Índice de Capítulo

       Os dois aventureiros desceram de seus cavalos como predadores famintos.

    — Meu nome é Ivan, ranking B, especialista em combate corpo a corpo. — disse o mais velho, girando as adagas com fluidez, os olhos cinzentos fixos em Edward.

    O outro, mais novo, deteve-se a certa distância, montando o arco com rapidez e precisão.

    — Sou Eren, ranking C. Eu cuido da retaguarda, irmão. — avisou, encaixando uma flecha na corda.

      Edward  deu um passo para trás. Estava exausto. Seu braço esquerdo latejava — a pancada da queda da carroça ainda o afetava. E pior, a avó e a mãe estavam atrás dele, indefesas. Não podia permitir que fossem capturadas. Não podia perder mais ninguém.

    Ivan avançou primeiro. Rápido, feroz.

      Edward  ergueu a espada para aparar o golpe vindo pela esquerda, mas mal se recuperava e a segunda adaga já vinha pela direita, num movimento giratório.

    Clang!

      A lâmina flamejante de Edward  bloqueou por pouco, faiscando ao encontrar a adaga banhada por magia de água. O calor e a umidade se chocavam a cada impacto, fazendo vapor se erguer entre os dois como uma névoa tênue.

    Mas o verdadeiro problema estava atrás.

    Zuuum!

    Uma flecha cortou o ar. Edward  tentou desviar, mas era tarde.

    — Argh! — gritou, ao sentir a ponta de gelo perfurar seu ombro esquerdo.

      Ele caiu de joelhos, a flecha ainda vibrando presa em sua carne. Gotas quentes de sangue escorriam por seu peito. Mas não podia parar. Com a outra mão, quebrou a haste da flecha com os dentes cerrados.

    Crack.

    A dor quase o fez desmaiar.

      Ivan avançou de novo, chutando areia nos olhos de Edward  e desferindo uma sequência de ataques curtos, velozes. Edward  bloqueou como pôde, mas cada golpe que aparava parecia levar um pedaço de sua alma.

    Clang! Clang! Clang!

    O arqueiro já preparava a próxima flecha.

    Não vai dar… Assim vou morrer.

      Mas então Edward  viu. Eren sempre disparava de trás da mesma árvore, posicionando-se ali após cada tiro. Ele mantinha distância, mas não se movia demais. Confiante demais. Previsível demais.

    Edward  saltou para trás, recuando de Ivan e caindo de joelhos como se estivesse sem forças. Fingiu o cansaço ser maior do que era.

    — Está acabando, garoto — zombou Ivan, girando as adagas.

    Edward  concentrou sua magia. Uma pequena esfera de fogo surgiu em sua mão, e ele a lançou para o lado, como quem erra por fraqueza.

    A chama explodiu atrás de uma pedra.

    — Errou — zombou Eren.

    Mas era o que Edward  queria. Eren saiu de trás da árvore para procurar melhor ângulo.

    — Agora… — murmurou Edward.

    Ele concentrou a magia em sua mão direita e olhou fixamente para o arqueiro.

    — Ignis Lancea!

    Uma lança de fogo puro foi atirada da sua mão e percorreu o campo em linha reta. Eren arregalou os olhos, tentando saltar para o lado. Mas foi tarde.

    FWWOOOSH!

    O projétil perfurou-lhe o peito. Ele caiu de costas com um grito abafado e, em seguida, não se moveu mais. Seu arco caiu da mão, rachado pelo calor da explosão.

    Ivan parou no mesmo instante. Seus olhos, antes frios, agora fervilhavam de ódio.

    — Você… MATOU MEU IRMÃO! — berrou, a voz tomada por uma fúria descontrolada. — EU VOU ARRANCAR A SUA CABEÇA!

      Ele avançou com fúria redobrada, os movimentos mais selvagens, imprevisíveis. Edward  tentou aparar, mas seus reflexos estavam lentos. O ferimento no ombro, o sangue perdido… tudo o estava vencendo.

    Ivan não precisava de técnica agora. A raiva guiava suas adagas.

      Edward  desviou da primeira, mas a segunda cortou-lhe o peito. Ele cambaleou, tentou contra-atacar com a espada em chamas, mas Ivan mergulhou sob o golpe e cravou a adaga na coxa do inimigo.

    Edward  gritou, caiu de joelhos.

    Ivan o chutou no rosto, e Edward  rolou pela terra, cuspindo sangue.

    — Ryota quer você vivo… maldito. — murmurou Ivan. — Mas ele nunca disse que eu não podia te desfigurar.

    Ele ergueu a adaga, pronto para arrancar-lhe o olho. Mas Edward  reagiu com o último fio de força. Sua mão se ergueu, e uma rajada de fogo envolveu a lâmina.

    Edward  girou a espada com fúria.

    — IGNIS CLAWS!

    Uma explosão curta. Ivan recuou por instinto, mas a lâmina de fogo passou rente ao seu rosto.

    ZZZZZT!

    O grito de Ivan ecoou pela planície. Uma de suas mãos foi ao rosto, cobrindo o olho direito. Sangue escorria entre os dedos.

    — SEU DESGRAÇADO! EU VOU MATAR VOCÊ!

    Ele chutou Edward  no estômago, com força suficiente para arremessá-lo contra uma árvore. Edward  caiu desacordado, o corpo todo ferido e coberto de sangue.

    Instantes depois, os soldados da capital chegaram.

    Eiko e Akari foram encontradas tentando fugir pela estrada. Estavam cercadas.

    Edward, desmaiado, foi arrastado, com os braços presos por correntes mágicas.

    Ivan, com o rosto ensanguentado e o olho direito cego, observava em silêncio. Os punhos cerrados, o peito arfando.

    A noite caiu sobre Pyronia.

    E com ela, o futuro de Edward  tornava-se cada vez mais sombrio.

       Já era noite quando Sayuri avistou os portões de Pyronia. A capital surgia como uma silhueta imponente contra o céu carregado de nuvens, as muralhas de pedra cinza reluzindo sob a luz pálida da lua. Seu cavalo trotava firme, e a jovem Ignivor, coberta pelo manto vermelho da casa de sua família, manteve os olhos fixos nas torres e na longa muralha que cercava a cidade. Chegara antes de seus irmãos, como suspeitava.

    Mas o que viu ao se aproximar dos portões a fez puxar as rédeas bruscamente.

      Corpos. Dezenas deles, alinhados diante da entrada principal, cobertos por panos escuros manchados de sangue. O cheiro de ferro e morte encheu o ar. O chão estava encharcado de vermelho. Um silêncio fúnebre pairava sobre o cenário, quebrado apenas pelo rangido distante de uma carroça ou o som abafado de um corvo em cima da muralha.

    Sayuri desceu do cavalo com o cenho franzido. Aproximou-se de um dos guardas que vigiavam o portão e disse, com firmeza:

    — Onde está o capitão da guarda dos portões?

    O soldado, um rapaz jovem de barba rala, a fitou por um instante, reconhecendo-a. Seus olhos se arregalaram levemente antes de responder:

    — Ele está logo ali, senhorita… perto da carroça dos mantimentos.

    Sayuri caminhou com passos decididos até o local indicado. O capitão, um homem de meia-idade, barba espessa e expressão rígida, virou-se assim que ela se aproximou.

    — O que está acontecendo aqui? — indagou Sayuri sem rodeios. — Por que há tantos corpos diante da capital?

    O homem hesitou por um breve segundo, mas seu olhar pousou sobre o broche em forma de fênix preso ao peito dela, símbolo inconfundível dos Ignivor.

    — Um ataque, senhorita… monstros tentaram invadir a cidade.

    — Monstros? — ela cruzou os braços. — Isso é impossível. As muralhas de Pyronia são construidas com pedra sagrada de Tharion, uma rocha encantada que repele bestas e criaturas mágicas. Nenhum monstro iria se aproximar das muralhas.

    — Foram… foram muitos, milady. Uma horda. — Ele limpou o suor da testa, desconfortável. — Os corpos dos monstros foram os primeiros a serem retirados. A cidade precisava ser limpa rapidamente…

    Sayuri não estava convencida. Seus olhos âmbar examinaram cada detalhe ao redor. Nenhum rastro de garras. Nenhuma carcaça deformada de fera. Somente corpos humanos.

    — Isso não faz sentido — murmurou.

    — Perdoe-me, milady — disse o capitão, forçando um tom respeitoso —, mas há uma nova ordem do rei. Nenhum cavaleiro tem permissão para andar montado dentro da cidade à noite.

    — Isso é ridículo. Preciso chegar ao castelo com urgência.

    — A ordem é clara, senhorita Ignivor. Todos devem seguir a pé.

      Sayuri resmungou algo entre os dentes, mas entregou as rédeas do cavalo a um dos guardas. Partiu a pé pela rua principal, sob as luzes dos lampiões que oscilavam com o vento. Um trajeto que a cavalo levaria minutos, a pé demoraria meia hora.

      Assim que Sayuri desapareceu de vista, o capitão deu sinal a uma cavaleira. A mulher montou rapidamente e partiu em galope pela estrada lateral, rumo ao Palácio do Sol, para avisar o duque Tanaka da chegada da filha dos  Ignivor.

    Quando Sayuri enfim alcançou os portões do castelo, estava cansada e inquieta. Havia muitos guardas posicionados diante da entrada, mais do que o normal.

    — Ninguém entra armado — declarou um dos sentinelas ao vê-la se aproximar.

    — Eu sou Sayuri Ignivor! Esta espada é minha desde antes de vocês nascerem! — reclamou.

      Mas não havia tempo para discussões. Ela bufou, entregando a espada e a adaga. Desarmada, atravessou o saguão principal com passos apressados. O castelo parecia inquieto, com servos correndo de um lado para o outro e guardas em constante alerta.

      Deve ser por causa dos monstros, pensou, embora ainda não acreditasse na mentira contada pelos homens no portão. Nada mais importava naquele momento — ela trazia consigo a folha de Yvalen, uma das chaves para a cura do rei.

    Subiu as escadas do solar até os aposentos reais. Não havia guardas diante da porta, o que a alarmou. Empurrou a maçaneta.

    A cama estava vazia.

    Diante da janela, contemplando a cidade silenciosa sob o luar, estava o duque Tanaka.

    — Onde está o rei? — perguntou Sayuri, se aproximando.

    O duque virou-se lentamente, seu rosto envelhecido pela malícia e pelas sombras.

    — Que rei? — disse com um leve sorriso. — Seus irmãos o envenenaram. Ele está morto, Sayuri. E amanha de manha Ryota sera coroado o novo rei.

    — Traidor — ela cuspiu. — Foi você. Você o matou.

    O som de passos apressados ecoou no corredor. Dezenas de cavaleiros invadiram o quarto, cercando-a. Ela estava desarmada, mas não impotente.

      Sayuri lançou uma rajada de chamas contra os soldados, queimando três deles antes de saltar em direção a Tanaka com um grito de fúria. Mas antes que pudesse alcançar o duque, uma lâmina cortou o ar.

    Um golpe cruel pelas costas arrancou-lhe o braço direito.

      Ela caiu no chão, o grito abafado pela dor. O sangue jorrava como um rio carmesim. Tentou se erguer, cambaleante, mas os magos da corte já estavam a postos. As mãos deles tocaram o chão, e colunas de terra se ergueram ao redor dela, prendendo-a.

    Imóvel, com o rosto sujo de sangue e os olhos ardendo de raiva, ela fitou o duque.

    — Você vai pagar por isso…

      Tanaka permaneceu impassível. À frente dela, o espadachim que a ferira deu um passo à frente. Era um homem alto, de armadura escura, o rosto coberto por um elmo sem brasão. Ninguém conhecia seu nome verdadeiro. Apenas o chamavam de O Cão do Duque.

    Ele a observou em silêncio por um instante e, sem dizer palavra, socou seu rosto com força. Sayuri desmaiou.

    O duque Tanaka se aproximou de seu guerreiro leal.

    — Meus espiões confirmaram — disse. — Os gêmeos estão voltando de Alderan. Chegarão pela manhã.

    — Quer que eu os mate? — perguntou o Cão.

    — Ainda não. Leve trinta homens. Quero eles vivos. Traga-os, Ignivor por Ignivor, vamos derrubar essa linhagem.

    O espadachim balançou a cabeça concordando e deixou a sala em silêncio.

    — Levem Sayuri para a cela junto aos outros — ordenou Tanaka aos seus homens. — E mandem chamar o mestre Kureta. Que trate dos ferimentos dela. Quero todos vivos… por enquanto.

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