Índice de Capítulo

    O dia seguinte de aulas parecia ter sugado todo o entusiasmo dos alunos ali. Pelos corredores, apenas murmúrios sobre o frio inacreditável do lado de fora, e o tédio pelas matérias que começavam a acumular, mesmo o semestre tendo mal começado direito.

    Claro, todos pareciam terem sidos atingidos por isso. Exceto por ele.

    Seiji.

    Durante o intervalo, Seiji, eu e Rintarou caminhávamos pelo corredor em direção às máquinas de vendas para comer e beber algo quente, atravessando vários alunos que andavam de um lado para o outro.

    — Eu tô falando pra vocês! — Seiji exclamou, alegre, depois de quase esbarrar em um aluno. — Aquela loja devia ter trocado meu bilhete da sorte mesmo! Coitado do azarado…

    — Azarado? Mas você não tirou Sorte Pequena? — perguntei, dando uma pequena risada.

    — Sim, mas você não viu o que aconteceu ontem!? — ele parou de andar, e olhou pra mim com aquele sorriso esquisito de sempre. — Ficar do lado da Yumi não é coisa de Sorte Pequena, Yamamoto. Isso é coisa de Grande Sorte!

    Rintarou deu um suspiro pesado, ajustando os óculos. 

    — Claro que sim, Seiji. 

    — Eu tô falando sério, Rin! — ele rebateu, enquanto eu ria.

    Continuamos andando, até chegar na máquina de vendas. Escolhemos alguns lanches e umas latas de chocolate quente. 

    — Que bom… — murmurei, depois de abrir e tomar um gole.

    Enquanto comiamos e bebiamos, acabei virando a cabeça… e me deparando com algo esquisito.

    Avistei uma figura familiar na janela, encarando o lado de fora do pátio. Ele estava imóvel, com os braços na janela, encarando… o nada, com um olhar sério.

    — Ei, Akira…? — me aproximei, curioso, e o grupo fez o mesmo. — O que você tá fazendo aí com essa cara?

    — Nada, Shin… — ele murmurou, sem tirar o olhar do lado de fora. — Eu estou fazendo nada…

    “Que arrepio.”

    Akira nunca tinha ficado daquele jeito.

    Olhei para Seiji, que arqueou uma sobrancelha e, como sempre fazia, colocou seus braços ao redor do pescoço dele.

    — Qual é, fala logo! — Ele começou, mas depois alterou o tom. — Ei… não me diga… você já foi rejeitado!?

    A falta de uma resposta instantânea me fez pensar que ele realmente tinha ido se confessar para ela.

    “Mas já…?”

    Ele não respondeu, e então tirou o braço de Seiji lentamente, com uma calma… bizarra. Não combinava nada com ele. 

    Seu semblante ainda continuava sério.

    Tinha sido tão ruim assim?

    — Eu vi… — ele finalmente disse algo.

    — O que você viu? — Rintarou disse, meio impaciente com aquele drama todo dele.

    Akira então suspirou.

    — Vi a Yukari rindo com outro cara do terceiro ano… 

    O silêncio então caiu ali no grupo. 

    “Rindo?”

    Ele não tinha ido se confessar?

    Ele então se virou lentamente para nós, fechando a janela. Ele se aproximou de Seiji, que recuava lentamente com medo, e agarrou o seu colarinho. 

    — …Que… que foi…? — Seiji perguntou, vendo a cabeça do Akira abaixada, encarando o chão.

    No segundo seguinte, ele quebrou o personagem, balançando rapidamente o Seiji pra frente e pra trás.

    — Era pra ser a gente, cara! — ele disse, quase choramingando enquanto fazia Seiji ficar tonto. — Era pra ser eu e ela! A gente é tipo, o par perfeito, você entende!? 

    — Par perfeito…? Par perfeito… — murmurei pra mim mesmo, tentando me lembrar se eu já vi ambos juntos por algum segundo.

    — Nunca se falaram de verdade…? — Rintarou murmurou.

    Aquelas palavras pareciam ter atingido ele.

    Akira parou de abanar Seiji, e se virou pra gente, com uma cara que misturava seriedade e fúria.

    —Hã? Vocês falaram algo?

    Eu imediatamente levantei as mãos, em sinal de rendição.

    — N-nada, eu não disse nada — murmurei, desviando o olhar. — Só disse que você… deve estar bem triste agora.

    Rintarou suspirou. 

    — Você sabe que dar uma risada não significa nada, não é? — Rintarou interveio, fazendo Akira prestar atenção e mudar seu olhar no mesmo segundo. — Você ainda tem chances.

    Seiji voltou para trás, recuperando o fôlego. Ele ajeitou a gola do uniforme, e acabou murmurando algo com um pequeno sorriso no canto.

    — Tem chances sim… menos de um por cento. 

    Eu acabei soltando uma risada mais alta do que esperava, enquanto Rintarou deixou escapar uma leve expiração de riso também. 

    Akira nem sequer conseguiu ficar bravo com Seiji. Ele sabia que era verdade, então nem o tentou agarrar novamente.

    As aulas seguintes seguiram seu curso normal. Ainda assim, eu só conseguia notar algo fora do comum, mas que, naquele momento, tinha se tornado algo normal.

    Olhar para o meu lado e ver outra pessoa sem ser Yuki era… estranho. Eu sentia falta das coisas pequenas e triviais que ela fazia ao meu lado.

    Eu tentava manter minha concentração no que o professor falava e escrevia, escrevendo no caderno tudo sobre a matéria de literatura sendo lecionada. Aquele esforço para me concentrar me mantinha ocupado, mas algo era claro. 

    Eu teria que me acostumar com aquele novo vazio ao meu lado.

    O sinal então soou mais rápido do que percebi. A sala logo virou uma bagunça de conversas e cadeiras sendo arrastadas. 

    — Não se esqueçam de fazer a lição de casa! — O professor tentava falar, mas a maioria parecia não ouvir, ou melhor, ignorar…

    — Vejo vocês no portão — Seiji disse, se despedindo de nós e seguindo para o clube de futebol.

    — Bom treino — ambos dissemos, e ele saiu, se misturando entre os alunos no corredor.

    Eu e Rintarou guardamos nossas coisas sem pressa, enquanto alguns alunos ficavam para limpar a sala.

    — Vamos? — ele perguntou, e eu assenti.

    Era o dia da primeira reunião do clube de literatura. A primeira reunião do ano.

    Caminhamos pelos corredores que tinha ficado mais vazio por causa de alunos já terem saído da escola, ou por já estarem fazendo as atividades do clube. 

    Enquanto caminhava até o setor, pensei novamente sobre a minha nova história que ainda estava sendo escrita. 

    Ainda não tinha feito muitos avanços, mas só de lembrar das reações e críticas de Kaori e Rintarou em minha casa no natal, me deixava animado.

    A porta do clube então foi aberta, deixando, como sempre, passar aquele bom e específico cheiro de livros e papéis.

    — Bem vindos à primeira reunião do Clube de Literatura do ano! — Kaori exclamou assim que entramos, com os braços no ar e uma alegria exagerada.

    — Quanto entusiasmo… — murmurei.

    Mais uma reunião habitual começava. 

    Mas, diferentemente das outras, as palavras que ouvi escapar da boca da Kaori me fizeram travar.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota