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Capítulo 25. Dedos Dourados 3
Benk quase se arrependeu de abordar o assunto. Lorem começou a desabafar sobre o jovem filho, sem conseguir conter a emoção. Falou sobre o quanto sentia culpa e saudades do menino, que agora, tantos anos depois, já era um homem feito. E trouxe ao conhecimento dos visitantes a tragédia que a família carregava.
Hord era um mago, alguém que nasce com a peculiaridade de poder recitar palavras e invocar efeitos inexplicáveis no mundo. Ela sabia bem do estigma e do risco de se relacionar com alguém assim, mas ambos afeiçoaram-se completamente um pelo outro, e todas as barreiras familiares, os conflitos, foram enfrentados de cabeça erguida pelo casal.
Com o relacionamento aceito e prosperando, Hord recebeu uma proposta de emprego. Na época moravam no estado de Ecala Moon, sede da ordem dos magos, ou, ao menos, do secto mais antigo e tradicional.
Mudaram-se para o estado de Palard há tanto tempo que a mulher não conseguia mais se imaginar morando em qualquer outro lugar! Aqui era onde construíra sua vida, relatou com nostalgia na voz.
Ao engravidar, ela perguntou ao marido se a criança nasceria como um mago. Ele, assim como todos os estudiosos do assunto, afirmou que não. Crianças se tornam magos e magas ao acaso; nascem com essa capacidade. Muitos tentaram desvendar o que elas tinham em comum; os Drak, como eram chamados, uma ordem de acadêmicos que atuaram há mais de dois milênios, pareciam ter entendido melhor o assunto, mas foram banidos devido às perigosas pesquisas que colocaram em prática e levaram consigo os segredos de suas descobertas.
Para além deles, ninguém até hoje havia descoberto o que todas as crianças que ascendiam a conjuradores tinham em comum. Muitos filhos de magos são apenas crianças normais, e mesmo os pais de Hord não eram magos.
— Mas nosso filho é.
— Com suas experiências e vivências, Hord tentou de tudo para acolher nosso menino. Descobrimos quando ele era bem pequeno. Monitoramos seu comportamento, e logo Hord percebeu. Ele encarava demais o teto da casa.
Não deu outra. Quando tinha seis anos, o menino balbuciou palavras conjuratórias.
— Hord me explicou que a magia é algo que tece os sentidos dos magos, ela está sempre ali, e quando conseguem acessar as palavras e concentram a mente em lê-las, o ato de conjuração se inicia. O problema é que uma vez que se começa, você não pode parar.
Fygar conjurou labaredas no ar; eram pequenas. Cada criança consegue resultados diferentes. O próprio Hord pendia para a interação com a terra. Suas conjurações moviam o solo. Mas Fygar se encantou com o fogo.
Lorem fitou os presentes com os olhos marejados.
— Quando Fygar descobriu a magia, eu estava grávida de nosso segundo filho, melhor dizendo, filha. Colena, nossa preciosidade, nossa menina. Queríamos manter a família unida.
Hord requisitou a responsabilidade de educar Fygar, e até mesmo recebeu permissão da ordem para isso. Normalmente crianças que despertam são compulsoriamente levadas para os campos de aprendizado; é muito perigoso deixá-las sem a instrução correta.
Com o tempo, acreditamos que tudo estava dando certo, que tudo estava bem, mas a curiosidade pelas palavras é forte. Não culpo meu filho; culpo a mim mesma, que não consegui fazer nada por ele.
Quando tinha doze anos, começou uma conjuração inocente, mesmo já sabendo dos riscos. Nesse dia, Colena caiu no quintal e gritou. Apenas isso, a menina estava brincando aqui do lado de casa, um dia comum. Fygar cortou a conjuração e no instante seguinte, diante de seus próprios olhos, nossa querida, sua pequena irmã, estava envolta em chamas.
A socorri imediatamente, mas era tarde demais. A intensidade foi grande e repentina. Não havia nada que pudéssemos fazer; ela queimou de dentro para fora.
Eu só conseguia chorar, dia e noite, e quando tentei me aproximar de meu menino, ele não me deixou; não conseguia me encarar. O choque foi imenso; ele estava destruído, imerso em sofrimento.
Mal se passou uma estação e perdi meu filho também. Fygar exigiu que o levassem para a ordem. Hord protestou, mas naquela altura, ele nada mais podia fazer.
Fygar nunca mais voltou para casa.
Como não deixar as palavras de uma mãe relatarem a história de seu amado filho? refletiu Benk, ao conseguir controlar a respiração, após ouvir o trágico passado revelado por Lorem.
Moav e Kabar enxugaram os olhos, oferecendo os mais sinceros sentimentos de consolo à senhora Hord. E agora o dilema. Que tipo de monstro engana uma mulher idosa em lágrimas? Benk hesitou; não tinha palavras para lidar com a situação. Mas o preço que pagaria não seria cobrado apenas dele. Pelk também precisava de ajuda.
Com real consideração, ele lamentou o ocorrido com Lorem. A magia precisa ser controlada. Ela o ouviu com gratidão, e concordou que o seu pequeno filho, Fygar, não tinha feito nada de errado.
Aos poucos, a atmosfera pesada abrandou. Moav apertou a mão de Lorem e se ofereceu a ajudá-la em qualquer dificuldade. Kabar comunicou que muitos na câmara forte certamente estavam disponíveis para tudo o que ela precisasse. Mas Lorem apenas agradeceu.
— Eu estou bem; não estou precisando de nada. A pensão que meu marido me deixou é mais do que o suficiente, e toda a comunidade é muito calorosa; nos reunimos frequentemente. Não deixamos ninguém desamparado.
O escriba, ainda encabulado, mudou levemente o direcionamento da conversa. Magos certamente devem ter seus segredos, mas assim como qualquer outra profissão, eles compartilham algo em comum.
— Magia me assusta! Hord fazia pesquisas em casa?
Lançou a semente Benk.
Lorem riu, aliviada pela imagem que a pergunta lhe instigou. Sim, ela sabia que a magia tinha riscos, mas viveu por mais de quarenta anos com o homem, e durante esse tempo, a cautela extrema do marido era uma de suas características que mais a irritaram. Ele era um frouxo.
Por mais que lidasse com objetos de mana, um dos motivos centrais para Hord decidir pela profissão de tabelião era o fato do baixíssimo risco envolvido.
Lorem apenas relatou.
— Fazia, mas só aprimoramentos. Sinto falta das recargas de mana. Agora tenho que pagar para energizar o aquecedor na estação fria — confessou a senhora, oferecendo um pouco mais de chá ao visitante que, movido pela revelação, perguntou.
— Os objetos mágicos ficaram de lembrança apenas? — comentou, fingindo desinteresse.
Ela refletiu sobre o vazio deixado pela ausência do amor de sua vida.
— Sim, apenas lembranças, herança de Fygar, talvez.
E Benk puxou um pouco mais a linha para ver o que conseguia.
— Não tem nenhum que seja útil para a senhora?
Por nostalgia, entrando no meio do assunto, Moav completou.
— Lembro que ele tinha um medidor de qualidade do solo. Deve ajudar a cuidar das flores.
— Eu gosto do cristal de luz, é muito útil — disse Kabar, distraído. E Lorem se animou.
— Uso muito esses dois, meu preferido é o medidor.
Benk emendou.
— Cristais pequenos recarregam sozinhos, o mais complicado deve ser o aquecedor mesmo.
— E o balcão para cozinhar — relatou a anfitriã.
Não demorou muito para que a senhora Hord trouxesse os itens mágicos para que os analisassem. Cercados de “brinquedos”, novos ou velhos, os adultos rendiam-se às ferramentas com os olhos empolgados frente ao fascinante mundo dos cristais.
Benk sondava o comportamento da viúva cuidadosamente, em qual cômodo adentrava e qual objeto trazia consigo.
Enquanto manuseavam os pequenos dispositivos, Benk refletia sobre qual seria o melhor modo para investigar a residência da senhora.
Quanto à mineralogia e suas propriedades agregadoras de mana, ele ainda não havia tido a oportunidade de adentrar essa área. O pouco que conhecia se resumia a entender que cada família de cristais tinha propriedades, intensidades e afinidades diversas, manifestando resultados diferentes conforme eram agrupados, conectados e manuseados.
E absolutamente, a gema mais importante para um mago deveria ser aquela que ele usava em conjurações. Benk, com um estalo mental, sem conseguir controlar a intuição, moldou-a em curiosidade.
— Qual pedra Hord usava em seu cajado? — perguntou, controlando o brilho que escapava de seus olhos.
Lorem sentiu nas vísceras o tabu que agora podia investigar: o cajado, objeto que evitou tocar durante toda sua vida.
Em silêncio, a senhora se levantou e, sem pensar duas vezes, sem qualquer arrependimento ou dúvida, apenas disse: “Já volto.”
Dessa vez, Lorem subiu as escadas ao lado da cozinha, desaparecendo no cômodo superior. Benk não se conteve, levantou e seguiu a viúva, encenando preocupação.
Moav, que estava entretida com a pedra que aumentava o tamanho de tudo o que se observava através dela, apenas balbuciou: “O que foi?”
Kabar balançava entorpecido a haste que amparava o pequeno cristal de luz, observando o cintilante brilho da pedra e o calor que emanava.
Benk subiu as escadas, esticou o pescoço para visualizar a estrutura do andar superior; calculou por um instante e compreendeu a rota e em qual cômodo a senhora Hord tinha acabado de entrar. Satisfeito, casualmente retornou ao seu lugar, balançando a cabeça com um meio sorriso de constrangimento.
Logo em seguida, Lorem retornou trazendo em mãos um objeto revestido por um tecido lustroso de belíssima tonalidade dourada: seda muga que abrigava um cajado de sucupira de comprimento médio. A madeira ondulante de cor intensa e lustrosa abraçava um jaspe marrom do tamanho de uma amêndoa, que se encontrava incrustado na estrutura.
A bela peça roubou a atenção de todos. A magnética humildade do objeto ofuscou as palavras que poderiam descrevê-lo, mas conseguiram sentir a harmonia que ele carregava consigo.Lorem brandiu a ferramenta ao ar, fingindo conjurar uma magia. Saudades, Hord. Era o que expressava por trás da empolgação do próprio corpo trêmulo.

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