Casa de Sayuri, 1º de maio, sábado

    O silêncio dominava o bairro residencial. O calor ameno, a brisa suave balançando as cortinas dos quartos. Tudo parecia um convite para atividades mais reflexivas.

    E assim como o clima, o dia seguia para cada um na casa. Naoko estava escorada em sua cama, concentrada na leitura de um livro de literatura. Visitando as plantas da casa estava Miyu, cuidando e embelezando o jardim. Deitado em sua cama, olhos abertos fitando o teto estava Hikaru, cuja posição esticada mostrava que não estava confortável.

    — Mano… Que tédio… — ele reclamou. — Vamos sair?

    — Hikaru, tu não sossega não? — indagou Seki, que estava sentado na escrivaninha do quarto, com seus livros e cadernos de estudo. — Se queria sair, por que não foi com a Akiko no mercado?

    — Ela foi com a Matsui, Sayuri e Guang. E não era só no mercado, vão ver coisas pra casa também.

    — Você quer é uma bagunça, né?

    — Sim! Você pegou a ideia! — disse Hikaru, colocando-se sentado na cama, com um sorriso cúmplice de que está aprontando algo e quer companhia. — Que tal a gente ligar pro Adonis?

    — Não, eu não quero! Essa semana tá cheia de provas. — respondeu Seki, com tom de voz cansado e sua franja solta, sem a tiara que costuma segurá-la.

    Num pulo, Hikaru saiu de sua cama e foi em direção ao telefone sobre a cômoda. O antigo escritório de Guang agora era o quarto dos meninos, mas o telefone, e alguns móveis ainda ficavam ali. Ele rapidamente digitou os números e logo foi atendido.

    — Alô! Adonis!? Bora fazer algo hoje?

    Desacreditado, Seki virou o rosto em direção a seu irmão.

    — HIKARU, VOCÊ OUVIU ALGUMA COISA QUE EU FALEI? — gritou, perdendo a paciência com o caçula.

    — Marquei! A gente vai numa colega dele porque ele tá lá! — informou, ignorando completamente o questionamento do seu irmão mais velho.

    — COMO ASSIM ‘A GENTE’?

    Prédio de Maureen

    Seki não conseguiu se livrar do compromisso. Hikaru era bom com palavras e atitudes na hora de convencer. Quando deu por si, já estava na frente do prédio da amiga de Adonis, arrumado, esperando a porta ser aberta pelo anfitrião.

    “Eu devia ter dito não, eu devia ter dito não, eu…”, pensava, como um mantra.

    — Opa, entra aí! — Adonis logo apareceu e abriu a porta de vidro para os dois irmãos.

    — Oi, Adonis! Boa tarde! — cumprimentou Hikaru, com sua voz alegre, mostrando um “joinha” para ele com o polegar.

    — Boa tarde! — cumprimentou Seki, ainda tenso por ter sido convencido a acompanhar.

    Os três seguiram para o elevador, subiram até o andar e foram até a porta do apartamento, que tinha um tapete de boas-vindas todo adornado. Abriram a porta e entraram no apartamento, onde viram a cozinha e a sala de estar integrados, simples e aconchegantes. 

    A decoração era delicada, e o diferencial ficava em alguns quadros fofinhos e painéis pendurados pela casa. Além disso, havia coisas espalhadas, como papéis e roupas, revelando que ela não era tão organizada.

    — Opa! São os amigos do Adonis!? Entrem! Sou a Maureen! — cumprimentou ela, usando suas tranças como de costume, uma camisa e uma saia curta jeans, pois a tarde estava quente.

    — Esses são Hikaru e Seki.

    Os dois olharam para ela. Hikaru estava boquiaberto, Seki estava impressionado com a beleza dela e acabou por ficar corado, admirando.

    — Adonis! Essa sua amiga é muito bonita! Faz o lado dela com o Seki! — sussurrou Hikaru, puxando Adonis para o lado e fazendo a proposta.

    — Por que geral acha ela tão bonita? E se o Seki quer algo com ela, ele que se vire. — Adonis respondeu, incomodado.

    — Eu tô ouvindo… —  reclamou Seki.

    Os três logo se ajeitam na sala. Hikaru e Adonis ligam o videogame e começam a jogar juntos, sentados no chão e escorados no sofá onde Seki estava deitado. A cabeça do mais velho estava escorada em sua mão, observando o jogo dos dois

    — Vocês vão só jogar? O amigo de vocês parece entediado. — Maureen acabou passando novamente pela sala e percebeu o que estava acontecendo e achou melhor comentar.

    Os dois finalmente se deram conta de que o mais velho não estava fazendo nada. Eles se viraram e o encararam.

    — Cê quer jogar, Seki? — perguntou Hikaru.

    — Quer dormir? — propôs Adonis.

    — Que? Não, tô numa boa. — recusou Seki, sua voz trêmula demonstrava que ele havia ficado sem jeito.

    — Ah, já sei! Porque vocês não vão numa balada? — propôs Maureen, animada.

    — Ah, eu não….— Adonis e Seki começaram a responder.

    — Opa! Boa! Vamos! — Hikaru cortou a fala dos dois, concordando com Maureen.

    Danceteria 10:49, 20h

    Ainda era cedo e a danceteria não tinha muita fila. O lugar, chamado 10:49 ficava localizado no meio do centro e sua fachada era discreta, toda em cor preta, para não chamar tanto a atenção da vizinhança.

    A bilheteria já estava aberta, recebendo os jovens que iam se divertir. E o guarda, um homem alto, de pele escura, cabelos brancos e uma cicatriz enorme no rosto, estava posicionado na frente, para evitar quaisquer problemas.

    — É isso, vamos conhecer gente! — disse Hikaru, caminhando em direção ao local, liderando o grupo.

    O guarda escutou a voz dos garotos chegando e percebeu um rosto conhecido.

    — Adonis, o que está fazendo aqui? — perguntou o guarda, revelando-se ser Koa.

    — Koa? Cê trabalha aqui? Meus amigos quiseram vir… daí eu vim junto. — justificou o jovem ruivo.

    — Você não tem idade para vir nesses lugares.

    — Seus conhecidos? Relaxa, eu faço vista grossa. — comentou o rapaz na bilheteria.

    Koa olhou sério para o homem, ficou em silêncio, mas seu olhar julgava a atitude irresponsável da bilheteria do lugar. Porém, percebendo que não adiantaria se opor ou questionar tais atitudes, ele resolveu ceder.

    — Comporte-se, não vou carregar ninguém pra casa. — aconselhou.

    — Muito obrigado senhor Koa. Me chamo Hikaru. Cuidaremos para que o Adonis não seja uma vergonha. — O jovem estendeu e cumprimentou o homem com um aperto de mão simpático. Ele procurava passar confiança com seus gestos.

    — Você que vai envergonhar a gente. — comentou Adonis, olhando com desgosto para seu amigo.

    — Hikaru… — murmurou Seki, apoiando uma mão no rosto, mostrando-se envergonhado com a atitude.

    Koa apenas murmurou, respondeu ao aperto de mão cumprimentando de volta, mas não trocaram palavras.

    Os três entraram na festa e se depararam com um novo ambiente. Luzes coloridas, os tons em neon, a luz branca piscando. O gelo seco preenchia o lugar e deixava a iluminação difusa. 

    As pessoas dançavam freneticamente, pulavam, se balançavam sem atenção ao seu entorno, o cheiro do álcool estava impregnado no ar.

    Aos poucos os três foram se ambientando e encontrando seus lugares. Seki e Adonis ficaram juntos encostados na parede sem vontade alguma de participar daquela bagunça.

    Em total contraste, ao centro, encontrava-se Hikaru. O garoto parecia mergulhar entre todas as pessoas. Dançava, pulava e se divertia, havia encontrado o seu lugar na vida noturna. 

    Ao redor da pista de dança, casais se formavam, em meio aos que queriam se divertir, haviam aqueles que encontravam seu momento de relaxar em relações efêmeras de apenas uma noite.

    — Hikaru tá bem faceiro… — comentou Adonis, com seu jeito desleixado, joelho dobrado, pé encostado na parede, observando a desenvoltura de Hikaru. — E que tanto casal…

    — Ele é animado… — explicou Seki, seus braços cruzados e sobrancelhas arqueadas mostravam seu desconforto com a atitude não do irmão, mas de um casal agarrado e trocando beijos, que ele acabou avistando por perto. — Aquele cara lá é da minha turma. Aquela não é namorada dele…

    A festa seguia, horas se passaram e os ritmos variavam entre pop, eletrônico, e muitos outros. Tocavam músicas remixadas bastante conhecidas do momento, e era nítido que a noite seguiria assim durante muito tempo.

    Escorado na mesa de bar, Seki se mantinha acordado. Ele esperava o retorno do mais novo, que ele havia deixado se divertindo. Adonis já não aguentava mais ficar acordado e estava debruçado em cima da mesa. Mesmo o som alto não foi capaz de deter seu sono.

    — Como que o Adonis conseguiu dormir no bar? — perguntou-se enquanto olhava para Adonis.

    Na parede do bar, perto do armário de copos, o relógio digital marcava 3:37 da madrugada. 

    “Ah não, tá muito tarde, cansei de esperar. Vou procurar o Hikaru.”, pensou Seki, que já se mantinha olhando para o vazio, com os cotovelos apoiados na mesa e mãos entrelaçando os dedos, denunciando seu tédio, mas aguentando com paciência até então.

    Incomodado, o rapaz se levantou, batendo com as mãos na mesa e respirando fundo. Saiu em direção à pista de dança, que aparentava estar ainda mais cheia, apesar do horário.

    — Onde que o Hikaru se enfiou? — reclamava ele, enquanto caminhava por entre as pessoas dançando.

    Foi então que ele sentiu uma mão tocando em seu ombro. Uma pessoa havia se aproximado e se encostado nele, num leve abraço.

    — Oi lindinho! Procurando algo? — disse a pessoa, revelando-se uma voz feminina, doce e animada.

    — Hm? — Seki foi surpreendido pela atitude, arregalando o olhar e corando seu rosto.

    Logo de imediato ele se virou e percebeu que a pessoa era conhecida. Tratava-se de uma colega que estudava na mesma sala que ele. De estatura média, olhos na cor roxa e cabelos em tom azul-escuros, ela o fitava com um sorriso.

    — Haru! Não tinha te visto aqui! — disse ele.

    — Magina! Chegou agora? Ainda tá sóbrio! A Naoko veio junto? — perguntou, seu ritmo de voz era levemente acelerado, e por causa do som, ambos falavam alto.

    — Naoko tá em casa! — respondeu.

    — Ah, é? E ela fica de boa com o namorado vindo sozinho na balada? — ela questionou, mas sua voz não mostrava provocação, ela havia achado curiosa a situação.

    Seki sentiu-se envergonhado, seu rosto parecia um pimentão de tão vermelho que estava.

    — Que? Não, a gente não tá namorando. De onde tirou isso? — a voz dele saiu arrastada, seu coração palpitava, o nervosismo estava fazendo com que ele quisesse se esvair naquele momento.

    Haru por um momento até tirou o sorriso do rosto. Confusa com a informação, isso se mostrava em seu semblante que o encarava. Ela decidiu então apontar todas as evidências, em busca de provar seu ponto:

    — Sério? Mas vocês passam o recreio todo juntos. Vocês também tão sempre juntos na biblioteca. E pra fechar, vocês vêm e vão embora juntos. A galera acha mega fofo.

    “Fofo?”, pensou Seki, escutando com atenção, mas sem comentar nada do que tinha falado.

    — Bom, então, se não tão juntos, eu sei de um monte de meninas que te quer! — Um sorriso surgiu no rosto de Haru, como se dissesse que estava disposta a ajudá-lo a encontrar um par.

    — Ah, não! Eu tô numa boa. — recusou Seki, um pouco seco, para não prolongar o assunto. — Você viu o meu irmão, o Hikaru?

    — Seu irmão… — ela refletiu por um momento. — Ah, acho que eu vi!

    A voz da garota, somada às suas sobrancelhas arqueadas e a boca tensa, sugeriam que algo de estranho havia acontecido.

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