Olá, leitores! Os capítulos mais recentes têm sido mais “tranquilos”, mas acredito que em poucos capítulos o fim do volume já comece a tomar forma. Só preciso das peças certas nos lugares certos. Vou fazer o meu melhor para surpreender todos que acompanharam até aqui.
O próximo volume não vai ter um tom tão ‘slice of life’ quanto esse, pretendo deixar as coisas mais ‘agitadas’.
CAPÍTULO 36 - ZORDHAN
Victor e Alexander ainda seguiam os rastros do necromante.
Como executores reais, cabia a eles fazer o trabalho sujo, eliminando toda e qualquer ameaça à Osteria.
O próprio rei, Aldric Von Osteria, havia ordenado pessoalmente que o necromante e sua pesquisa fossem eliminados. Aquilo era perigoso demais para cair em mãos erradas.
Durante a investigação, porém, eles acabaram encontrando um problema paralelo: aventureiros estavam desaparecendo em uma rota específica de Wolfscar. Bastou uma investigação rápida para descobrirem um grupo de mercenários que, com o apoio de uma barreira, emboscava viajantes e roubava seus equipamentos. Tudo indicava um esquema maior, mas nenhum dos mercenários sabia quem era o contratante, sabiam apenas que ele pagava bem.
Todos morreram pelas mãos de Victor e Alexander. Trinta homens bem equipados e uma maga completa não representaram qualquer desafio real para os executores.
Agora, seguindo novamente o rastro do necromante, os dois estavam acampados em uma floresta. A fogueira acesa denunciava sua presença no meio da escuridão.
Victor tinha olheiras profundas e parecia não ter tido uma noite decente de sono em dias.
Alexander, ao contrário, parecia radiante. Mantinha um sorriso tranquilo no rosto e uma expressão relaxada, como se toda aquela perseguição não fosse nada demais.

Victor lançou um olhar irritado para o companheiro antes de resmungar:
“Como diabos você parece estar tão bem? Nós não dormimos direito há dias!”
Alexander nem se deu ao trabalho de esconder a satisfação.
“Você sabe muito bem o motivo.” Alexander manteve o sorriso. “E também sabe que não vai adiantar reclamar. Você não conhece nenhuma magia que faça sumir o cansaço instantaneamente e ainda se diz um mago?”
“Você pensa que magia é onipotente! Se eu conhecesse uma magia dessas, já teria usado!” A irritação no tom de Victor era tão evidente quanto o olhar mortal que ele lançou ao parceiro, mas Alexander não pareceu se importar nem um pouco.
Artistas marciais eram mais resistentes do que pessoas comuns, em todos os sentidos, ficar sem dormir direito por alguns dias não afetaria tanto Alexander quanto estava afetando Victor.
Os dois compartilharam a refeição em relativo silêncio. No entanto, o clima mudou quase imediatamente quando perceberam alguém se aproximando.
Alexander sacou a espada de pronto, e Victor ergueu o cajado, preparando-se para conjurar caso se tratasse de uma emboscada.
Os dois relaxaram ao reconhecer a figura que surgia entre as árvores.
Era um draconato de escamas esverdeadas, vestindo um manto marrom e carregando um cajado extremamente longo. Seu rosto não tinha nada de humanoide. Em vez disso, exibia a face de um dragão, com focinho alongado e olhos amarelos que tornavam impossível confundi-lo com um humano.
Victor abaixou a guarda primeiro.
“Sr. Zordhan, o que faz por aqui?”
A voz serena do draconato contrastava com a tensão do momento.
“Elias me enviou. Ele disse que tem sido difícil localizar o necromante, mas que, em uma de suas adivinhações recentes, pressentiu que minha presença seria necessária para o sucesso da missão de vocês.”
Victor e Alexander trocaram um olhar surpreso ao ouvir o nome de Elias.
Alexander foi o primeiro a se pronunciar.
“Se o Sr. Elias disse que precisaríamos de você, então é verdade. Ainda assim, não entendo como um único necromante pode escapar das adivinhações do Sr. Elias e exigir que uma força-tarefa tão poderosa seja reunida para caçá-lo.”
Zordhan manteve a mesma serenidade ao responder.
“Elias também não compreende totalmente, mas acredita que isso não está diretamente ligado ao necromante. Em vez disso, alguma força maior parece estar envolvida, o que torna as adivinhações dele muito mais difíceis.”
Victor assentiu, aceitando a situação sem prolongar a discussão.
“Ótimo. Seguiremos juntos a partir daqui.”
Em seguida, ele cumprimentou o draconato e ofereceu parte da refeição, convidando-o a compartilhar o acampamento.
Daquele momento em diante, os três viajariam juntos na busca pelo necromante.
…
Oliver estava jogando Regnum com Erina. Ele teria aulas com Orson todos os dias e, uma vez por semana, com Archibald, mas as lições de Orson não seriam muito longas. Por isso, ainda sobrava algum tempo para passar com Erina.
Durante a partida, Oliver percebeu que ela usava um belo colar. Erina normalmente não gostava de joias muito chamativas, mas aquele colar parecia especial de algum modo.
Sem rodeios, ele perguntou:
“Quem te deu esse colar, tia Erina? Parece valioso.”
Um leve sorriso surgiu no rosto dela, suave e raro.
“Archibald me deu esse colar. Ele disse que vai me levar embora para a capital assim que terminar suas obrigações com Jonathan. Sinceramente, eu não sei se acredito nele, mas ele parece sincero.”
Ao que tudo indicava, as coisas entre Archibald e Erina estavam ficando sérias. Em casos raros, cortesãs podiam ser compradas, mas isso exigia acordo entre todas as partes envolvidas: a cortesã, a dona do bordel e o comprador. Além disso, o valor costumava ser astronômico.
Quando Archibald falava em levar Erina embora, isso significava comprá-la e torná-la oficialmente sua esposa. Cortesãs comuns talvez nunca encontrassem alguém disposto a comprá-las por toda a vida, mas Erina nunca fora uma cortesã comum.
Ela baixou os olhos por um instante antes de continuar.
“Atualmente, ele é meu único cliente. Sendo sincera, eu nunca esperei que esse dia fosse chegar, mas chegou. Espero mesmo que ele esteja sendo sincero sobre me levar embora e construir uma família comigo. Eu não imaginaria isso nem nos meus sonhos mais selvagens.”
Erina vinha parecendo muito melancólica ultimamente, e aquilo não combinava com sua personalidade. Tendo vivido com ela desde que nasceu, Oliver conhecia bem quem ela era.
Sabia que ela viera de um lugar frio e distante em busca de uma vida melhor. Sabia também que sua ironia, sua agressividade e sua inflexibilidade tinham sido moldadas como uma forma de se defender do mundo.
Erina não era uma pessoa ruim, tinha defeitos e qualidades como qualquer outra e já havia ajudado muito Oliver e Eliandris.
Enquanto movia uma peça no tabuleiro, Oliver lançou a pergunta com cuidado:
“Tia Erina, você nunca sentiu falta de casa?”
Ela ficou em silêncio por um momento antes de responder, sem tirar os olhos do tabuleiro.
“Eu nunca tive uma casa, Oliver. Minha mãe morreu de uma doença desconhecida. Meu pai era um bêbado que gastava todo o dinheiro com apostas e nunca se importou comigo nem com a minha mãe. Desde muito nova, eu tive que vender o corpo para ter o que comer. Eu só queria sair daquele lugar frio e miserável. O inverno durava quase o ano todo lá. Depois que minha mãe morreu, entrei clandestinamente no primeiro navio que vi e, depois de viajar muito, acabei aqui em Corval.”
Oliver ergueu os olhos para ela com um sorriso sincero.
“Se você ainda não encontrou sua casa, eu espero que encontre em breve, tia Erina. Mestre Archibald não vai te decepcionar.”
Ele sabia melhor do que ninguém como Archibald realmente era. O homem estava, sem dúvida, apaixonado por Erina.
Erina estreitou os olhos, como se quisesse afastar a própria vulnerabilidade com a mesma atitude dura de sempre.
“Chega de papo furado, Dominus!”
No instante seguinte, ela encerrou a partida com um golpe decisivo.
Oliver levou as mãos à cabeça, incrédulo por ter perdido uma partida que parecia ganha.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.