Capítulo 134: Encontro (nada) profissional
25 de maio de 2024, sábado.
A lua brilhava majestosamente no céu escuro adornado por infinitas estrelas. O ar estava mais fresco do que algumas horas atrás, mas ainda estava quente. O verão com certeza estava se aproximando.
Victor se deparou diante de uma fachada de madeira com kanjis em led que se destacava na noite. O bar Sakamoto estava aberto e ao passar pela porta, percebeu que era um lugar muito bonito e diferente do que a imagem de fora mostrava.
Era muito mais tradicional do que o exterior, tendo até luminárias de papelão e uma sessão onde as mesas eram baixas e não tinha como sentar numa cadeira para usá-la. A maioria dos detalhes conversavam em um tom de vermelho e de marfim, que vinha da madeira.
Logo, ele avistou Jeanne sentada numa cadeira de uma mesa para dois. Suspirou e seguiu. A mulher se levantou para cumprimentá-lo com um aperto de mão e beijou seu rosto num movimento natural. Victor não conseguiu reagir a tempo para evitar o contato — e agora já era tarde para reclamar. Ele apenas engoliu a raiva e sentou-se na cadeira.
A iluminação era relativamente fraca, intencionalmente, criando um clima diferente. O som de conversas paralelas se misturavam ao do ambiente e se perdia, sendo possível ouvir apenas murmúrios sem sentido que vinham dos outros.
— Como eu já te disse, essa é minha última noite aqui no Japão. — comentou, enquanto ajeitava a barra de seu vestido vermelho. — Eu queria te contar uma novidade.
— Vai voltar para a Espanha? — Victor comentou, fingindo interesse para manter a conversa. — E qual seria a novidade?
— Você sabe que a World Trails está pensando numa expansão aqui no Japão. Que tal fazermos uma parceria?
— Acho que seria interessante para nós dois. Já até tinha pensado nessa possibilidade.
Jeanne soltou o cardápio e segurou a mão de Victor que estava por cima da mesa, fazendo-o recuar no mesmo segundo.
— Nossos pensamentos estão alinhados. Isso talvez seja um sinal? — O sorriso da madrilena era quente e provocador, se destacando ainda mais com seus lábios maquiados de tom vermelho.
No entanto, Victor não se sentiu nem um pouco seduzido. Isso não funcionaria com ele.
— Pare com essas brincadeiras. O encontro não era profissional? E que fique claro, esse foi o único motivo de eu te acompanhar num bar, a essa hora, sozinho. Não entenda errado, Jeanne.
— Você está muito arisco… — comentou, num tom quase de brincadeira. — Não precisa se preocupar, não estou planejando nada.
— Você sempre diz isso… e sempre faz a mesma coisa…
— Ah, você fala daquilo?
Na memória de ambos, cenas de um dia em específico se manifestaram como um filme sendo contado.
…
Victor estava sentado na sala de reuniões, após todos já terem se retirado. Analisava um dos contratos discutidos ali. A sala ampla e arejada, com janelas grandes que estavam abertas, permitindo que o vento externo passasse pelo ambiente, estava silenciosa, quando foi preenchida por passos leves.
Ele olhou na direção e percebeu uma mulher com um vestido de tom esmeraldas, salto alto e um cabelo ruivo preso num tipo de coque, mas ainda permitindo mechas soltas por cima dos ombros, entrando com um andar que mais parecia estar desfilando.
Jeanne sentou-se na cadeira ao lado, quando puxou assunto:
— Você sempre manda bem nas reuniões de investimento, em…
— E você sempre manda bem em se esconder, Victória Salles. Até hoje não sei qual grupo ou empresa você representa… isso é algum tipo de jogo? — Victor perguntou com um tom despretensioso, mas era perceptível uma ironia.
Jeanne riu.
— Isso não faz diferença, faz? — O tom levemente desdenhoso. — Que tal jantarmos depois que sairmos daqui? Você pode me apresentar algum lugar legal.
— Não confunda as coisas. Eu já te disse antes. Nada de encontros fora do horário e fora da sala de reuniões. Você já me fez passar maus bocados.
— Só por causa daquela conversinha? Você levou para o coração? — perguntou, manhosa.
“Isso é o que mais me irrita em você, Jeanne!”
— Já vou indo, então. — Ele se levantou, mas a Madrilense abraçou seu braço, para acompanhá-lo. Ele forçou a sair do gesto.
— Ei, nada de toques. Vamos indo.
…
Alguns dias depois, Victor recebeu uma ligação de Fernanda, atendendo-lhe assim que possível, depois de estacionar com o veículo.
— Oi, gatinha!
— O quê?! Isso não pode ser verdade, né? Me manda por mensagem.
Victor desligou e abriu o aplicativo, vendo as mensagens, áudios e prints que sua companheira havia lhe encaminhado. Neles, Jeanne deixava frases ambíguas e as respostas de Victor eram suspeitas demais. Ele ficou extremamente irado.
[ Amor, isso é invenção da Jeanne, como eu já havia te alertado anteriormente. Eu tenho todas as conversas aqui e você pode ver quando chegarmos em casa. Não foi nada desse jeito. Está tudo manipulado. ]
[ Eu sei, querido. Eu confio em você e eu sei que essa Jeanne é uma sirigaita e oportunista. Só queria te deixar ciente do ocorrido. Te espero em casa. Bjo. ]
O brasileiro respirou fundo, tentando manter a cabeça fria e não explodir com a mulher ruiva, que querendo ou não, era de grande ajuda nos investimentos da empresa.
…
— Preciso de mais motivos para desconfiar ou você quer que eu cite um por um? — Victor indagou, irônico.
— Tão cruel… — respondeu, sem ao menos olhar para ele, quando ergueu a mão, sinalizando para o garçom, que se aproximou da mesa com dois copos de bebida.
Victor agradeceu, recebendo o recipiente incolor, mas preenchido por uma bebida de tom azul turquesa com uma borda superior com uma aparente espuma, sabendo que o funcionário não tinha nada a ver com o problema.
— Não se preocupe, é por minha conta. Esse drink é maravilhoso! Você precisa experimentar. O famoso “Céu & Nuvem”.
— Não conheço. — respondeu, ignorando o restante e experimentando. — É realmente delicioso.
Victor teve a sensação de lembrar algo como algodão doce, embora tivesse um teor alcoólico relativamente alto. Ponderou se aquela bebida levava gim, entretanto, ignorou esse fato, voltando ao assunto.
— E nossa relação permanece a mesma de antes, ok? Não quero que você se aproxime de mim ou de Aki para assuntos além do trabalho. — advertiu.
— Ah, mas você é tão sem graça… — murmurou. — Vocês vão se casar quando? Pensam em ter filhos? Essa japonesa parece uma boa garota…
Ele a interrompeu.
— Jeanne… eu preciso desenhar para você entender? — O tom ríspido fez Jeanne franzir o cenho, em desgosto.
— Certo. É que você falava o mesmo quando falava da… qual era o nome mesmo? Fernanda? Acho que era isso. Você é realmente um cara fiel, eu admiro isso, mas não aceito ter sido rejeitada. Você não vai me dar nenhum beijinho? Um beijo e eu nunca mais toco no assunto..
Enquanto ela falava, Victor tentava processar tudo que estava sendo dito. Ficou em silêncio por alguns segundos, permitindo que Jeanne continuasse, quando finalmente conseguiu reagir.
BAM!
Victor deu um tapa na mesa, levantando-se, os olhos se arregalando por uma fração de segundo.
— Jeanne, eu realmente não queria romper relações com você, porém… está forçando a barra. Não fale do meu passado. Não fale sobre a Aki ou meus relacionamentos. Somos apenas parceiros de negócios, entendeu?
O brasileiro virou-se de costas e começou a caminhar para fora, quando percebeu vários olhares curiosos e assustados em sua direção, sem saber o que estava acontecendo. Ele apertou os punhos e apertou os passos, saindo do estabelecimento o mais rápido possível.
Quando parou há alguns metros, passou a mão pelos cabelos, sentindo o calor de sua pele. O álcool e o tempo estavam lhe deixando mais suado que o normal.
“Que mulher irritante e desagradável!”
— Ei, Victor! — Ela estava logo atrás dele, a passos largos.
Ele suspirou.
Já próxima, ela simulou um tropeço, se jogando nos braços de Victor. Ele a segurou. Mesmo que estivesse fervendo de ódio, agiu por instinto, ajudando-lhe a não cair no chão.
Assim que a espanhola recuperou o equilíbrio, a soltou.
— É meu último aviso, Jeanne. Pare com as suas gracinhas! Eu estou relevando tudo isso pelo bem da nossa relação comercial. Porém, não vou aturar mais do que isso. Você já cruzou a linha do bom senso há muito tempo! — Talvez afetado pelo álcool, o tom de voz dele estava alto.
Nenhuma pessoa estaria completamente sóbria depois da quantidade de bebidas ingeridas naquela noite.
— Ei, Victor. Só um beijo. — Jeanne passou os braços pelo pescoço de Victor e avançou com um beijo. Ele conseguiu virar o rosto e a ruiva colou os lábios em sua bochecha.
O furor subiu pelo corpo dele, cerrando o punho por um instante e agarrando-a pelos braços e a afastando. Victor apenas virou-se e começou a ir embora e Jeanne apenas o observou se afastar.
Quando ele dobrou uma esquina, Mia se aproximou da outra garota.
— Conseguiu?
— Sim. Foi um ângulo perfeito. — Mia respondeu, com um sorriso malicioso.
…
A entrada da casa dos Yamada estava visível e como sempre, exceto por um detalhe: Aki estava do lado de fora. Victor apressou os passos e quando se aproximou, seu coração acelerou em uma espécie de medo. A japonesa estava chorando e com o celular em mãos.
— Victor… — Sua voz trêmula denunciou o choro, reforçado pelos olhos marejados.

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