Capítulo 690 - Acordo
Com exceção de Raul, que já sabia disso há muito tempo, as duas mulheres tinham expressões de claro choque. Mesmo a Eterna Viajante, que havia perguntado a respeito e feito uma dedução, não conseguia acreditar em algo assim. Os Beholders comumente escravizam outras raças, mas ela nunca havia ouvido o contrário ocorrendo!
Lerona também tinha uma expressão assustada, enquanto o aperto em sua lança lentamente diminuía, assim como toda a intenção hostil que havia forçado-se a reunir.
Ele… é o mestre de um Beholder? indagou-se, chocada.
Não fazia muito tempo que conhecera o rapaz pálido, mas não importava quanto tempo passasse, ele continuava a deixá-la sem palavras a cada nova descoberta. Ele era como uma caixinha de surpresas que revelava novos truques a todo momento!
Recebendo a resposta afirmativa de Fernando, Arayel fechou os olhos, como se estivesse tomando uma decisão difícil.
Se fosse em qualquer outra situação, ela acharia que era mentira, mas não havia como burlar um contrato vinculativo ao Mana como esse. Mesmo um Beholder não seria capaz disso.
Esse Humano, ele é estranho. Normalmente, eu não faria isso, mas acho que não tenho escolha.
Abrindo os olhos, olhou-o diretamente, suas íris verdes reluzindo sobre a fraca luz da sala VIP.
“Quero fazer um acordo”, declarou, com uma voz calma, mas cheia de firmeza.
Fernando ficou surpreso ao ouvir isso, assim como os dois Capitães ao seu lado.
“Que tipo de acordo?” o rapaz pálido questionou, franzindo o cenho, cheio de desconfiança.
Ele não tinha certeza do que a mulher iria propor, mas, conhecendo sua inteligência apurada, sabia que deveria ter cuidado, pois poderia ser mais uma armadilha. Tudo que ele queria, desde o início, era comprar a Habilidade de nível Cavaleiro e partir o mais rápido que pudesse dali.
“Antes disso, você sabe por que estão me perseguindo e que tipo de pessoas são? E, mais importante, após ver o conteúdo dessa Habilidade Lendária, entende por que te atacamos?” Arayel não respondeu, mas fez uma série de perguntas, sem nunca desviar o olhar do rapaz, lendo cada ínfimo movimento ou reação de sua parte.
A expressão de Fernando mudou levemente. Nesse ponto, ele já havia percebido o problema central relacionado a essa Habilidade e o motivo da hostilidade da Eterna Viajante, bem como de Deran.
“A Habilidade Lendária, Assimilação Sanguínea, a criatura mais compatível com ela é… você”, Fernando declarou, olhando-a diretamente nos olhos, o que fez Raul e Lerona ficarem confusos por um momento, até que uma percepção repentina os atingiu, entendendo onde ele queria chegar.
Merda, então quer dizer que as Medusas são o alvo principal de um Usuário que aprenda essa Habilidade de Mutação? Raul perguntou-se, quando rangeu os dentes, finalmente entendendo por que as coisas haviam terminado tão mal. Se uma Habilidade como essa se popularizar dentro de uma Grande Legião, isso seria…
Não era uma mera questão de hostilidade entre Humanos e Medusas, mas se tratava puramente da sobrevivência de sua raça!
A Magia de Petrificação das Medusas era amplamente conhecida em Avalon e, por muito tempo, muitos a haviam cobiçado, estudando-a e tentando adicioná-la ao arsenal de Magias da Humanidade. Mas, infelizmente, era uma Magia relacionada ao traço racial e genético e simplesmente não poderia ser copiada, independentemente do talento de alguém. No entanto, se alguém aprendesse a Assimilação Sanguínea, algo que permitia mimetizar características ou Magias Naturais por meio do sangue, então a história seria totalmente diferente!
A Eterna Viajante logo assentiu, satisfeita. Apesar de sentir que era incômodo lidar com sua perspicácia, assim também era mais fácil fazê-lo entender seu ponto de vista.
“Por mais que me doa dizer isso, nós, Medusas, somos metade Humanas e metade Elfas. Obviamente, isso nunca nos ajudou. Somos excluídas e caçadas por ambos os lados”, falou, com uma voz calma, mas que continha um leve traço de rancor. “Principalmente vocês, Humanos. Sempre nos viram como párias, como monstros que devem ser caçados e presos, alegando que nosso sangue poderia ser a ruína da humanidade e que não passamos de aberrações da natureza. Mas, mesmo alegando isso superficialmente, a verdade é que vocês nos temem. Temem que possamos ser mais que vocês, Humanos, mais até do que os próprios Elfos.”
Fernando ficou calado, enquanto ouvia a mulher lançar palavras cheias de ódio, enquanto mantinha um rosto inexpressivo.
Tudo que havia ouvido sobre as Medusas havia vindo de Theodora e um pouco do que havia visto em livros, com breves menções. Além disso, não tinha muito conhecimento da história das Medusas e sua relação com a raça humana, mas conseguia ter uma noção aproximada.
Era natural para o ser Humano ter medo do que é estranho, do que é diferente e, mais do que tudo, do que é desconhecido. Sendo assim, era fácil entender que as Medusas haviam sofrido nas mãos dos Humanos e por isso nutriam um profundo rancor.
Além disso, também havia a questão de assimilação racial. Se as Legiões permitissem que a humanidade procriasse livremente com Elfos e gerassem Medusas, lentamente ambas as raças criariam uma proximidade perigosa. Uma vez que algumas pessoas deixassem de ver as Medusas como ameaça, mas como parte dos Humanos, logo surgiriam disputas internas, com bandeiras de paz entre ambos os lados sendo erguidas. Isso iria totalmente contra os interesses das Legiões e, de seu ponto de vista, era algo completamente inaceitável.
No entanto, mesmo sabendo disso tudo, Fernando não se importava com nada disso. Ele não era um representante da raça humana, não podia falar por toda a totalidade dos Humanos e, obviamente, não estava disposto a responder por seus erros ou ações cruéis. Tudo que ele queria era viver e ter os meios de proteger aqueles ao seu redor, tudo além disso, não lhe interessava.
“Onde exatamente você quer chegar?” o rapaz pálido perguntou, com uma expressão fria.
Arayel notou a reação dele diante de suas afirmações e provocações, mas não ficou zangada.
“Essa Habilidade foi criada por Octávio, o então recém-ascendido Cavaleiro do Orgulho, da Legião Imperial, pouco antes de ele desaparecer na expedição exploratória do mar do Oeste. Esse Brasão seria transportado até a capital deles para ser entregue a alguns de seus gênios, mas felizmente eu soube dessa coisa antes, quando começaram a raptar Medusas em toda Avalon, então interceptei isso”, a mulher explicou, sua expressão numa mistura de medo e nojo. “Se aquilo chegasse às mãos da maldita Legião Imperial, as Medusas deixariam de ser uma raça temida. No lugar disso, nos tornaríamos como porcos, criados para o abate.”
Ouvindo tudo isso, mesmo Lerona, que odiava profundamente as Medusas desde que perdeu tantos homens para uma delas no passado, sentiu uma pitada de empatia, entendendo que suas vidas não eram fáceis.
Parando para pensar, por que nos ordenaram prender aquela Medusa, e não apenas matá-la? pensou consigo mesma. Ao raciocinar até aí, percebeu algo que a fez sentir um calafrio.
Ela já havia ouvido falar sobre o Cavaleiro do Orgulho, uma antiga estrela em ascensão da Legião Imperial e de sua campanha de repressão dos povos Merafolk na costa. O seu desaparecimento na exploração do mar do Oeste coincidia com a época em que sua missão de captura da Medusa havia sido despachada.
Quando Lerona juntou os pontos, a mulher imediatamente sentiu um certo mal-estar.
Se o que ela diz for verdade, então eu participei disso? indagou-se, com a mente confusa.
Como uma militar que seguia ordens, ela já havia visto e feito algumas coisas cruéis, mas sempre em nome de um ‘bem maior’, que era a defesa da raça Humana e dos Leões Dourados. No entanto, se o que a Eterna Viajante estivesse alegando fosse verdade, ela havia caçado uma Medusa solitária não pela Humanidade, mas pelo interesse obscuro de uma das Grandes Legiões! Pensar nisso fez a ruiva se corroer por dentro.
O que eu estou pensando? Essas coisas nem são Humanas, por mais que se pareçam conosco! Não tem por que eu me arrepender de nada! gritou em sua mente, forçando-se a acreditar nisso.
Ouvindo a explicação da mulher, Fernando pôde compreender a gravidade da situação.
Inicialmente, ele pensou em forçar uma negociação, entregando Deran em troca da Habilidade Lendária, mas ao ouvir tudo isso, finalmente entendeu. A mulher nunca cederia, pois não se tratava de suas vontades ou interesses pessoais, mas da defesa de toda a sua raça! Se ele estivesse em sua situação, sentiu que faria o mesmo.
Suspiro!
“Tudo bem”, o rapaz pálido disse, quando subitamente se levantou, surpreendendo todos na sala. “Se essa é a situação, então acabamos aqui. Não pretendo matar seu parceiro, apesar de vocês nos atacarem primeiro. Se ele concordar em também assinar um contrato de não-agressão, vou libertá-lo.”
Ok, apesar de não conseguirmos uma Habilidade Lendária, conseguimos muitos itens bons. É melhor não ser ganancioso e parar por aqui, Fernando pensou, sentindo que, caso pressionasse mais a mulher, ela poderia enlouquecer e tentar fazer alguma besteira. No lugar disso, apenas sair dali com vida e alguns itens valiosos parecia ser uma saída muito melhor.
Quando o rapaz disse isso, Arayel o olhou com olhos arregalados.
O que ele está dizendo? Ele é louco? Apenas vai nos deixar ir assim? A mulher havia vivido muito tempo e visto muitas coisas. Ganância, egoísmo, desejo, todas essas eram coisas corriqueiras no mundo dos Humanos, ela havia presenciado isso mais vezes do que poderia contar, principalmente em seu tempo como A Eterna Viajante. No entanto, bem diante de seus olhos, ela havia encontrado uma criança Humana que estava abrindo mão de sua enorme vantagem e os deixando ir embora, mesmo após ela revelar ser uma Medusa! Isso simplesmente era algo impensável!
Raul olhou para Fernando com um olhar peculiar, mas assentiu, em concordância. Mesmo que sentisse que haviam perdido muito tempo vindo até ali, sem conseguir o que queriam, sentiu que era melhor assim.
“Brakas!” o jovem Tenente ordenou quando um buraco negro apareceu ao seu lado e, de dentro dele, tentáculos surgiram carregando para fora um homem fortemente enrolado em seus membros.
Quando Deran, que estava preso, viu Fernando, os outros Humanos e Arayel, ele imediatamente tentou lutar e se libertar. Seu pequeno corpo começou a balançar, de forma frenética.
Zzzzz!
Descargas elétricas piscaram em torno dele quando Brakas começou a contê-lo.
“Não faça coisas desnecessárias, pequeno Anão”, uma voz envelhecida soou, de dentro do portal negro.
Lerona e Raul ficaram chocados ao verem os enormes tentáculos amarelos. Alguns eram tão grossos quanto uma perna.
Mesmo Fernando ficou impressionado, sentindo que o Bailholder havia crescido mais uma vez. No entanto, o que mais chamou sua atenção foi o termo usado por ele.
Anão? pensou, surpreso, mas logo entendeu. Medusas sempre seriam mulheres, logo não fazia sentido que Deran fosse uma delas. E, vendo o quão hostis eles eram em relação a ‘Humanos’, era estranho que um deles servisse a Arayel e até fosse seu amante. Mas se ele fosse, na verdade, um Anão, tudo faria mais sentido.
O jovem Tenente olhou para Deran com curiosidade. Com exceção de ser um pouco mais baixo que uma pessoa normal, ele não tinha nada que o delatasse como um Anão.
Olhando com atenção para uma de suas orelhas, percebeu pequenas cicatrizes nelas. Isso o surpreendeu. Quando olhou para Arayel, apesar de coberto por seus longos cabelos, supôs que ela também havia feito, já que a maioria das Medusas tinha traços mais próximos de Elfos, com orelhas pontudas.
Apesar de descobrir isso, Fernando não sentiu que algo mudaria. Seus negócios ali haviam acabado e ele não queria mais ter que lidar com essas duas pessoas nunca mais, independente de serem Medusas ou Anões.
“É bom vê-lo de novo, Deran”, o jovem Tenente o cumprimentou com um leve sorriso.
“Hmmm!” O sujeito se remexeu, cheio de raiva, enquanto encarava o rapaz. Um dos tentáculos nojentos o impediu de responder.
Vendo seu amante nesse estado, a Eterna Viajante não disse nada. Mesmo sendo uma situação deplorável, ao menos não havia sido ferido pela coisa.
Dentro do enorme buraco negro, ela pôde ver apenas um grande olho, que a observava furtivamente, enquanto silenciosamente aguardava por um novo comando.
“Brakas, faça um novo contrato. Ele nunca mais poderá tocar em nós, só o liberte se concordar. Depois disso, cada um seguirá seu caminho”, ordenou, com uma voz fria.
“Sim, Mestre”, a criatura respondeu, quando um de seus tentáculos começou a reunir Mana, formando um pequeno item irregular.
Observando tudo isso, sobre como o Beholder respondia prontamente a cada ordem do rapaz, a Eterna Viajante encheu-se de curiosidade e choque. Mesmo que Fernando já tivesse declarado que era Mestre dele, ainda era surreal ver por si mesma.
Deran olhou para o rapaz, inicialmente com raiva, mas logo encheu-se de confusão após ouvir suas palavras. Então olhou para Arayel, como se perguntasse o que estava acontecendo.
A Medusa de olhos verdes e cabelos castanhos apenas balançou a cabeça, indicando que ela estava a par da situação e que não fizesse nada.
Após ver isso, o sujeito baixinho parou de resistir e apenas aceitou a situação quietamente.
Em pouco tempo, um cristal vermelho foi formado na ponta de um dos tentáculos sem olhos e Brakas o levou até Deran, removendo cuidadosamente o tentáculo de sua boca.
“Não tente nada engraçado”, Fernando advertiu. “Arayel já está sob o contrato, se você nos atacar, isso pode ser considerado um ataque por parte dela.”
A expressão do sujeito baixinho mudou, ficando extasiada. Não pela ameaça e muito menos por sua amada ter feito um contrato por ele, mas por ouvir seu nome real da boca do jovem pálido!
“C-como…” falou, gaguejando.
Dessa vez, observou o garoto novamente, o mesmo que ele havia capturado facilmente no dia anterior, não mais o subestimando como um simples Tenente, mas com algum medo em seu olhar.
“Assine!”, Brakas falou, quando empurrou o cristal em sua boca, não se atrevendo a libertar uma de suas mãos. Tudo que precisava para ‘assinar’ era consentir, enquanto inseria seu Mana no cristal.
Mesmo que tivesse capturado o Mago Anão, o Beholder não estava confiante de conseguir contê-lo novamente caso o libertasse.
Deran, que ainda estava perplexo, pareceu voltar a si quando apertou o cristal com os dentes, virando o rosto, tentando manter o nojento tentáculo longe dele. Então, mesmo que a contragosto, inseriu seu Mana nele.
Logo, o cristal quebrou-se em inúmeros fragmentos, entrando em seu corpo.
Enquanto o contrato era fechado, Arayel, que estava com o olhar fixo no rapaz, parecia pensativa.
Quando a última partícula do cristal entrou no corpo de Deran, os tentáculos de Brakas finalmente o libertaram, deixando-o cair no chão e o sujeito, com suas pernas curtas, rapidamente apressou-se para o lado de Arayel.
Ambos os lados se encararam por um breve instante, quando Fernando adiantou-se, fazendo o portal negro de Brakas desaparecer. Sua consciência fixada no recente Pergaminho de Defesa em sua Pulseira de Armazenamento que havia comprado da dupla, pronto para usar o item contra seus antigos donos. Apesar de achar que seria pouco útil contra Magia de Terra ou Flora num local apertado como aquele, era melhor do que nada.
Raul e Lerona também estavam em guarda, observando-os atentamente. Mesmo com o contrato assinado, nenhum dos três sentia-se seguro.
“Vamos!” o jovem Tenente ordenou, enquanto cautelosamente recuava, sem ousar dar as costas aos dois. Raul e Lerona fizeram o mesmo, dando passos curtos, como se estivessem lentamente escapando do encontro com uma besta.
“Espere!” Nesse momento, uma voz suave o chamou, interrompendo seus passos e o fazendo sentir um leve arrepio nas costas. Era a Eterna Viajante, a mulher tinha o olhar fixo nele. “Antes eu disse que queria fazer um acordo. Você não terminou de me ouvir.”
Acordo? o rapaz pensou, franzindo o cenho. Ela havia comentado sobre algo, mas ele simplesmente ignorou. Fernando sabia que estava na vantagem e que, caso quisesse, poderia chantageá-la para conseguir outros itens, mas evitou fazê-lo, já que não queria mais problemas com uma poderosa Maga como ela.
“Não tenho interesse!” o jovem Tenente negou, com firmeza, quando continuou recuando em direção à porta.
Seja a ‘mãe de todas as Medusas’, Legião Imperial ou o que fosse, ele não queria se envolver com nada disso!
Vendo como o rapaz, bem como os dois Capitães, pareciam ariscos, ela não ficou surpresa. Se não fosse pelo rapto de Deran, ela os teria matado. Então não poderia condená-los por estarem tão cautelosos.
“A Habilidade Lendária… ela é sua”, a mulher falou de forma repentina, com uma voz calma.
Essas palavras imediatamente fizeram Fernando parar seus passos. Mesmo Raul e Lerona olharam na direção dela, num misto de apreensão e choque.
Após saberem o que significava essa Habilidade para sua raça, não entendiam por que ela daria algo assim a eles.
Deran, que estava ao seu lado, não era diferente.
“Q-querida, o que está dizendo?!”
Ignorando todos os olhares surpresos, incluindo o de seu amante. Arayel continuou.
“Eu entrego a Habilidade Lendária, mas em troca, eu quero a criança Medusa.”

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