Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.
Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.
Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!
Capítulo extra 3: Regulamento conveniente
LINHA DO TEMPO: Entre o salto de dois meses ocorrido entre os capítulos 39: Começar de Novo e 40: Camélia Branca.
DIA 7 após o capítulo 39
O som seco ecoou pela casa.
— NÃO! NÃO, NÃO, NÃO! — Louie saltou da cadeira, apontando para a mesa. — Tu tá roubando na cara dura!
— Isso se chama estratégia. — Nina cruzou os braços, exibindo um sorriso triunfante.
Aya, ao lado, encarava as próprias cartas, visivelmente perdida.
— Eu ainda não entendi como isso funciona…
— Nem tenta. — passou a mão pelo rosto. — Ela inventa regra nova a cada segundo.
— Eu não invento! — bateu com força na mesa. — Tá no regulamento!
— Regulamento?! Isso é um guardanapo! E tu tá escrevendo nele agora!
A garota terminou de rabiscar e ergueu o papel, indicando uma das linhas com orgulho.
— Regulamento é regulamento.
Aya inclinou a cabeça, pensativa.
— Então… posso jogar um 6 e um 9 juntos porque eles são parecidos?
— NÃO! — respondeu o garoto imediatamente.
— SIM! — rebateu a menina no mesmo instante.
O tensão tomou conta do ambiente, fazendo Aya piscar, confusa.
Nina sustentou o olhar, firme.
— São números diferentes! — Louie apontou para ela. — Não tem motivo pra juntar os dois!
— Tem, sim! — Nina pegou uma das cartas. — Olha: assim é um 6. Se eu virar… pronto. Agora é um 9.
— Isso não faz sentido nenhum! É só um seis de cabeça pra baixo!
— Nada disso. — virou a carta de volta. — Ela é multifuncional.
O menino ficou em silêncio por alguns segundos antes de soltar um suspiro longo.
— Eu vou embora. — Disse, enquanto se levantava.
Mas, Aya, com as bochechas levemente coradas, segurou a manga de sua camisa.
— Fica… acho que tô começando a entender.
“Q-que fofa!”
Engoliu seco.
“Coitada…” — seu olhar desviou por um momento, recaindo sobre a pequena irmã. — “Tá caindo direitinho nas falácias dessa monstra em pele de ovelha.”
Respirou fundo.
— Aya, a Nina tá te enganando. Não tem lógica nenhuma nisso.
— E-eu juro que tem! — ela sorriu. — Se eu ganhar, posso criar uma regra também, né?
O sorriso de Nina se ampliou imediatamente.
— Exatamente!
Louie parou, imóvel.
“Mas não é assim que o jogo funciona…”
Algumas horas depois…
— MAIS RÁPIDO! — a voz de Kael ecoava pela arena.
Sem camisa, Louie estava no chão, em posição de flexão.
— Eu tô tentando! — respondeu, tremendo ao erguer o próprio corpo.
— Tu só fez metade da meta de hoje até agora.
— Porque tu quer me matar!
— Isso se chama treino.
Ao lado dele, Aya mantinha as mãos erguidas, tocando suavemente suas costas expostas. As bochechas estavam coradas, e a respiração, irregular. Gotas de suor deslizavam por sua pele enquanto ela se concentrava, tentando manter o ritmo.
— Ele não tá exagerando tanto assim… — comentou ela.
— NÃO TÁ EXAGERANDO?! — Louie virou o rosto. — Eu to fazendo flexão a mais de três horas sem parar, sem poder usar a superforça, enquanto tu aumenta o meu peso!
— É… talvez seja exagerado mesmo.
› Permite alterar a massa de um alvo sem mudar sua aparência, influenciando peso, impacto, resistência e velocidade. Requer contato físico direto. ‹
• Limite atual de Aya Nafidh: 1 pessoa
[ Alvo atual: Louie Kaede ]
[ Manipulação: aumento no peso do Louie — +3 toneladas ]
— Já foram quantas? Mil? Dez mil?
Kael cruzou os braços.
— Sete mil novecentas e setenta e oito. Pensei em fechar a cota de hoje em dez mil, mas, pelo tanto que tu tá gritando, dá pra ir até vinte mil.
— Se me deixar usar a superforç—
— Não. É melhor aumentar tua força base. Depois, o poder Kaelum multiplica isso exponencialmente.
— Ahhhhhhh! Então é impossível!
— Não é.
Aya segurou o riso.
— Louie… tua postura tá errada na descida…
— Errado é eu existir!
Kael soltou o ar sutilmente.
— Levanta.
Louie obedeceu, cambaleando.
— Por hoje chega.
— FINALMENTE! — gritou o garoto.
— Ainda bem… já tava ficando cansada de manter a manipulação de massa por tanto tempo… — comentou Aya.
— Certo, estão liberados. — murmurou Kael. — Ah, antes de qualquer coisa, Louie…
— Hm?
— Vai tomar um banho. Tu tá fedendo.
— Ahhh, seu velho cadu—
Antes que terminasse, Kael acertou um cascudo direto na cabeça dele, cravando-o no chão.
— Tenta me chamar disso de novo… — disse o comandante, suspirando enquanto batia as mãos uma na outra.
Aya não segurou.
— Hahahahahaha!
Louie tentou se levantar, mas desabou outra vez.
— Eu desisto da vida… — a voz saiu abafada contra o chão. — pode ir sem mim, Aya… acho que vou morrer aqui… só— coff, coff — diz pra Emi e pra Nina que eu amo elas… adeus…
Fim de tarde.
A casa estava tranquila, com o cheiro de comida preenchendo o ambiente.
— Não encosta. — disse Emi, sem nem olhar.
Louie congelou, a mão a centímetros da panela.
— Eu nem ia pegar nada.
— Ia sim.
— Como tu pode ter tanta certeza?
— Eu te conheço.
Ele ficou em silêncio. Então, lentamente, aproximou os dedos da panela. Até que—
TOC.
Uma colher bateu na mão dele.
— Aí!
— Eu avisei.
Aya, sentada na bancada, observava a cena com um sorriso discreto.
— Tu sempre apanha assim?
— Sempre. — Louie cruzou os braços. — A vida é injusta. A Nina faz a mesma coisa e nunca é agredida assim.
Nina entrou correndo.
— Ouvi meu nome?!
— Falando no capeta… — suspirou o garoto.
— Ei! Não sou capeta nada, seu bundão! Bleee — mostrou a língua. — Mãe! Tem sobremesa?!
— Tem. — respondeu Emi.
— O que é?!
— Torta de bolacha.
— EU AMO ESSA CASA!
— Tu só ama quando as coisas te convém.
— Isso vale só pra ti, maninho.
Aya deixou escapar uma risada leve e, por um instante, ficou apenas observando aquilo. O barulho, a bagunça, a sensação… era confortável.
Noite.
A casa estava em uma situação raríssima: silenciosa.
Louie estava deitado na cama, encarando o teto. Virou o rosto de um lado para o outro, sem conseguir dormir.
A porta do quarto permanecia entreaberta, deixando passar uma luz suave do corredor, junto de vozes baixas, Nina rindo, Aya comentando algo e Emi respondendo de vez em quando.
Ele fechou os olhos por um instante.
“…”
Alguns segundos depois, levantou-se e foi até a porta, abrindo-a um pouco mais. No corredor, Aya estava sentada no chão com Nina. As duas riam tranquilamente.
— NÃO, isso não vale! — protestou a menor.
— Mas eu fiz! — retrucou Aya, rindo.
— Isso é trapaça!
— Foi uma regra que tu mesma criou!
— Ah… é verdade.
Louie se apoiou no batente, observando em silêncio.
Até que Aya percebeu.
— Louie? — chamou.
Ele piscou, pego de surpresa.
— Hã? Ah… eu só… ia beber água.
— Mentira. — Nina respondeu na hora.
— Não é mentira!
— Tu tá aí parado olhando faz uns dez segundos.
Aya inclinou a cabeça, curiosa.
Louie coçou a nuca.
— Eu só… tava vendo vocês.
— Admirando a nossa beleza, né? — Nina provocou.
— Não foi isso que eu disse!
Ela riu.
— Então o que é?
Louie hesitou. Um, dois, três segundos. Olhou para as duas, mas logo desviou de novo.
— Nada… só tô cansado. Acho que até cochilei em pé.
Aya sorriu de leve.
— Imagino… às vezes um clima tranquilo assim acalma a mente.
A menina se levantou.
— Não acho que seja isso não, Aya. Meu irmão só é meio paranoico mesmo.
— Ei!
— A carapuça serviu?
— N-não. Chata.
— Feio.
— Mimada.
— IRMÃO HORRÍVEL!
Aya começou a rir, e, dessa vez, Louie também, sem perceber.
“É…”
Ele olhou ao redor.
A casa. As vozes. A luz suave no corredor.
“Talvez…”
Um pequeno sorriso surgiu no rosto dele.
“Talvez dê pra se acostumar com isso.”

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