Para todos os leitores de O que eu deixei para trás?, passem nos capítulos extras!
Como eles estão sendo adicionados agora, no bloco após o Volume 2, não tenho certeza se as notificações estão chegando corretamente. Por isso, não esqueçam de dar uma espiada de vez em quando para ver se saiu um capítulo extra novo!
(E isso vale especialmente para quem já finalizou o segundo volume e está no terceiro agora!)
Capítulo 53: Pressagio de Calamifer
A nave começou a desacelerar.
O rugido constante dos motores se dissolveu em um zumbido controlado, vibrando suavemente pelas estruturas cristalinas ao redor.
Louie manteve firme, enquanto a cidade crescia a cada segundo.
Torres gigantescas de gelo refletiam luzes brancas em todas as direções, enquanto passarelas suspensas se estendiam entre elas como teias delicadas sobre o vazio.
— Segurem firme. — murmurou Vidar.
A nave inclinou levemente.
À frente, um anel metálico se abriu na lateral de uma das plataformas flutuantes, revelando um hangar amplo, banhado por uma luz branca intensa.
Eles avançaram direto para dentro.
Assim que cruzaram a entrada, a porta se fechou atrás deles com um estrondo pesado que reverberou por toda a estrutura.
Então, finalmente, a nave pousou.
— Chegamos. — disse Vidar, soltando o cinto com um clique seco.
Akun já estava de pé, mas, diferente de antes, não havia qualquer sorriso em seu rosto.
— Ei, pirralho — chamou, sem encarar Louie diretamente. — A partir daqui, tenta não fazer merda. Tô falando pro teu próprio bem.
Louie deu de ombros, fingindo indiferença.
— Relaxa. Eu sei exatamente quando não fazer merda.
Akun soltou uma risada curta, levando a mão à cabeça e acariciando distraidamente os cabelos loiros desbotados.
— Sei. Ah, tem mais uma coisa que não comentei antes. Esse aparelho na tua orelha é o que te faz entender a nossa língua.
Ele apontou para o próprio dispositivo, idêntico ao de Louie.
— Então nem pensa em tirar isso.
— Certo… — o garoto tocou com as pontas dos dedos no ouvido. — “Incrível… as vozes deles soam tão vivas que nem percebi que estavam sendo traduzidas. Será que Áurea também tem algo assim?”
A porta da nave se abriu com um deslize mecânico, fazendo o ar gelado invadir o interior de uma única vez.
Louie recebeu o impacto imediatamente. Era mais frio do que qualquer coisa que ele já tinha sentido antes.
Do lado de fora, eles já estavam esperando.
Quatro figuras alinhadas lado a lado, imóveis.
Vestiam mantos longos, brancos como neve, com detalhes dourados discretos e o símbolo de Vallheim Vestrak marcado no peito.
Olhavam diretamente para o garoto.
O homem no centro deu um passo à frente.
Seu rosto estava parcialmente coberto por uma máscara translúcida de gelo, deixando visíveis apenas seus olhos enigmáticos.
Sem pressa, ele lançou uma algema estranha aos pés do menino.
— Louie Kaede — disse, a voz levemente distorcida. — Você está oficialmente sob custódia de Vallheim Vestrak.
Nenhum dos presentes ousou reagir.
— Custódia, é…? — murmurou o garoto, abaixando-se para pegar a algema.
— A Vigia e os conselheiros estão à sua espera no Núcleo de Julgamento — continuou, ignorando a reação. — Todas as decisões sobre você serão tomadas lá.
Akun cruzou os braços.
— Dá pra acelerar isso aí? — o loiro levou o mindinho com desleixo até a orelha, coçando-a. — Não sou pago pra ficar vendo seu draminha e frases de efeito.
O pescoço do homem mascarado se virou lentamente até ele.
A tensão que se seguiu foi pesada o suficiente para calar qualquer um, incluindo o próprio Akun.
— Sua função termina aqui, Akun Veritas — disse em tom neutro. — Recomendo que não ultrapasse os limites da sua autoridade.
Ele ergueu as mãos teatralmente, fingindo rendição.
— Tsk. — o mascarado estalou a língua. — Peguem-no logo.
Os dois guardas avançaram. Mas, no instante em que seus olhos encontraram os de Louie, hesitaram.
— Q-que? — murmurou um deles, visivelmente abalado.
— Algum problema, senhores? — Louie exibiu um pequeno sorriso.
Mas permaneceu imóvel. Sabia bem o motivo daquela reação. Afinal, não era a primeira vez, e provavelmente não seria a última.
— N-nada — disse o outro, tentando manter a postura, mesmo com a voz falhando. — Por favor… acompanhe-nos.
Seus dedos se fecharam devagar ao redor da algema.
“Então é assim.”
Ele respirou fundo antes de dar o primeiro passo para fora da nave. O chão de cristal sob seus pés era escorregadio, mas ignorou isso e ergueu a cabeça para os quatro estranhos à sua espera.
“Bom…”
O sorriso fraco se manteve em seu rosto.
“Veremos o que esse julgamento tem a oferecer.”
Ao longe, o templo central se erguia acima de tudo, como se o observasse durante todo o percurso até a tão aguardada audiência.
A marcha começou sem aviso. Os guardas tomaram à frente, enquanto Louie caminhava atrás, tranquilo, sem resistência. Akun, Vidar e os outros dois máscarados vinham logo depois.
O vento frio cortava as passarelas suspensas, serpenteando entre torres cristalinas, misturado aos olhares pesados dos habitantes da cidade flutuante.
Ao longo do trajeto, mais figuras surgiam. Algumas paravam, tomadas pela curiosidade. Outras apenas o seguiam à distância.
Ainda assim, todas, sem exceção, o julgavam.
O tempo avançava de forma incerta. Aquele clima, ao qual não estava acostumado, começava a entorpecer seus sentidos.
Minutos, talvez horas, haviam se passado. Era impossível afirmar com precisão, quando cada passo parecia pesar sob a constante sensação de estar sendo observado por todos ao redor.
Então, o templo surgiu à vista.
À medida que se aproximavam, não apenas se tornava maior, mas dominava o horizonte, esmagando qualquer outra construção com sua presença imponente.
Louie relaxou brevemente os ombros, afrouxando a pressão das algemas.
“Que gigantesco. Acho que quem mandou construir isso aqui tava tentando compensar a falta de alguma coisa…”
Uma risada breve e sincera escapou, mas foi imediatamente interrompida por um puxão brusco do guarda.
— Silêncio.
Enfim, haviam chegado.
As enormes portas se erguiam à frente, imponentes como um colosso, altas o suficiente para fazer qualquer um se sentir insignificante. Eram feitas de um material translúcido, semelhante ao gelo, porém mais denso e antigo, como se tivesse sido esculpido a partir de algo que não pertencia àquele mundo.
O grupo avançava com firmeza, mesmo diante da imponência da construção.
Ao se aproximarem, as portas começaram a se mover. Não houve toque nem comando; ainda assim, abriram-se lentamente, sem emitir qualquer som.
“Pelo visto, chegamos.” — o foco dele permanecia à frente.
Assim que cruzaram o limiar, o ambiente mudou por completo. O frio constante do exterior deu lugar a uma onda de calor agradável, em contraste com a tensão que pairava no ar.
O interior era vasto. Uma imensa galeria, sustentada por pilares altos e esguios que se ramificavam no topo como galhos congelados, formando uma cúpula perfeita. Do teto, a luz azulada filtrada pelos vitrais descia suavemente, banhando todo o espaço.
Ao centro, um caminho se revelava: uma trilha reta, levemente elevada, cortando o salão como uma lâmina.
— Continuem — ordenou o homem mascarado, sem olhar para trás.
Seguiram adiante. Quanto mais avançavam, mais figuras revelavam-se nas laterais, imóveis.
Vestiam mantos semelhantes aos dos guardas. Alguns exibiam o rosto por completo; outros o ocultavam parcialmente sob máscaras.
Ainda assim, todos compartilhavam algo em comum: as pupilas cravadas em Louie.
O som dos passos ecoava com mais intensidade, ou talvez fosse a calmaria ao redor que tornava o eco impossível de ignorar.
— Se quiserem, eu posso acenar também — murmurou Louie, com um sorriso debochado.
Ninguém respondeu. Nem mesmo Akun, o que por si só já dizia muito.
Ao fim do corredor, a passagem se abriu, revelando um espaço circular muito mais amplo que o restante da sala. Era o coração daquele lugar, o Núcleo de Julgamento.
Degraus largos desciam em forma de arena, formando anéis ao redor de um centro vazio. No ponto mais alto, estruturas elevadas se projetavam como arquibancadas esculpidas na própria pedra, ocupadas por poucos figurões da elite, imersos em um murmúrio contínuo, como uma assembleia de observadores e juízes.
No centro, erguia-se apenas uma construção: uma plataforma elevada, lisa e perfeitamente circular. Atrás dela, uma passagem avançava, cortando os anéis.
Até que, sem aviso, o grande sino gemeu.
DOOOOONG…
— Atenção! Saúdem a Vigia, que agora adentra o recinto. — a voz de um homem alto, postado ao lado da passarela, dominou o espaço.
Quando o último eco se dissipou, todos começaram a se ajoelhar diante da plataforma central.
“Quem é essa Vigia pra todo mundo se curvar assim do nada?” — Louie fitou o ambiente, atônito.
Akun surgiu ao seu lado no instante seguinte e, sem qualquer delicadeza, pressionou sua cabeça para baixo, forçando-o a se inclinar.
— Aiiii… — deixou escapar um protesto tão baixo quanto um sussurro.
— Não reclama e se curva logo. — a expressão dele era séria, afiada como uma faca.
— Certo, certo… — aceitou, com a birra estampada no rosto.
O murmúrio cessou quando pisadas lentas e firmes passaram a ecoar pela passagem atrás da plataforma, preenchendo o ambiente com uma presença que dispensava explicações.
A figura surgiu gradualmente, envolta pela luz fria que banhava o salão.
Era uma garota.
Vestia um longo traje branco, leve, que se estendia até o chão. Os cabelos, extensos e prateados como neve, escorriam pelas costas em fios delicados, enquanto os olhos azul-celestes carregavam uma serenidade inquietante.
Louie ergueu ligeiramente o rosto, ainda contido na reverência, e por um instante esqueceu completamente onde estava.
“O-o quê?”
A mente demorou a alcançar o que os olhos registravam.
“Que linda… ela é a Vigia? Parece ter a minha idade, ou até menos.”
A garota caminhou até o centro da plataforma e então parou. Sem pressa, ela ergueu as pálpebras e encontrou o olhar dele.
Louie travou. Não foi um simples encontro de olhos. Havia profundidade demais naquele ínfimo lapso, como se ela enxergasse uma versão dele que não existia. Pelo menos, ainda não.
O homem ao lado do círculo suspenso avançou um passo, sua voz alta vibrando por todo o salão.
— Agora daremos início ao julgamento do Oriundo da Morte: Louie Kaede, pelo possível envolvimento futuro com aquele que trará a calamidade final ao mundo… Calamifer.


Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.