Índice de Capítulo

    A primeira coisa que Renato sentiu foi a leveza. Com a total ausência de gravidade, seu peso tinha desaparecido completamente. Os cabelos flutuavam na lateral da cabeça, como se estivessem deslizando em água.

    Depois veio o frio. Daquele tipo que gela até os ossos.

    A ferida da adaga embaixo da axila ardia como queimadura e latejava. Nada que Renato já não estivesse acostumado.

    Olhou em volta. A escuridão impenetrável tornava impossível ver qualquer coisa. Mas ele sabia que A Besta que Subiu da Terra também estava lá, a poucos metros de distância. Sentia seu poder.

    Talvez, a criatura estivesse confusa, afinal, o Não-criado era assustador até mesmo para os piores seres sobrenaturais. O vazio completo, a ausência, o nada, eram conceitos que não tinham forma física na Terra, mas alí, se apresentavam de maneira concreta, quase sendo possível tocá-los.

    “Primeira coisa…” pensou Renato “…preciso de ar!”

    Fazer todos aqueles cálculos mentais, gerando do zero partículas subatômicas, cordas, quarks, depois elétrons, prótons e nêutrons, para depois calcular os átomos, cada qual com sua própria massa atômica e quantidade de prótons, seria complicado demais. Principalmente, considerando que depois de tudo isso, ele teria que representar os resultados em forma de canção, com notas que fugiam da escala padrão, utilizando o único instrumento que tinha no momento: a própria voz. E piorava ainda mais se considerasse que Renato nunca foi um cantor muito talentoso.

    Entretanto, ele estava com sorte. Não precisava criar do zero, pois tinha dentro dele um pouco desse recurso tão valioso.

    Ele assoprou cuidadosamente o ar que prendia nos pulmões. Estendeu o dedo para tocar a pequena bolha transparente que tinha se formado diante dele.

    Não havia luz, então ele não conseguia vê-la, mas seu toque era levemente quente. Talvez, a primeira vez desde a aurora dos tempos em que este pequeno ponto no espaço tinha algum visto calor.

    O rapaz conseguiu distinguir uma silhueta um pouco distante. Parecia se debatendo loucamente, tentando chegar até ele, mas sem sucesso. Óbvio que seria inútil. Movimentar-se num ambiente sem atrito seria impossível. Tudo o que podiam fazer, no momento, era deixar o copo flutuar no vácuo, a mercê da própria inércia. Parece que a Besta não estudou física básica!

    O garoto tocou a bolha de ar, sentindo-a suavemente fazendo cócegas na palma de sua mão.

    Ouviu uma música suave, quase inaudível. Um som constante vindo daquela bolha de ar. Era a Canção Primordial, que dava origem a tudo no seu próprio universo.

    Renato só precisava sincronizar seu canto com a música dos átomos na bolha.

    Ele estudou pra isso!

    Deixou um som de “om” escapar da garganta.

    “Droga! Eu deveria ter entrado nas aulas de canto!”

    Depois de um tempo de constrangedora desafinação, finalmente conseguiu! Suas cordas vocais vibraram na mesma frequência dos átomos. E os cálculos fluíram pra dentro de sua cabeça violentamente.

    Equações sem fim, dízimas periódicas, números que davam origem ao ritmo e a melodia.

    E ali no Não-Criado, seu cérebro primata de homo sapiens, que deveria pesar pouco menos de um quilo e meio, conseguiu entender o fundamento da criação.

    — Multiplicar! — disse ele, apenas movendo os lábios mudos.

    E os átomos de ar na bolha multiplicaram-se, cobrindo o ambiente.

    — Átomos de Oxigênio, juntem-se em dois!

    E dessa forma, ele produziu o oxigênio molecular respirável.

    Puxou o ar recém-criado para dentro de seus pulmões.

    O alívio por poder voltar a respirar alegrou-o.

    Olhou em volta, procurando a Besta.

    Dessa vez, Renato viu a silhueta se movendo nas sombras com ainda mais intensidade. Parecia enlouquecida, tentando chegar até ele.

    “O ar permite atrito”, lembrou ele. “Preciso ser cuidadoso.”

    — Preciso de luz. Energia!

    O garoto separou algumas bolhas de ar e, com um pensamento, as excitou, aumentando-lhe a energia até que brilhassem com luz visível.

    A luz rasgou a escuridão do nada, partindo a ao meio.

    E finalmente Renato pôde ver a Besta; e a criatura do Apocalipse parecia diferente de antes.

    Seu olhar arregalado parecia até…

    — Medo? Está com medo?

    A Besta abriu um sorriso.

    — Ah, não seja ridículo. Eu só estava tentando entender as coisas, mas acho que já entendi.

    — Entendeu, é?

    — Não importa, Renato, o quão poderoso fique.

    Realmente a Besta tinha um trunfo. A chance de desfazer qualquer coisa. Seu poder conhecia limites. Não havia criatura que pudesse vencê-lo.

    — Entendo… — disse Renato, e com um pensamento, fez o chão surgir. Era simples. Lembrava argila batida. Uma pequena tira de solo, flanqueada pelo vácuo infinito.

    Não foi difícil. Todos os ingredientes já estavam ali no ar. Ele só precisava quebrar algumas moléculas para reaproveitar os átomos, e poderia criar qualquer coisa que quisesse.

    A realidade era um grande jogo de lego.

    A Besta sorriu. Ao ter onde pisar, ela também poderia usar sua super velocidade. Fez a adaga amaldiçoada surgir em sua mão. Estava ansioso por essa morte! O Condutor de Arimã estava tão perto! Matá-lo com certeza seria a cereja do bolo em sua milenar vida de assassino.

    Foi Renato quem deu o primeiro passo em direção ao inimigo. Estava calmo. Cantarolava uma canção baixinho.

    — É agora… — murmurou a Besta que Subiu da Terra, e tentou avançar num ataque, segurando firme na adaga.

    Mas não saiu do lugar. Seus pés apenas deslizaram velozmente sobre a superfície do solo, de modo que a Besta permaneceu no mesmo lugar.

    — O… que… ? — Estava visivelmente chocado.

    Renato se aproximava calmamente. A Espada do Ódio surgiu em seu punho, rodeada por uma névoa negra.

    — Este solo onde pisa foi criado por mim, se esqueceu? Especialmente aí, no lugar onde está, a capacidade de atrito é próxima de zero. Levaria horas para se mover poucos centímetros. Infelizmente, para você, não há tempo.

    A Besta estalou a língua. A calma com que Renato se aproximava só o irriratava mais.

    — Maldito, está me subestimando… — murmurou. — Ainda não conhece o terror! Sobrescrever!

    Mas nada aconteceu.

    Renato continuou caminhando em direção a ele. Já estava muito perto. A lâmina da espada brilhava faminta.

    — Sobrescrever! Sobrescrever! Sobrescrever!

    — Não adianta. Não entendeu ainda.

    — Sobrescrever! Sobrescrever! Sobres… mas… como? Como pode? Como pode ser possível? Isso não… não faz sentido!

    Eu ainda não fiquei sem energia!

    Renato sorriu. E se alguém o visse, acharia que seu sorriso foi muito parecido com o de Tâmara e o de Clara, e talvez até o de Kath.

    — Como vencer um poder que manipula o tempo? É simples. Te levei pra um lugar onde o tempo não existe.

    — Mas…

    A Espada de Renato já estava perto demais.

    — Mas isso…! isso não faz sentido! — Exclamou a Besta, enquanto ainda tentava se mover no solo sem atrito. — Se o tempo não existe, como pode haver o antes, quando chegamos, e o agora, que é o depois?

    Por um momento, Renato pensou na pergunta. Pensou se valeria a pena responder um cadáver que ainda não tinha parado de falar.

    Relaxou os ombros.

    — Você confunde os conceitos.

    Ergueu a espada.

    — Não! Espera! Não precisa… n… arrg!

    A súplica dele foi interrompida pelo sangue negro que subiu do pulmão e trancou as cordas vocais.

    A Espada do Ódio estava trespassada em seu peito. A ponta brilhante, ensanguentada, aparecia nas costas. Tinha arrebentado a coluna vertebral.

    A Besta caiu de joelhos, cuspindo sangue.

    — Espera… — sussurrou. — Não faz…

    Renato girou, fazendo a lâmina deslizar na carne e sair na lateral das costelas.

    A Besta, agonizante, caiu sobre o chão.

    — Sobrescrever… — sussurrava com a voz quase inaudível. — Ari… Arim… —

    Os olhos da Besta, aterrorizados, se moviam pela vastidão vazia procurando por Ele.

    — Arim…

    — Arimã? — disse Renato. Seus olhos frios assistiam aquela criatura miserável agonizando os últimos momentos de sua vida milenar.

    — Sim? — respondeu a voz em sua cabeça.

    O garoto olhou para o alto, e acima de sua pequena amostra de Criação, sobre o teto de seu viveiro cósmico, flutuando no vácuo escuro, estava aquela gigantesca jaula de diamante, e dentro dela, o Anti-Deus.

    — Fez um pacto com ele? — perguntou o garoto.

    — Fiz.

    — E pretende ajudá-lo?

    — Não.

    E os olhos da Besta, enfim, perderam o brilho. Sua respiração cessou.

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