Índice de Capítulo

    Ouvindo a inusitada proposta da mulher, o jovem Tenente franziu a testa.

    Ela quer Theodora? Por quê? pensou consigo mesmo, de forma desconfiada.

    Nas comunicações internas do trio, Raul mandou uma mensagem enquanto olhava para ela.

    “Eu não sei quem é essa tal Medusa, ou qual é sua relação com ela. Você vai ter algumas coisas para explicar a respeito, garoto. Mas, por ora, não confie nela. Isso parece ser uma armadilha.”

    Mesmo que a mulher estivesse sob o contrato e não pudesse atacá-los diretamente, não significava que não havia brechas possíveis de serem burladas.

    Fernando leu a mensagem na comunicação interna de sua Pulseira, mas apenas ignorou. Para ele, o fato de ser ou não uma armadilha não era importante. A questão realmente problemática era o estranho interesse da Eterna Viajante em Theodora!

    Merda, se eu não tivesse falado mais que o necessário antes… pensou consigo mesmo, rangendo os dentes. Mesmo que estivesse sob o efeito da Poção da Verdade naquele momento, sabia que havia cometido um grande erro.

    Então, com um olhar gelado, voltou-se para Arayel.

    “Nenhum dos meus subordinados está à venda!” declarou, com uma voz fria.

    Deran, que estava chocado com a proposta de sua amada, ficou igualmente surpreso ao ver o jovem tenente recusá-la sem sequer pestanejar. Eles estavam falando de uma Habilidade Lendária! Não de algum item aleatório sem valor, mas algo que Grandes Legiões matariam para possuir! 

    Lerona e Raul, ao ouvirem isso, tiveram um rápido entendimento da situação.

    Ele… realmente tem uma Medusa sob suas asas?

    Apenas possuir um Beholder o servindo já era algo bizarro e assustador, que facilmente poderia fazer não só os Leões Dourados, mas o próprio Conselho Superior, persegui-lo, mas Fernando também se atrevia a possuir até mesmo uma Medusa em suas fileiras! Quanto mais os dois Capitães pensavam a respeito, mais achavam o rapaz pálido, estranho e, de certa forma, perigoso de se ter ao seu lado.

    Ao contrário das expectativas de Fernando, a mulher não pareceu zangada ou irritada com sua recusa. Na verdade, seus olhos verdes piscaram com força, encarando-o de uma forma aparentemente diferente de antes.

    “Mesmo em troca de uma Habilidade Lendária?” Arayel perguntou novamente, como se estivesse tentando confirmar algo.

    O jovem pálido não parecia satisfeito com a indagação, enquanto sua expressão já fria ficou ainda mais intensa.

    “Se você me oferece uma Habilidade Lendária, mil moedas de ouro ou até mesmo o mundo, nada disso importa. Independentemente da oferta, a resposta sempre será a mesma. Nenhum dos meus subordinados está à venda!”

    Ouvindo a entonação fria, mas corajosa, do rapaz pálido, que mesmo claramente sabendo que era muito mais fraco, ainda se atrevia a falar dessa forma, fez Arayel respirar fundo.

    Esse garoto Humano… ele é estranho, mas não de um jeito ruim. Se for ele, talvez isso funcione.

    Swish!

    A mulher arremessou algo em sua mão, que Fernando, pego de surpresa, agarrou. Ao olhar para o objeto em sua palma, seus olhos se arregalaram. Era o Brasão de Armazenamento da Habilidade Lendária, Assimilação Sanguínea! Ele rapidamente levantou seu olhar.

    “Eu já disse que eu não vo-”

    “Você não precisa vender ninguém a mim”, a Medusa falou, interrompendo-o. “Tudo que eu peço é que me prometa algo. Se aquela criança tiver algum talento para o Sistema de Habilidades, ensine isso a ela.”

    Tanto Fernando quanto Lerona e Raul tinham olhares estranhos ao ouvirem isso.

    “E claro, eu acho que não preciso dizer isso, mas se permitir que isso caia nas mãos das Legiões humanas, mesmo que me custe a vida, garanto que irei atrás da sua cabeça. Fernando, do Batalhão Zero dos Leões Dourados”, Arayel declarou, com um mana pesado pressionando o trio.

    O jovem Tenente tinha uma expressão estranha, não estando particularmente preocupado com a ameaça.

    Ela realmente está me dando uma Habilidade Lendária assim? O que ela planeja? pensou consigo mesmo, desconfiado.

    “Por que está me dando isso?”

    “Porque assim ela deve estar mais segura. A Legião Imperial acha que isso está comigo, eles nunca pensarão em ir atrás de um pequeno Humano qualquer.”

    Ouvindo a resposta, Fernando franziu o cenho, sua desconfiança aumentou ainda mais.

    “Se essa Habilidade é tão perigosa para sua raça, por que simplesmente não a destrói? Por que confiaria algo cuja existência é tão arriscada a quem você tentou matar? Não acha que, ao sair dessa cidade, a primeira coisa que eu faria seria vender isso à Legião Imperial?”

    Ouvindo as declarações do rapaz pálido, Deran começou a ficar ansioso.

    “Querida, ele tem razão, não entendo por que fazer isso…” O sujeito baixinho falou, esperando que a mulher de olhos verdes voltasse atrás em sua decisão.

    Arayel ignorou o Anão, quando sorriu fracamente.

    “Destruir isso… realmente, pensei nessa possibilidade inúmeras vezes. Mas simplesmente nunca consegui reunir a coragem necessária”, comentou com uma voz melancólica. “Isso porque a Assimilação Sanguínea é uma ameaça direta a nós, Medusas, mas também é uma forma de esperança.”

    “Esperança?” Fernando perguntou, franzindo o cenho. “Como algo que poderia transformar sua raça em escravos poderia ser alvo de esperança?”

    “Essa Habilidade pode mutar Humanos em uma mistura com outras raças, possibilitar o uso de sua Magia, mesmo aquelas raciais. Sendo assim, se uma Medusa, que é meio-Elfo e meio-Humana, puder aprender algo assim e melhorar essa Habilidade em algo que a torne mais próxima de Humano ou Elfo, então talvez nós possamos superar nossa maior barreira biológica.” Quando Fernando, Raul e Lerona ouviram isso, suas expressões mudaram, entendendo o objetivo da mulher. “A graça de prover uma criança. Uma mulher que não pode dar à luz é como um ser incompleto, com um vazio difícil de ser preenchido.”

    Ao falar até aí, as mãos de Arayel moveram-se instintivamente em direção ao seu abdômen, com uma expressão triste.

    “Eu vivi muito tempo com essa ferida em minha alma, tudo que eu quero é que isso possa ser diferente para elas, para minhas queridas filhas.” Os olhos da Medusa estavam cheios de tristeza quando ergueu seu olhar, focando-se no rapaz pálido. “Não precisamos fazer um Contrato ou qualquer coisa do tipo, só preciso que diga isso, aqui e agora, e a Habilidade é sua.”

    “Querida…” Deran, que estava ao lado, ao ver a profunda tristeza em sua amada, sentiu seu peito pesar. A falta de um filho não era algo doloroso apenas para ela, então compreendia o que ela sentia.

    Com a proposta feita, Fernando tinha uma expressão estranha. Tudo que a mulher pedia era que ele ensinasse a habilidade a Theodora no futuro, caso ela tivesse talento para o Sistema de Habilidades. A verdade é que ele sabia que isso era algo totalmente possível, mesmo se ela não possuísse talento anteriormente, agora possuía, graças às suas Veias de Mana Expandidas e à Sopa de Delgnor!

    Sendo assim, a promessa não era algo que lhe prejudicava, pois ele já pretendia ensinar Habilidades a Theodora de qualquer forma. No entanto, havia um detalhe importante. Ao olhar para o lado, percebeu Raul e Lerona o encarando.

    Se Theodora realmente fosse capaz de aprender a Assimilação Sanguínea e, assim como Arayel queria, pudesse ter um filho no futuro. Isso tinha um significado e importância muito maiores do que ele talvez pudesse lidar. Esse seria o primeiro passo de ascensão de uma raça poderosa e outrora infértil, o que poderia, num futuro distante, ser uma grande ameaça à humanidade. Fernando não estava particularmente preocupado com isso, mas poderia não ser o caso dos dois Capitães.

    Enquanto ele estava em dúvida sobre qual resposta dar, uma mensagem chegou no grupo dos três.

    “Faça isso. É uma Habilidade Lendária.” Uma mensagem de Lerona foi enviada, o que fez o jovem pálido olhar imediatamente pelo canto do olho, apenas para ver uma expressão calma e tranquila nela, bem diferente do que ele havia imaginado. “Mesmo se essa tal Medusa puder aprender essa Habilidade, não há garantia alguma de que ela possa ter filhos. É uma aposta que vale a pena.”

    Fernando ficou um pouco surpreso com a atitude de Lerona, acreditando que ela seria contra isso, considerando sua rigidez.

    Ao lado, Raul apenas ficou em silêncio, aparentemente não interessado em dar uma opinião nesse tipo de assunto.

    Com o apoio da Capitã ruiva e também conforme sua própria decisão e estilo de vida, Fernando respirou fundo quando se decidiu.

    “Você tem minha palavra, Arayel, Mãe de todas.”

    Ouvindo a confirmação do rapaz, a Medusa assentiu, enquanto Deran apenas observou em silêncio, tendo desistido de intervir no acordo.

    O jovem Tenente guardou o brasão, quando, dessa vez, com menos cautela, talvez por ver um lado mais frágil da poderosa Maga, se dirigiu à saída.

    “Se um dia…” a Eterna Viajante disse, levemente hesitante. “A criança precisar de ajuda ou quiser me encontrar, diga a ela que procure por Ballas, em Drumord. Ele saberá onde me encontrar.”

    Apesar de estar menos apreensivo, Fernando ainda estava em guarda, então assentiu.

    “Eu direi.”

    Logo o trio saiu da sala, deixando a área VIP.

    Assim que os três Humanos partiram, Arayel caiu de joelhos.

    “Q-querida! O que houve?” Deran gritou apressadamente, chegando ao lado dela, apoiando-a. “Isso é tudo minha culpa, você usou muito mana. Tudo porque eu me descuidei…”

    Apesar de ter pressionado o trio de Humanos e ter os ameaçado, a verdade é que a mulher estava em seu limite. Mesmo que aparentasse juventude e beleza, ela sabia que isso não passava de uma fachada devido ao sangue élfico. Logo sua vida chegaria ao fim e ela estava ciente disso.

    “Está tudo bem. Foi apenas uma fraqueza momentânea”, a mulher disse, quando o sujeito a ajudou a chegar ao sofá e sentar-se. Mesmo com uma aparência cansada, a Medusa continuava a olhar para a porta, como se estivesse pensando se a decisão que havia acabado de tomar fosse a correta ou um erro que voltaria para assombrá-la. “Querido, você acha que eu…”

    “Você fez o que achava certo e eu te apoiarei”, Deran falou apressadamente, confortando-a. Mesmo que internamente não estivesse contente em entregar a Assimilação Sanguínea a Humanos, confiava em sua mulher mais do que qualquer um.

    “Mas os outros, eles…”

    “Eu lidarei com eles, não se preocupe. Apenas descanse.” Ouvindo as palavras de conforto de seu amado, Arayel o olhou por um breve instante, quando recostou-se em seu pequeno corpo. Mesmo sendo mais baixo que ela e mais fraco em força, ela sentia-se segura ao seu lado, sendo seu maior porto seguro.

    “Deixaremos a cidade essa noite”, ela disse.

    “Farei os preparativos.”

    Ambos, o Anão e Medusa, apenas ficaram ali, em silêncio, aproveitando o momento.

    Em Garância, mais especificamente, no prédio do Batalhão Zero, uma figura imponente estava sentada em uma cadeira, enquanto duas pessoas estavam ajoelhadas em sua frente.

    “Eu prometi ao garoto que cuidaria do Batalhão Zero e os apoiaria. Mesmo assim, ele mal saiu por alguns dias e vocês acabaram nesse estado lamentável. Estão tentando me envergonhar ao me manter no escuro?!” A pessoa sentada gritou, com uma voz cheia de fúria e olhos arregalados que fariam qualquer um tremer de medo. Esse não era outro senão o General Zado.

    O velho observava o homem e a mulher à frente, ajoelhados, ambos em silêncio, com a cabeça baixa. Estes eram Theodora e Ilgner.

    “Essa é minha responsabilidade, General”, Theodora declarou. “Eu tomei a decisão de lidar com essa situação por conta própria.”

    A Subtenente, segunda em comando do Batalhão Zero, apesar de ter sido tratada por Anastasia e ter recuperado o movimento de suas mãos, agora usava um tapa-olho em seu olho esquerdo. Ela não enxergava nada além de borrões com ele desde o incidente com o assassino.

    “Isso não é verdade, General”, Ilgner interrompeu. “Foi uma decisão em conjunto. Eu tenho minha parcela de culpa nisso também.”

    Mesmo que os membros de alto escalão do Batalhão Zero tivessem tomado cuidado para não permitir que a batalha contra o Máscara Branca se tornasse pública, alegando que as explosões e barulho nos arredores eram fruto de ‘um treinamento’, Zado não era alguém idiota. Apesar de ocupado com suas funções, ainda continuava de olho neles.

    O velho General sabia dos assassinatos recentes na cidade e, quando descobriu que o Batalhão Zero estava realizando um ‘treinamento militar’ noturno e repentino, imediatamente achou isso suspeito e foi até o local.

    Apesar de sua visita poder ser vista como suspeita por alguns, já que sua relação com Fernando era um segredo absoluto, ele não teve escolhas, já que Dimitri estava fora da cidade, só restando ele mesmo para averiguar a situação. Ao chegar ao Batalhão Zero e mesmo com os guardas tentando recusar sua visita, o velho homem forçou sua entrada, apenas para ver resquícios de batalha por todo o lado.

    Ao ver aquilo, ele teve certeza, não era um simples treinamento, mas um combate real que havia ocorrido ali!

    Suas suspeitas foram ainda mais reforçadas ao ver a situação de Theodora.

    “Eu não estou interessado em qual dos dois desgraçados é o culpado!” Zado falou, com a voz elevada. “Não vou dizer isso duas vezes. É melhor explicarem a situação agora, e é melhor não se atreverem a esconder um único detalhe. Ou eu, Zado, os farei se arrepender! Vou pendurar todos os membros do Alto Comando do Batalhão Zero na muralha da cidade por três dias e três noites!”

    Theodora e Ilgner se entreolharam, seus corpos tremendo. Eles sabiam que Zado não era do tipo que lançava ameaças vazias, se ele estava dizendo que faria isso, é porque realmente faria! Mesmo que quase tivessem morrido na luta contra o Máscara Branca, isso simplesmente não se comparava a lidar com esse velho maluco!

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