Capitulo 18: Rapto
Aftí espanta-se com o pilar d’água se estendendo ao céu. As gotas evaporam e uma fina névoa quente cobre o azul celeste. Aos poucos a cortina cinza chega as areias.
— Moshe! — o desespero tomou sua voz. — Droga… me responda.
Não há ninguém. Nada além da montaria. O dromedário geme sobre o solo ardente. Por pouco não foi completamente engolido pelo gêiser. As patas traseiras perderam os pelos, a carne exposta borbulha. Seus puros olhos clamam pela misericórdia, clamam pela morte.
— Mosh…
— Um escravo sem dono está condenado a morrer sem nome ou seria Moshe seu senhor? — sob seus pés, a risada sarcástica.toma forma. — Tens bons olhos. Por um momento acreditei que perderia meu fator surpresa. Sorte a minha ter um companheiro tão poderoso.
Das areias, um homem de olhos vermelhos emerge. Escamas amareladas misturam-se a pele branca. O curto cabelo negro evidência a falta de orelhas e o sorriso a falta do nariz, havendo somente pequenas cavidades no lugar.
— Que tal você me acompanhar sem resistência? Yatush é uma boa mulher — as pálpebras se fecham lateralmente, como duas cortinas. — Prometo que só trabalhará quando seus ferimentos se curarem. Terá fartura de comida e água. O que me diz? Irrecusável, né?
O antigo servo hesita, analisa o atual estado decrépito que se encontra. Ombro esquerdo deslocado. Queimaduras em ambos os braços. Apenas uma adaga como arma. E muita fome. A desvantagem é nítida.
— Prefiro que me mate… — infelizmente, a liberdade é inegociável.
Não pode se imaginar como um escravo novamente. Não após experienciar a liberdade. Nasceu encarcerado. Foi obrigado a cruzar desertos para servir. Foi desonrado por todos os lares que esteve.
Menos um.
Houve um local onde experienciou a honra. Um pequeno pátio onde poderia se dirigir ao seu mestre pelo nome. Onde as cordialidades eram desnecessárias. Onde poderia sorrir. Somente ao lado de Moshe isso era possível, apenas com ele viveu como um humano. Deve pagar a dívida que adquiriu com o príncipe. Então…
— Por um segundo, imaginei que fosse mais educado e menos burro — impossibilitado de oferecer algo mais valioso… — Além que eu estou proibido de matar.
Aftí decide entregar a própria vida a seu amigo. O tinir prateado silencia o debochado réptil. O fio da lâmina deslizou pelas escamas, sem sangue. O corpo do europhis se desequilibra, novas queimaduras surgem ao tocar a areia.
— Não me tente a sujar minhas mãos — as pupilas contraíram-se em fendas escarlate.
Outro golpe, agora vindo debaixo. Bloqueado. As mãos nuas facilmente arrancam a lâmina de sua posse. Desarmado, tenta um soco. Errou. O alvo nem precisou se movimentar.
— Eu… — mais uma vez. Precisa de outra chan…
O ar é retirado de seus pulmões. O punho escamoso surge pressionando seu estômago. Um soco? Quando ele se moveu?
— Pare de se humilhar. Não há possibilidade de recusa, eu só queria o jeito menos trabalhoso — os dedos escamosos pressionam o maxilar do europhis. — Recomendo não ser tão rebelde na sua nova casa. A matriarca não será tão compreensível.
Não consegue se mover. Está afundando. As pernas estão dentro do chão. A areia quente se torna cada vez mais fria quanto mais profunda.
— Recomendo prender o fôlego e se segurar em mim — não consegue se mover, não consegue respirar.
A areia bloqueia o ar. A luz é retirada, substituída pela escuridão gélida. É arrastado para o desconhecido. Está preso, novamente subjugado. A frágil liberdade conquistada é retirada sem resistência. Amaldiçoa a fraqueza. É nulo. Descartável. Um fracasso para seu libertador.
O grande pilar hídrico recusa a curvar-se para o príncipe mascarado. A pressão abaixo do solo a torna selvagem, imprevisível. Domá-la irá custar tempo e força… Será mais produtivo eliminar a causa dessa anomalia. O portador do dom não pode estar distante, não com um feito dessa magnitude. Precisa se manter atento.
— A… ju… — Ainateb continua desacordada.
Peso morto…
A amarrou desleixadamente nas costas. A protegeu da queda com o próprio corpo. Os braços e costas foram temporariamente queimados, sua regeneração deixou grandes manchas brancas como um lembrete.
A salve…
Abandone-a…
O conflito atrás de seus olhos enfraquece a carne. O abismo alojou-se em cada parte do corpo. Unhas gastas arranham as pálpebras. Dentes partidos roem os ossos. Mãos esqueléticas espremem os pulmões. Vomitaria caso houvesse algo em seu estômago.
Nós devemos todo custo…
Sobreviver…
Inspirar…
Ainda perdido entre vozes, Moshe nota névoa se enfraquecer junto ao gêiser. O céu volta a ser visível. Não há nuvens, porém sua atenção volta-se ao solo. Tem algo saindo da água. O ar esquenta. O chão se avermelha.
— Não tenho a intenção de o matar, afinal é valioso — a voz monótona dispersa a neblina. — Entregue-se e não derramarei uma gota de teu sangue.
Olhos e cabelos compartilham com os antebraços a cor rubente, se destacando sobre os grandes músculos e a pele clara. Ele finta o vazio acima da cabeça com a boca entreaberta.
Mate…
A água, finalmente domada, move-se a vontade do mascarado. A figura à sua frente é uma ameaça, tem certeza disso. O grande volume rasga o vento em direção ao homem, eliminá-lo é necessário… Por segundos a forma da serpente é evidente. Presas sedenta por morte. Escamas famintas pela seiva da vida.
Sim…
Não.
Sem ceder. Suas mãos devem permanecer limpas. Essas malditas vozes não ordenam a carne. Não irá matá-lo, deseja fugir e esse será o propósito do ataque.
Fraco…
O corpo escamoso contorna o ser apático mordendo a própria cauda, o círculo foi formado. A serpente dá lugar a esfera. Simétrica e densa. A prisão perfeita.
— Receio que não acredite em minhas palavras — o homem, envolto em calor, golpeia o vazio. — Talvez eu devesse lhe ensinar a ter fé.
Moshe planejou utilizá-lo como refém e ter certa vantagem contra Yatush. Mas o deserto experiencia o inferno. O vermelho tinge o ar. Ao piscar os olhos dourados, presenciou a água evaporar. O segundo soco trouxe a ventania. O terceiro e o quarto elevaram a temperatura. O quinto e último queimou o braço do príncipe deixando o osso a mostra.
— Renda-se ou serei obrigado a desobedecer a minha chefe e realmente te ferir — a pele avermelhada expele vapor. — Não dificulte meu trabalho.
O que foi isso? Ao menos cem metros os distanciam. Como seu braço foi queimado? A areia mais próxima ao agressor foi transformada em líquido translúcido. Que espécie de dom é esse?
— Me perdoe, mas — a pele morta rapidamente foi substituída por uma camada branca sem vida — não desejo participar desse duelo.
Tenta se afastar, é imprescindível mantê-lo longe o suficiente. Seu dom é inútil visto a facilidade com a qual seu perseguidor desfez sua ofensiva. Deve haver um jeito de vencê-lo sem se expor.
Volte…
Covarde…
Mas poderia usar água para retardá-lo. Drenar suas forças. Talvez o corpo tenha um limite para um poder tão destrutivo. Sempre há uma fraqueza.
Então…
Destrua…
Filetes d’água acertam o alvo. Após seu adversário evaporar o excessivo volume d’água, necessita ser eficiente em cada golpe. O sangue escorre sobre a pele misturando-se com o suor. A exaustão já o aflige, era óbvio. A vantagem lhe pertence, basta permanecer afastado e economizar água. Tem metade do cantil para usar.
— Não irei me segurar, minhas ordens são de te levar com vida, não inteiro — o sangue escorrendo na pele escurece e desaparece junto ao suor. — De toda forma, seu demônio aparenta curar suas feridas. Sorte a minha,
Os olhos carmesins revelam a falta de humanidade. Os braços voltam a brilhar intensamente. Os músculos superiores se enrijecem. Porém, dessa vez, ele corre. Sob seus pés, pequenos estalos são audíveis. A areia aquece, funde e se transforma em uma fina película reflexiva.
Elimine…
Fuja…
Foi tolo. É impossível manipular água o suficiente para o impedir. Seria um esforço inútil dada sua demonstração de poder. Como também é fútil qualquer tentativa de fuga. Não com Ainateb presa a si. Ela poderia ser acertada. Na melhor das hipóteses teria um ferimento grave.
Reaja…
As pernas vacilaram por instantes. O corpo implora a covardia, a sobrevivência. O calor insuportável invade a respiração. O suor escorre por todo o corpo. O sangue borbulha. A garganta seca.
— Eu me rendo — a figura impiedosa desacelera.
Covarde…
Cinco metros separam Moshe de seu algoz. O suficiente para queimar a pele. Se retardasse ainda mais a rendição, a máscara de madeira teria sido reduzida a pó. Não há como vencer.
— Que alívio, pensei que seria outro idiota.
A voz banhada em ironia surge do solo. Sem se incomodar com o calor. O homem reptiliano puxa Aftí para fora das areias. Desmaiado, o europhis não possui ferimentos graves. Somente queimaduras. Os olhos em formato de fenda do segundo inimigo, analisam o príncipe.
— É o dono da maior recompensa deste deserto — o sorriso revela presas afiadas. — Deveria se orgulhar.
O metal frio cobriu os pulsos. O príncipe ivrit, o libertador de todo um povo, o homem que derrubará o maior dos impérios está sendo levado para Yatush. Ele, assim como seu povo durante milênios, é forçado a aceitar o destino em silêncio.
Vergonha…
Moshe pela primeira vez se vê acorrentado. Têm dificuldade em encontrar uma posição confortável. Hora são os ombros que doem hora são os braços. Na maioria do tempo, o corpo como um todo implora o descanso.
Fraco…
O passo pesado tem dificuldade em acompanhar os novos donos de sua carne. Aftí continua desmaiado, melhor assim. Desperto, somente sofreria. As queimaduras pioraram e se tornaram lar de grandes bolhas. A culpa pesa nos ombros.
Carne inútil…
Amigo…
Irmão...
A fragilidade física de Ainateb agora afeta a mente. Ela caminha poucos metros atrás, sussurrando. Suspiros carregados de ódio e repulsa. Maldições centenárias dos euqones.
Luz…
Fraca…
Empecilho…
A sua frente somente um camelo com Scyllarus, dono do dom mais destrutivo que experienciou, segura confortavelmente as correntes do trio derrotado. Durante as últimas horas, ser puxado abruptamente foi a única quebra da monotonia.
— Yatush paga mercenários ou…
— Filhos, está no sangue o dom de domar os inaptos — Scincus, como em todas as outras perguntas, responde prontamente. — Não seja tolo de nos prometer riqueza. Nada se compara com os cofres de Ozymandias.
Ozymandias…
Recordar do irmão é banhar-se em memórias sangrentas. Mortes feitas por essas mãos acorrentadas. Talvez a justiça sempre chegue aos culpados, independente de como. Talvez devesse estar contente. Será devidamente julgado. Talvez não tivesse como se redimir.
— Sério que consideravam vocês irmãos próximos? Que idiota — o homem escamoso permanece submerso nas areias, emergindo periodicamente para respirar. — O enganou direitinho, apunhalou todos pelas costas. Tem meu respeito por tal execução. Uma pena ter falhado em matá-lo, se não agora estaria vivendo junto ao seu povo.
Foi graças a esse réptil que descobriu o nome de ambos. Scyllarus, filho mais velho, dono do calor infernal. Scincus, o caçula, dono de escamas reflexivas. A língua bifurcada se solta durante o silêncio.
— Cala… a boca… — Aftí, ainda debilitado, tenta gritar. — Não conhe… cem… Moshe… ele… é o nosso liberta… dor…
Fé…
Penosamente, a voz alcança os raptores. O homem mergulhado nas areias e seu companheiro de braços rubros se entreolham, o silêncio estilhaçou junto às gargalhadas.
— Seu libertador usa grilhões. O demônio que possui o líder de seu povo foi domado por dois qabils — o sorriso largo destaca as presas. — Perdão, mas terão que esperar mais alguns milênios. Escravos.
— Des… gra… çado…
Outro puxão.
— Imbecil, eles devem estar em boas condições — graças a rapidez do tagarela, o ivrit não foi de encontro ao chão.
Scyllarus sorri, uma rara reação. A quietude preenche os passos na caminhada. Não há nada a vista. Somente areia e o céu sem nuvens. A liberdade aparenta estar distante. Infelizmente, seu povo sofrerá com fome por mais um dia.s passos na caminhada.

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