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    Raul, Lerona e mesmo Fernando arregalaram os olhos, chocados.

    A primeira Medusa e mãe de todas? O que isso deveria significar?! O jovem Tenente indagou-se, franzindo o cenho, sem saber o que falar. Medusas eram naturalmente inférteis e não poderiam ter filhos, logo, não viu sentido nessa afirmação. Mas então chegou a uma conclusão estranha. Isso significa que ela se considera uma espécie de matriarca da raça? 

    Esse era um pensamento arrogante, mas, ao mesmo tempo, curioso. Se a pessoa à sua frente havia sido a primeira Medusa, que conseguiu sobreviver aos Humanos e aos Elfos desde o início, qual seria exatamente a idade dela?

    Enquanto Fernando pensava nisso, a expressão de Raul estava escura.

    Merda! Com que tipo de gente nós nos metemos?! O Capitão moreno não sabia nada sobre essa tal ‘mãe de todas’, mas tinha um mau pressentimento sobre isso.

    “O que você quer dizer com isso?” o jovem pálido perguntou, após algum tempo.

    No entanto, em resposta a isso, a Eterna Viajante, Arayel, apenas ficou em silêncio.

    Vendo isso, Fernando entendeu.

    Parece que ela percebeu, pensou consigo mesmo. O contrato dizia que nenhum dos lados poderia mentir para o outro. Porém, isso simplesmente era algo muito arriscado para ele mesmo. Sendo assim, o jovem Tenente propositalmente deixou uma brecha escondida, permitindo que o lado que fosse indagado ficasse em silêncio caso assim quisesse.

    Nesse momento, a mulher de olhos verdes finalmente abriu a boca.

    “Você disse que queria uma conversa franca, mas se só eu responder, então isso não seria diferente de um interrogatório. Portanto, gostaria de propor algo. Cada um de nós faz uma pergunta de forma intercalada.” Ouvindo a proposição da mulher, Fernando ficou pensativo, mas assentiu. Seu objetivo não era levá-la ao extremo, já que isso seria perigoso. Se ela se sentisse à vontade após fazer as perguntas, seria muito mais fácil colaborar. Recebendo o sinal positivo do rapaz, Arayel continuou, quando seus olhos se estreitaram. “O Beholder que está escondido, ele é capaz de me matar?”

    Quando a Medusa fez essa pergunta, Fernando sentiu um calafrio por todo seu corpo.

    Essa cretina, ela realmente não desiste! Nesse ponto, o rapaz entendeu que a mulher já havia percebido algumas coisas e notado que Brakas não estava realmente o controlando. Ela estava claramente o sondando, para decidir como agiria.

    Após pensar um pouco, mantendo uma expressão calma no rosto, lançou um olhar gelado para Arayel.

    “Se ele é capaz ou não, é importante? O que importa é se você está disposta a pagar o preço”, falou com uma voz gelada.

    Ouvindo isso, a Medusa manteve um olhar calmo, mas sua respiração estava claramente instável, como se estivesse lutando internamente sobre qual decisão tomar.

    Nesse momento, era a vez de Fernando perguntar e ele não hesitou.

    “Por que vocês nos atacaram assim que mencionamos a Habilidade Lendária?”

    Apesar de confusos com toda essa situação estranha, com Beholders e Medusas, Lerona e Raul não puderam evitar olhar para a mulher atentamente, curiosos pela resposta. Afinal, antes de Raul mencionar isso, a negociação estava indo bem.

    Arayel franziu levemente as sobrancelhas, como se não estivesse disposta a falar, mas sabia que a vida de Deran estava nas mãos do Beholder. Independente de ser capaz ou não de matá-la, seu amante morreria ou teria um final ainda mais trágico.

    “Porque os únicos que deveriam saber sobre estarmos em posse dessa Habilidade, são nossos perseguidores”, a mulher de olhos verdes falou, encarando os três. “Inicialmente pensei que vocês estavam relacionados a eles, mas agora que penso bem, não deve ser o caso. Mesmo aqueles malditos não seriam tão ousados de se envolver com um Beholder. Então, só posso supor que eles vazaram essas informações como isca para outros nos encontrarem para eles.”

    Ouvindo as palavras, Raul ficou surpreso. Então, quando pensou sobre o fato de alguém como ele, em seus tempos nos Sarnentos, ter conseguido tal dica, parecia realmente suspeito.

    “Se vocês estão aqui, não deve demorar muito para nos rastrearem até essa cidade. Quando eles chegarem, sejam vocês, nós ou qualquer outro relacionado a esse assunto, será silenciado”, Arayel falou com uma voz cheia de certeza.

    Fernando manteve-se em silêncio, assim como Raul e Lerona, mas internamente ficaram preocupados. Se uma Maga Sênior, comparável a uma General, estava fugindo de algo, então isso era um grande problema!

    Mesmo que nenhum deles comentasse nada a respeito, Arayel notou que suas palavras os deixaram levemente apreensivos, com a Capitã ruiva em especial ficando com as mãos trêmulas. Ver isso deixou a Medusa satisfeita, já que indicava que, se houvesse alguém realmente poderoso por trás deles, não estariam tão sem confiança.

    Esses Humanos idiotas, eles realmente vieram atrás de mim por conta própria? Ou o Beholder os atiçou? O que essa coisa poderia querer comigo?! pensou consigo mesma, confusa. Mesmo que tivesse deduzido algumas coisas, outras não pareciam fazer sentido. De repente, pensou em algo. Era um pensamento louco, mas que parecia se encaixar com a atual situação. Logo decidiu sondá-los ainda mais.

    “Não há motivos para pessoas comuns procurarem por uma Habilidade Lendária. Já que não estão ligadas àquelas pessoas, a opção mais plausível seria estarem atrás de lucros, mas a riqueza que mostraram indica que esse não é o caso. Sendo assim, suponho que um de vocês esteja confiante em fazer uso dela. Uma vez usado o Brasão, o detentor deve aprender ou morrer tentando. O que significa que alguém aqui ou é extremamente talentoso, ou já teve uma experiência prévia com uma Habilidade Lendária. E se eu tivesse que chutar, esse alguém seria você, criança”, falou, olhando diretamente para Fernando com seus olhos verdes límpidos.

    Anteriormente, a Magia Lança de Fogo que o rapaz havia utilizado era simplesmente anormal, além disso, mesmo sendo o mais fraco, os dois Capitães ao seu lado pareciam ouvi-lo. Além do Beholder, o provável cérebro por trás disso, estar o protegendo pessoalmente.

    Ouvindo as palavras da mulher, Fernando começou a suar frio.

    Não posso perder tempo aqui. Quanto mais falamos, mais ela sabe a meu respeito. Preciso acabar logo com isso! O jovem Tenente pensou, assustado com a mente monstruosa da mulher, capaz de deduzir tantas coisas com tão poucas dicas. Quando mais ela falava, mais Fernando se convencia de que ela realmente era uma Medusa antiga.

    Além disso, diferente de antes, quando ela usou uma Poção da Verdade nele e não o via como uma ameaça real, agora, com o Contrato e a vida de seu amado em jogo, ela estava totalmente focada nele.

    “Isso não é uma pergunta”, o rapaz falou, cortando a linha de raciocínio da mulher e sem responder qualquer coisa diretamente. Sua voz, apesar de calma, continha uma leve insatisfação.

    “Me desculpe, parece que me empolguei um pouco”, Arayel disse, sua voz calma, mas levemente provocativa. Seu olhar estava sobre o rapaz, como se estivesse observando um livro de mistérios prestes a ser desvendado. “Minha pergunta é, você planeja usar a Habilidade Lendária?”

    Fernando já esperava isso, mas ao ser indagado diretamente, não pôde deixar de se irritar. A mulher claramente já havia chegado a uma resposta e só estava aplicando alguns truques mentais para tentar desestabilizá-lo.

    “Sim”, respondeu diretamente, sem hesitação. Se ele ficasse em silêncio, apenas confirmaria o fato de qualquer forma e, caso não respondesse, a mulher poderia fazer o mesmo, o que os levaria a um impasse novamente. Logo, seus olhos ficaram sérios. “Minha vez então. Qual Habilidade Lendária você possui?”

    Ouvindo isso, a expressão da Eterna Viajante, que era levemente confiante, diminuiu.

    Fernando sabia que ela estava tentando enrolar e dar voltas, para que pudesse planejar uma forma de matá-los e recuperar Deran. Sabendo disso, decidiu que não participaria desse jogo de cão e gato, mas iria direto ao ponto.

    “Você pode ficar em silêncio se quiser”, Fernando falou com um leve sorriso. “Mas você deve saber que ‘ele’ não assinou o contrato, assim como Deran. Sendo assim, é melhor ser cuidadosa sobre o que responde ou deixa de responder.”

    A Eterna Viajante, Arayel, apertou novamente o bordado de seu vestido, sentindo que, apesar da pouca idade, o jovem Humano era alguém perspicaz e difícil de lidar.

    “Se você quer tanto saber, farei algo melhor do que te contar. Te mostrarei agora mesmo.” Ao falar até aí, a mulher moveu o pulso, quando um Brasão de Armazenamento apareceu em sua palma. Com um leve gesto sutil de sua mão, um painel de Mana luminescente foi projetado a partir de sua Pulseira.

    Assimilação Sanguínea: Habilidade de Constituição, Mutação. Ao ingerir e absorver o sangue de outras espécies, o Usuário torna-se capaz de mimetizar certas características ou Magias naturais da mesma por um curto intervalo de tempo. Quanto mais compatível à raça Humana a espécie do sangue ingerido for, mais facilmente o Usuário da Habilidade é capaz de assimilá-lo, maior será a duração e menores serão as penalidades, como exaustão ou danos físicos. Após dominar a Habilidade, o usuário torna-se sensível ao cheiro de sangue e pode identificar o nível de afinidade com o mesmo.

    Afinidade < 50%: Risco iminente de colapso físico depois da assimilação e mutações permanentes.

    Afinidade 50-69%: Eficácia parcial, gera fadiga severa após o uso.

    Afinidade > 70%: Assimilação perfeita, baixo desgaste físico.

    Efeitos Colaterais: Absorver o sangue de uma criatura muito mais poderosa, agressiva ou com afinidade inferior a 50% pode acarretar mutações irreversíveis. Usar a Habilidade em sangue imbuído em Mana Caído, Corrupção, Maldição, Criaturas, Loucura, Morte ou Mutação levará a mutações descontroladas e possível perda da Humanidade, fazendo o Usuário de Habilidades se tornar um ‘Usuário Corrompido’.

    Custo de 4 pontos de Mana por segundo para manter a Mutação temporária – Habilidade Lendária

    Quando Fernando, Raul e Lerona viram aquilo, ficaram espantados.

    Merda! De todas, por que tinha que ser logo uma Habilidade de Mutação?! Raul pensou, furioso.

    Eles haviam arriscado muito para chegar até ali, mas no fim, era o pior tipo de Habilidade possível de se ter, algo com a qual ele não queria se envolver e muito menos que Fernando se interessasse.

    Sem escolhas, o Capitão enviou uma mensagem ao rapaz, mesmo sabendo que poderia estar sendo lida pela mulher.

    “É melhor desistirmos, garoto. Esse tipo de Habilidade é perigosa demais. Não vale a pena!”

    O jovem Tenente recebeu a mensagem e teve uma mudança em sua expressão.

    Anteriormente, Raul não havia lhe explicado sobre as Habilidades de Mutação e agora, vendo os efeitos colaterais de uma, ele finalmente conseguiu entender o motivo.

    Um Usuário de Habilidades que usa algo assim… Um único erro e você pode se tornar uma monstruosidade, pensou, enquanto se lembrava de coisas como os Carniçais ou outras aberrações que ele havia visto anteriormente. Mas mesmo assim, ainda é uma Habilidade Lendária. Ela deve ter seu valor. O que eu faço?

    Quando Fernando estava prestes a dizer algo, a Eterna Viajante tomou a iniciativa.

    “Isso é suficiente, essa brincadeira já foi longe demais. A seguir, é a última indagação que farei, dependendo da sua resposta, não teremos mais nada a conversar”, falou com a voz calma, mas levemente ameaçadora. “Se me permitir, serão duas perguntas em uma.”

    O jovem Tenente foi pego de surpresa com as palavras da mulher. Isso significava que ela havia perdido a paciência e, se respondesse algo errado, atacaria. Isso fez o seu sangue gelar. Mas mesmo assim, manteve uma expressão calma.

    “Fique à vontade.”

    Recebendo o consentimento do garoto, a mulher continuou.

    “A Medusa que você citou antes, a qual você considera como alguém importante, ela é real?”

    Fernando a olhou de forma estranha, sem saber por que estava perguntando sobre isso, mas o que mais o incomodou é que sentiu dois olhares pesados fixos em suas costas.

    Merda! Primeiro, ele havia sido obrigado a revelar o Brakas e agora ambos, Lerona e Raul, também saberiam sobre Theodora. Esse era o pior cenário possível! Mas, apesar de saber das consequências, sentiu que não tinha outra escolha. Tudo bem, sobreviver a isso é a prioridade, como eu vou continuar vivo após isso, eu penso depois…

    “Sim.”

    Fernando teve um leve calafrio quando sentiu dois olhares ameaçadores em suas costas, mas continuou com uma expressão neutra enquanto encarava a Eterna Viajante.

    Ouvindo isso, os olhos de Arayel piscaram com força. Ela estava certa de que se tratava de uma mentira manipulada pelo Beholder, mas realmente era verdade!

    Mesmo que a criatura pudesse manipular os efeitos de uma Poção da Verdade, não poderia enganá-la quando estava sob o efeito de um contrato como esse.

    Lembrando-se do que o rapaz havia dito, uma série de pensamentos veio à sua mente, quando algumas peças finalmente começaram a se encaixar.

    Se o Beholder não o manipulou antes e tudo que disse for verdade, então poderia ser que…

    Era um pensamento totalmente louco, mas a Medusa sentiu que era a única explicação que poderia chegar.

    “Ok, minha próxima pergunta é: você serve ao Beholder ou… ele serve a você?”

    Fernando estremeceu levemente ao ouvir isso, tentando entender onde ela queria chegar.

    Lerona, que estava ao lado direito do rapaz, não pôde deixar de apertar sua lança com força. Ela não sabia por que havia um Beholder ao lado do rapaz, e apenas devido às dúvidas ela havia conseguido se conter. Mas, se realmente fosse o primeiro caso e Fernando fosse de fato um peão de um Beholder, então ela decidiu que faria o que precisava ser feito, mesmo que isso custasse sua vida! A presença de uma criatura perigosa como essa dentro das muralhas representava uma ameaça não apenas para ela, mas para toda a Humanidade!

    Apesar das dúvidas em sua mente, o jovem Tenente não pensou muito a respeito. Se a mulher já havia deduzido a esse ponto, não tinha sentido em continuar fingindo. Ele se ajustou no pequeno sofá, quando cruzou uma das pernas sobre a outra lateralmente, apoiando sua mão direita sobre o joelho. Então, com um olhar frio, respondeu.

    “Eu sou o Mestre.”

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