Capítulo 60: Lises.
No princípio, nada era tudo, e tudo veio do nada. A semente de tudo germinou no cosmo, e tudo que conhecemos floriu. Um florescer lento, lento, vagaroso.
O tempo escorreu. O universo era um jardim desabrochando em si mesmo.
Como tudo existia antes do nada, e passou a existir depois, também, havia aquele (ou aqueles?) que viram isso acontecendo.
Tudo acontece da perspectiva de alguém. Este texto foi escrito na perspectiva de quem o escreveu — “eu”, no caso —, mas também é visto por quem o lê. Você.
Nós dois vimos os dois lados da feitura deste texto. Eu vi o início, você viu o fim. Nós dois confirmamos que ele existe. Por que seria diferente para o universo?
Alguém viu o universo acontecer, e alguém também verá o seu fim. Todo começo é o fim de outro começo, e todo fim é o começo de outro fim.
Nesse sentido, haveria diferença? Você existe não apenas porque sente, mas porque alguém te viu nascer e, no futuro, alguém te verá morrer.
O que sente o universo? Da perspectiva dele, o que seria começar? E findar?
Quem viu nascer aquele viu o universo nascer? Quem vera morrer aquele que viu o universo morrer?
Tudo existe porque pode ser visto por três pessoas. Eu, você e ele. Eu sei que existo, você me viu nascer na sua consciência e outro me verá morrer. Você, para mim, passou a existir quando te vi, e o mesmo aconteceu comigo para você.
Como poderá morrer o universo, se não haverá aquele que verá morrer aquele que o viu morrer?
Acontece que, como no princípio, nada era tudo. No fim, enfim, tudo também era nada. Tudo era nada, nada virou tudo, tudo virou nada…
Alguém o viu nascer, alguém o viu morrer e, por consequência, o verá nascer…
Essa pessoa é a mesma?
Como pode?
Não eram três pessoas?
Eu, você e ele?
Eu sou eu, você é você e ele é outro. Na verdade, vocês dois são “outros”, para mim. Para você, você é “eu”, eu sou “você” e ele continua sendo “ele”.
Para ele, ele é “eu” e nós somos outros…
Somos todos “ele”. Somos todos “você”. Somos todos “eu”. Somos tudo e não somos nada. Por sermos tudo, também podemos ser nada. Essa é a natureza da nossa existência. Nós somos todos partes do universo, e o universo nos reflete. O universo somos nós, e nós somos o universo.
No fim, não existe um início. Não existe um fim. Tudo sempre foi o que é e o que será porque, afinal de contas, nunca fomos nada além do que somos. Nem passado, nem futuro, apenas o presente.
Eis o agora constante.
— — —
Quando a moça terminou de ler aquela página, se recostou na cadeira e suspirou.
— Negando a Minha Ontologia da Testemunha — murmurou ela, lendo o título do texto. — Nossa.
Ela olhou para a escultura do cajado, no centro da biblioteca. No meio do corredor que divide as estantes, aquele mármore talhado sobre uma rocha negra, parecia uma coluna. Uma coluna que sustentava o etéreo.
Ela suspirou outra vez.
— Por que ele escreveria algo assim?
Aquele texto era o infame Último Escrito de Lises, e Lises era um santo. Um santo da Sacra Igreja de Nairatus, a deusa da luz. Lises era o mais acadêmico entre os santos que passaram pela Igreja, e também era o mais recente.
Ele discutiu as filosofias que pululavam em seu tempo, capturando o espírito daqueles filósofos transgressores e dialogando com eles. Usando as próprias ferramentas deles, Lises provou a existência de Nairatus e sua natureza tripla.
Porém…
— Negando Minha Ontologia…
Por que ele faria algo assim?
A Sacra Igreja de Naratus baniu o texto, jogando-o no Grande Arquivo Proibido, uma biblioteca que reunia todos os escritos proibidos pelos Altos Sacerdotes da Luz. Porém, todos noviços e noviças, em seus estágios preparatórios, eram obrigados a lê-los, graças ao currículo.
A intenção disso era tanto para testar a fé deles, quanto para temperá-los para enfrentar fiéis cheios de dúvidas, ateístas belicosos e outros religiosos que praticam maledicências. A garota achava isso bem inteligente, por parte da Igreja.
Ela se interessou muito por Lises. Ele tinha uma escrita relativamente simples, mas cuja compreensão era desafiadora. Era como boiar em um rio calmo e, apenas no final, descobrir que acabava numa cachoeira.
— …Eu não entendo.
Quer dizer, ela entendia tudo que ele quis dizer. Leu tudo que tinha para ler sobre ele, e feito por ele. O significado daquelas palavras não lhe era estranho. No entanto…
— Por que ele negaria algo que passou anos escrevendo?
O que teria mudado no coração de Lises. Ela, por ter dedicado tanto tempo em sua leitura, não podia fazer nada além de se sentir traída. Sim, era isso mesmo. Por mais estranho que parecesse, ela se sentia traída pelo santo.
Ela achava que o estava entendendo e que, ao ler seu último texto, o conheceria por inteiro. Porém, o texto se revelou como uma adaga sorrateira, a apunhalando pelas costas. Não havia qualquer indício, nos trabalhos anteriores, que o levariam a esse ponto.
Ela se lembrou que, de acordo com as biografias do santo, houve um espaço de seis meses entre o seu último artigo e esse texto. Mas era absurdo. Como ele poderia mudar seu pensamento de forma tão…
Brutal?
Não, não parecia…
— Eu não sei porque… — murmurou ela, esfregando as têmporas. — Mesmo que negue tudo que ele fez antes…
Ela sentia.
Ela sabia que era algo dele. Sim, todo o texto tinha o traços do pensamento daquele homem. Ela passou dois anos o estudando, devorando suas palavras e meditando sobre elas. Ela tinha segurança em dizer que aquele texto era legítimo.
O que ele teria estudado? O que ele teria vivido? O que ele teria experienciado para, em seis meses, negar toda sua Ontologia da Testemunha? A natureza tripla de Nairatus? Na verdade… na verdade…
Ela, percebendo que estava de pé, sentou-se outra vez.
— Será…
Será que ele realmente estava negando?
— “Somos todos ‘eu’.”
Sim, foi o que ele disse.
— Então… espera…
Tudo veio do nada, e nada virou tudo.
— Os três eram um, e um eram três.
Uma unidade tripla, ou tripla unidade.
— Isso… isso definitivamente é…
Ela balançou a cabeça.
— Será que ele realmente estava negando?
Ela não teria como saber. Ele já estava no Além, depois de tudo.
— Certo… acho que vou dormir.
E guardou o texto no envelope da biblioteca.
— Preciso entregar um resumo amanhã.

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