uma vez, como se o espaço ao redor do corpo dele tivesse engrossado. A pedra sob as palmas pareceu mais próxima. Os destroços ao redor pareceram afundar levemente nos próprios lugares.

    Como se a gravidade tivesse aumentado um grau.

    Pequeno.

    Desconectado.

    Sem controle suficiente para ser arma ou escudo.

    Só a mana reagindo ao que o corpo não estava mais tentando esconder.

    Um Caçador na borda do campo recuou meio passo sem entender por quê.

    Dan ficou parado.

    Os olhos varreram o ar ao redor de Ian analisando a variação de mana e a bolha de magia instável que se formava ao redor de Ian.

    Ele havia sentido aquilo antes.

    Não igual.

    Mas parecido.

    Em pessoas que estavam prestes a fazer algo que não havia volta.

    — O que é isso? — Eldrik perguntou dando um passo a trás.

    Dan apoiou o martelo no ombro.

    — Isso, é a habilidade dos Kenzaru.

    A expressão dele mudou por um segundo.

    Não voltou ao sorriso.

    — É bom acabar logo com ele Aedin… parece que esse rato ainda tem truques.

    Aedin não parou.

    O machado começou a descer.

    Dan se moveu.

    Não para frente.

    Para o lado.

    — Sai!

    O braço fechou ao redor de Aedin e puxou com força que arrancou o rei da linha do golpe antes que completasse.

    A lança caiu.

    Negra.

    Rasgando o ar onde Aedin havia estado meio segundo antes.

    Cravou na pedra.

    O impacto subiu pelo chão em vibração que Ian sentiu pela bochecha, pelo ombro, pelas costelas — misturando com o tremor irregular que já estava lá.

    A poeira levantou.

    Densa.

    Fechando o campo de visão por um segundo.

    Quando abriu, havia uma silhueta no meio dela.

    Ian não conseguiu focar completamente.

    Mas viu o suficiente.

    Alguém havia chegado.

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