N.T. 不謹慎な望み (Fukinshin na Nozomi, Desejo Imprudente)

    Haru puxou Seki para fora da pista de dança. Eles seguiram para o corredor do local, onde os sons de alguém passando mal podiam ser ouvidos. Chegando à porta do banheiro masculino, era possível ouvir nitidamente alguém vomitando, e ele logo foi ver quem seria.

    — HIKARU!! — chamou, assustado vendo seu irmão agarrado ao vaso sanitário e vomitando.

    — Fica do lado dele, melhor que ele coloque pra fora. Vou pegar uma água. — A moça percebeu o desconcerto do mais velho e decidiu ajudá-lo.

    Enquanto ela se afastava, indo em direção ao bar, Seki se aproximava do garoto passando mal, sem ter muita certeza de como agir.

    — Hikaru, o que você fez? Como que ficou tão mal? — ele se agachou ao lado do caçula, colocando as mãos nos ombros dele. Sua voz misturava preocupação e indignação. Em sua mente, não sabia se devia reconfortar ou passar correção.

    — SEKIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII! EUUUUU BEBIIIIIII MEIO DEMAAAAAAIS! — explicou Hikaru, falando alto e arrastado. — MAS AGOOORA TÔ BEEEEM!

    Seki olhou para o garoto, ponderou por um momento e percebeu que a bebida escondia algo a mais. Não deveria ser só pela diversão ou curiosidade, e decidiu perguntar diretamente:

    — Você tá bem? Não falo da bebida, mas desde que viemos pra Terra.

    O garoto olhou para seu irmão mais velho com um sorriso, logo, desviou o olhar. Parecia que ele estava refletindo sobre a situação. Depois, voltou seu rosto para Seki, curvou a boca, fazendo beiço e começou a chorar igual a criança pequena. Ele se sentou encostado na parede do banheiro, se encolheu, o rosto apoiado em sua mão.

    — Seki, como você tá bem? Mano… Eu não consigo… Quando a gente chegou, eu me senti muito perdido. Agora encontramos as meninas… eu achei que tudo ia ficar bem… mas a Akiko tá muito estranha, tá mais agitada que o normal… Eu não consigo ver o que ela sente… Parece que ela bloqueou. O que eu faço? O que eu faço? — perguntava Hikaru, enquanto as lágrimas escorriam.

    O mais velho respirou fundo e olhou com carinho para o mais jovem.

    — Olha Hikaru… Eu também não tô bem… — confessou. — Só estou me esforçando pra ajudar e não dar mais trabalho. Tá todo mundo lidando com tudo da melhor maneira que pode. Esse deve ser o jeito que a Akiko encontrou pra ser forte agora. 

    O rapaz deu uma leve pausa e logo continuou a falar:

    — Tenta ficar bem, não quer dizer que não vai ter momentos difíceis, nem que você vai conseguir segurar o tempo todo. Eu acredito que se você for sincero, ela vai acabar se abrindo.

    Apesar da tristeza, Hikaru escutou atentamente cada uma das palavras de seu irmão. Ele ainda sentia seu coração apertado, e dirigiu seu olhar para Seki, o sorriso, que não era de alegria, mas sim de desesperança, marcava seu rosto.

    — Seki… você acha que mais gente sobreviveu? — perguntou.

    — Não sei… Mas a gente achava que só tinha nós dois… — respondeu numa mistura de esperança e peso.

    — A população inteira de Utopia não cabe na Terra. — completou Hikaru.

    Seki ficou em silêncio, por um lado, ele esperava encontrar mais sobreviventes, por outro, sabia que Hikaru estava certo em sua colocação. Era certo que muitos haviam perdido suas vidas.

    — Consegui a água! Tava cheia a fila! — A tensão foi cortada com a volta de Haru, que chegou entregando a garrafa.

    — Opa! — disse Seki, surpreendido. Após, esticou sua mão em direção a seu irmão. — E aí?

    — Tá, bora levantar! — Hikaru esticou sua mão e aceitou a ajuda de Seki. Ele compreendeu que o levantar não era só do chão, mas também seu ânimo.

    Como ainda estava zonzo, o mais novo se apoiou no ombro de seu irmão para caminhar.

    — Obrigado, Haru! A gente vai indo! — agradeceu Seki.

    — Até segunda! E te cuida Hikaru, não incomoda o mano! — Haru se despediu com um sorriso e um aceno.

    — Ah… tá… — cumprimentou Hikaru, um pouco sem graça pelo acontecido, segurando sua garrafa de água.

    Os dois caminharam vagarosamente até a mesa do bar. Lá, Adonis continuava a dormir, nem o som alto, nem as pessoas conversando e nem a movimentação do bar haviam impedido ele de aproveitar o descanso.

    — Adonis, acorda! Vamos! — Impressionado com a capacidade do garoto, Seki achou melhor sacudí-lo.

    — MEU DEUS! ELE APAGOU! — comentou Hikaru, dando tapinhas no amigo dorminhoco. Achando graça da situação, ele ainda estava falando alto e com a voz levemente arrastada.

    Os esforços dos dois surtiram efeito e Adonis aos poucos abriu seus olhos e levantou sua cabeça. Ele virou-se para os dois e os reconheceu.

    — Hummm…. bora… — disse com voz baixa e sonolenta. Mas logo a expressão tranquila de descanso se desfez, seu nariz se mostrou incomodado, as sobrancelhas arquearam e seu tom de voz ficou mais sério. Seus olhos se dirigiram ao seu colega de classe. — Hikaru, que cheiro de vômito e bebida é esse?

    — TÁ TANTO ASSIM? — espantou-se Hikaru.

    — Tá insalubre. — confessou Seki, que, por educação, tinha se recusado a comentar até aquele momento.

    Em desespero, Hikaru se virou para Seki e, todo sujo, o abraçou. 

    — Me ajuda Seki, a Sayu não pode me ver assim.

    O jovem chorava, mas ao mesmo tempo sustentava o mesmo sorriso no rosto. Seu pedido parecia muito mais uma vontade de esconder sua desobediência do que um arrependimento genuíno.

    — Era pra pensar nisso antes de beber. — alertou Seki ao seu irmão. Suas pálpebras, apertando-se uma contra a outra, mostravam que ele estava começando a perder a paciência com a choradeira do caçula bêbado.

    Adonis encarava a cena com indiferença, não sentia pena, só queria resolver logo a situação e ir embora dali.

    — Tá, bora lá em casa. — sugeriu Adonis, com seu jeito prático, mas também sem verificar se seu colega de quarto estaria de acordo.

    — Mas sua amiga vai me ver assim! — disse Hikaru, virando o rosto para Adonis, com cara de preocupado, demonstrando que sua preocupação era passar vergonha.

    — Na verdade eu moro com o segurança. — revelou Adonis.

    — QUÊ!? — Seki ficou pálido, dentro dele, se perguntava se teria problemas maiores.

    Sem muita saída, Seki concordou em irem juntos até a casa de Adonis. Eles saíram por volta das cinco e cinquenta e estavam sem dinheiro, a solução então foi caminhar. Naquele dia, o sol havia nascido às seis e vinte e nove e os três puderam acompanhar conforme seguiam o caminho.

    Casa de Koa e Adonis, 6h40m.

    No apartamento, Hikaru foi mandado para o banho, ninguém aguentaria conviver com ele cheirando daquele jeito. As roupas dele foram colocadas na máquina de lavar e para vestir, pegou as roupas de Adonis emprestadas.

    Os dois mais novos foram dormir no mesmo quarto. Hikaru estava cansado e Adonis queria descansar num local que fosse mais adequado.

    Já os mais velhos estavam à mesa. O cheiro do café que Koa havia preparado deixava o ambiente mais confortável. Porém, seu olhar sério e incisivo encarando Seki mostravam uma faceta hostil.

    Os dois estavam frente a frente, seus olhares se cruzando. Seki suava frio, Koa não precisava dizer nada, sua presença era marcante e intimidadora por si só.

    — Obrigado por nos receber e por lavar as roupas do meu irmão. — agradeceu Seki, sua voz estava mais baixa e tímida que o seu normal, deixando escapar sua insegurança.

    — Eu já ia lavar a minha. E é a máquina que faz todo o trabalho. — respondeu Koa com tom firme, cortando a gentileza do rapaz.

    — Ah, é… si-sim… ma-mas.. mesmo assim… — Seki não queria parecer abusivo e tentou se justificar, mas acabou gaguejando um pouco.

    — Você está bem acordado e não parece alterado por nenhuma substância. — comentou Koa, terminando seu café. Então levantou-se, ainda encarando o jovem. — Se fosse atento, seria um bom guarda.

    — Ah, obrigado… vou me esforçar… — respondeu Seki, impressionado com o que parecia ter sido um elogio, mesmo que acompanhado de um puxão de orelha.

    — Vou descansar no meu quarto. Os meninos já estão no outro, então durma no sofá. — disse se retirando em direção aos seus aposentos.

    Seki não teve muita reação, mas ficou curioso com aquele homem e sua postura confiante, tão diferentes da dele. Depois de terminar de tomar seu café, ele lavou a louça e se dirigiu até o sofá. Arrumou uma almofada para se escorar e, antes de cair no sono, pensou:

    “A Naoko… Também tá distante…”

    Colégio M, 5 de maio, quinta de manhã.

    Depois da calmaria do fim de semana para as meninas e o agito e descobertas para os meninos, a semana aconteceu como de costume.

    Sem ataques desde a excursão na serra, todos seguiam tranquilos, mas com vigilância. Se havia alguma certeza, era de que a qualquer momento algo poderia acontecer.

    A quinta-feira havia amanhecido em uma temperatura agradável de outono e ainda não se tinha a necessidade de utilizar uniformes mais quentes. Os alunos se dirigiam para suas classes, e como já era costume, Adonis procurava por Miyu.

    — Oi pequena! — disse ele, tocando no ombro dela, fazendo com que ela desviasse sua atenção para ele.

    — Ah, Adonis! — exclamou. — E aí? Faz tempo que não saímos…

    Ela virou o rosto, queria esconder que estava tímida. Sentia seu coração bater aceleradamente e suas bochechas ficarem quentes.

    — Ah, desculpa. Sentiu minha falta? — perguntou ele, corando um pouco o rosto.

    Miyu não respondeu, sentiu-se boba por causa de sua pergunta. A sensação do beijo que deram naquele dia no centro sempre vinha à sua memória e se amplificava quando ele conversava com ela. Era uma lembrança tão viva que ela conseguia lembrar exatamente da sensação do toque.

    — Olha só! Bateu o sinal! — disse ela, apressando o passo em direção à sua sala.

    — !? Mas não bateu… — disse Adonis, confuso, mas logo ela se afastou. — Eu… fiz algo de errado?

    Depois de todos estarem em suas respectivas salas, cada turma seguiu com suas atividades. A turma do Primeiro Ano teve aulas com o Professor Nanji, de química, que tinha a habilidade de controlar todas as conversas paralelas.

    No Terceirão, Naoko e Seki seguiam com a semana de provas e preparação para o vestibular. O clima era de tensão, nenhum aluno queria ficar de recuperação durante a época de provas do vestibular.

    Visitando o laboratório de ciências estava o Segundo Ano. Quem estava ministrando a visita era a Professora Mira, de biologia. A aula estava leve, os alunos caminhavam por todos os lugares, Adonis aproveitava para usar o microscópio. Hikaru quis conhecer o famoso esqueleto humano do local.

    — Oi Frederico! Sou Hikaru! — cumprimentou com um aperto de mão.

    Tudo acontecia como de costume, porém, o silêncio do pátio logo cessaria.

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