Índice de Capítulo

    Para todos os leitores de O que eu deixei para trás?, passem nos capítulos extras!

    Como eles estão sendo adicionados agora, no bloco após o Volume 2, não tenho certeza se as notificações estão chegando corretamente. Por isso, não esqueçam de dar uma espiada de vez em quando para ver se saiu um capítulo extra novo!

    (E isso vale especialmente para quem já finalizou o segundo volume e está no terceiro agora!)

    Meia hora depois do memorial...

    Louie e Nina seguiam lado a lado para casa, caminhando pelas ruas escuras da cidade.

    A luz dos postes caía sobre o asfalto seco, criando sombras que tremiam conforme os passos avançavam.

    O som distante dos carros atravessava o ar frio, surgindo em um instante, mas sumindo quase que no mesmo.

    A cidade seguia normalmente, completamente indiferente ao turbilhão dentro de Louie.

    Entre um som e outro, nas sombras que surgiam a partir das silhuetas dos irmãos, o silêncio apertava no peito do garoto, sufocando vozes e pensamentos, mesmo os mais simples e sutis.

    Louie continuava caminhando devagar, os olhos baixos, presos no chão que passava rápido sob seus pés.

    O peso da confusão parecia segurar seu corpo, enquanto a cabeça se enchia de ideias que se atropelavam sem nunca chegar a lugar nenhum.

    — “O que foi aquilo…?” — sua mente girava, tentando se prender a alguma explicação. — “Por que… aquela voz me pareceu tão… real?”

    Ele sentiu o coração disparar.

    Sem perceber, os passos começaram a acelerar, tentando acompanhar o ritmo de seu bater interno.

    Cada farol que passava iluminava suas mãos por um instante.

    Perdidas.

    Avulsas sobre o ar.

    — “O que ele disse sobre aquela flor… será que ele se referia a mi-“

    — IRMÃO! — a voz de Nina cortou seu pensamento em um instante.

    Louie piscou, assustado.

    — Tu já passou de casa há um tempão!

    Ele ergueu a cabeça rapidamente, procurando a garota ao lado, mas encontrou apenas o vazio.

    Virou-se e só então viu a silhueta de Nina alguns metros atrás, parada sob a luz fraca de um poste, com uma mão na cintura e a outra acenando.

    — A-ah! Desculpa, Nina, já estou indo! — disse, sem graça, dando meia-volta e caminhando em direção à irmã. — “Vou perguntar pra mãe quando chegar em casa… talvez ela tenha alguma resposta… qualquer uma que seja…”

    Quando finalmente se aproximou dela, os dois voltaram a caminhar lado a lado.

    Nina retomou o passo leve de antes, saltitante, como se o frio não a afetasse tanto quanto deveria.

    Para ela, o mundo ainda era colorido e brilhante, mesmo cercada pela escuridão mais densa.

    Pouco depois, adentraram a casa.

    O interior era convidativo, confortável e quente, o completo oposto da rua no lado de fora.

    O cheiro de comida recém-feita preenchia o ar, envolvendo-os imediatamente.

    Logo na entrada, uma pequena, porém aconchegante, sala se mostrava, com um sofá de três lugares em frente a uma televisão moderna.

    Mais adiante, uma divisória separava a sala da cozinha espaçosa.

    As estantes, cheias de ingredientes, ocupavam as paredes.

    Em frente ao fogão, Emi mexia calmamente a comida dentro de uma panela.

    O vapor subia lentamente, preenchendo o ar com o cheiro agradável do carreteiro.

    — Ah! Louie, Nina, chegaram bem na hora! — gritou a mãe da cozinha. — A comida já está quase pronta!

    Nina parou por um instante, os olhos brilhando.

    — Obaaaa! O que é de comida? — retrucou, animada. — Tô mortaaa de fome!

    Emi sorriu ao ouvir o entusiasmo da filha, um sorriso sincero.

    Continuou mexendo a panela com a colher de pau, mantendo o mesmo ritmo de antes.

    — Vocês demoraram bastante hoje. — comentou, sem virar o rosto. — Já estava ficando preocupada. O frio tá começando a piorar lá fora.

    — É que a gente foi no memorial… — respondeu Nina, largando o tênis perto da porta e indo direto para a cozinha. — Aí o Louie ficou meio viajando de novo.

    Ao chegar na cozinha, Nina ficou encarando a comida, lambendo os beiços.

    Louie parou no meio da sala, sentindo o calor do ambiente pesar ainda mais sobre ele.

    Pelo contrário, fazia a sensação estranha em seu peito parecer ainda mais abafada, espalhando-se pelo corpo como fogo.

    — Eu… bem… — começou, mas a voz saiu baixa demais. — É que ainda é estranho ir lá…

    Emi assentiu levemente.

    — Imagino, meu filho.

    Ela desligou o fogo e pousou a colher com cuidado na pia.

    Só então se virou, apoiando as mãos na bancada.

    O gesto era simples, quase casual, mas carregava uma calma que parecia atravessar a sala.

    Seu olhar voltou rapidamente para Nina, que ficava nas pontas dos pés, com um olhar traiçoeiro, tentando colocar o dedo no carreteiro fervente acima do fogão.

    Sem ao menos virar o corpo, Emi levou a mão até a gola da filha, puxando-a para longe da panela quente.

    — Ei! — Nina reclamou, se debatendo rápido, fazendo careta de tristeza.

    Só depois, seu olhar se voltou completamente para Louie.

    Ao encontrar o rosto baixo do garoto, algo em seus olhos mudou.

    Não foi surpresa.

    Nem medo.

    Foi atenção.

    — Aconteceu alguma coisa? — perguntou, observando cada pequeno movimento dele.

    Nina abriu a boca, mudando rapidamente da careta de tristeza para um estranho ânimo, apesar do susto levado meia hora atrás.

    — Aconteceu sim! Tipo, foi uma loucura total! — ela gesticulou com as mãos, como se replicasse perfeitamente a cena no ar. — Louie me incomodou, daí do nada um clarão azul saiu! Foi tipo pshiiu, boom! E–

    — Nina. — Louie cortou rápido, sentindo o peito apertar. — Deixa… deixa eu falar…

    — Vai então, seu bundão chato! — respondeu ela, fazendo um bico e cruzando os braços.

    Louie respirou fundo.

    — Mãe… — começou devagar. — Hoje, lá no memorial… aconteceu uma coisa estranha comigo.

    Emi não mudou de expressão.

    — Estranha como? — perguntou, simples demais.

    Aquilo incomodou Louie mais do que ele esperava.

    — Eu senti… um calor do nada. — ele fechou a mão instintivamente. — E quando vi… tinha um monte de vozes, depois uma luz azul saindo do meu corpo.

    Ele ergueu a mão direita.

    O silêncio se solidificou na cozinha.

    Louie esperava qualquer coisa.

    Qualquer reação.

    Fosse um susto.

    Um “como assim?”.

    Ou até mesmo um passo para trás.

    Mas nunca cogitou a falta de uma reação…

    Emi apenas observou. Seu olhar era calmo demais, como um lago sem vento, profundo o suficiente para esconder o fundo, não importando quão turbulento ele fosse.

    — E depois disso… — ele continuou, insistindo em receber alguma reação. — Eu fui em um lugar diferente, e ouvi algumas coisas estranhas…

    Nina descruzou os braços, inclinando a cabeça.

    — Tu explica muito mal, irmão. — disse, mais emburrada do que realmente irritada. — Eu teria feito vinte e dez milhões de vezes melhor.

    Emi respirou fundo.

    Por um breve instante, seus ombros pareceram pesar um pouco mais.

    Ainda assim, quando falou, havia um sorriso tranquilo em seu rosto.

    — Vocês dois se machucaram?

    — N-não… — respondeu Louie, confuso.

    — Entendi… então tudo bem. — disse Emi, soltando o ar como se algo tivesse sido retirado de seus ombros.

    — Q-que? Só isso? — escapou dele. — Tu… tu não acha isso estranho?

    Emi negou levemente com a cabeça.

    — Isso não é o que importa agora…

    Ela se afastou da bancada e foi até a geladeira, de costas para ele.

    — Se vocês estão bem, então tá tudo bem.

    O coração de Louie acelerou.

    — Como assim…?

    Ela segurou seu olhar tenso e preocupado contra a geladeira por alguns segundos.

    — “Eu… pensei que ia demorar mais… vou ter que contatá-lo antes do que eu gostaria…” — seu rosto mostrava preocupação, quase irreconhecível comparado à neutralidade de antes.

    Porém, quando se virou novamente e olhou nos olhos do garoto, seus olhos pareciam tão leves quanto uma pena ao vento, e seu sorriso tão resplandecente quanto um sol na noite.

    — Não se preocupe tanto com isso agora. — disse, tentando tranquilizar, mesmo que apenas um pouco, seu filho. — Está na hora de comer. Depois nós falamos sobre isso.

    — M-mas…

    — Louie, confie em mim dessa vez. — A voz da mulher soou firme, apesar da suavidade. — Tudo tem o seu tempo.

    Louie apertou o punho.

    A dúvida o esmagava por dentro, pesada, insistente.

    — Então… tudo bem…

    Assim, a noite caiu sobre a grande cidade.

    E com ela, vieram as incertezas que Louie ainda não sabia nomear.

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