Capítulo 78 - Ser e Não Ser
Envolvidos pelo domo do alquimista, o caos do ambiente externo deixa de existir. Os vendavais, as folhas gigantes, o odor da floresta, qualquer resquício de Yothergran desaparece. Olhando os arredores, Raisel reconhece imediatamente a nova paisagem:
一 Você… nos teletransportou pra Sala Branca na base? 一 com o cenho tenso, uma gota de suor escorre na lateral de seu rosto.
一 Não. Isso é alquimia interna. 一 retirando as mãos do chão, Kimich se levanta enquanto bate as palmas sobre as vestes.
一 Mas é praticamente o mesmo vazio. 一 observando os próprios pés, ele nota que não há nem mesmo sombra.
一 A Sala Branca é um projeto do meu pai, mas não tô afim de falar sobre isso. Só descansem.
Em um estalar de dedos, todo o espaço se modifica em relevos esbranquiçados. Essas perturbações começam a tomar forma, moldando-se em móveis, paredes, quartos e um corredor. É como se fosse o segundo andar de uma pousada enquanto o centro, onde estão, fica para se encontrarem rumo à saída: uma porta completamente branca.
一 Eu vou avisar assim que os ventos pararem um pouco. 一 o loiro então passa a sentar-se sobre o sofá central.
一 Kimi, vou deitar um pouco. Você deveria descansar, Jeanice. 一 Tejin a encara de soslaio, notando seus ombros rígidos e pernas trêmulas .
一 Tudo bem… 一 num suspiro, a meia-elfa toma rumo para o quarto ao lado do homem.
Entrando em seus respectivos quartos, sobram apenas Raisel e o alquimista na sala. O espadachim retira a bainha da cintura e a escora no chão para se sentar ao lado do companheiro.
一 Não vai descansar? 一 procurando alguma coisa no sobretudo branco, Kimich retira uma espécie de cantil.
一 Tô inteiro ainda. 一 o garoto faz o mesmo, mas pega algo como uma barra de cereal.
Sob o calor desse espaço gerado, o loiro escora as costas e bebe um pouco da bebida. Ao lado, Raisel direciona o olhar para a mesinha central enquanto mastiga a ração.
一 Você disse que o vovô salvou sua vida… Como foi? 一 ainda com os olhos fixos na mesa, ele parece estar com a visão em outro lugar.
Antes de responder, Kimi o encara de soslaio e dá um gole cheio no cantil. Escorando o recipiente na coxa, as pálpebras caem um pouco enquanto também visualiza algo além…
一 O Yurgen era um herói pra mim. Eu não aprendi alquimia porque eu gostava e ele foi o único a perceber isso. Ele me tirou daquele lugar horrível e me mostrou o mundo através das suas viagens… Até que… a Sarina engravidou e o Olga nasceu. 一 entre suspiros dolorosos, as memórias daquela época não voltariam jamais.
一 Quando eu vi o Olga nos braços da Sarina, eu jurei para mim mesmo proteger a sua família como se fosse minha. Mas a Sarina adoeceu… e o resto você… já sabe. 一 leva o bico até os lábios para molhar um pouco a boca.
O silêncio consome o lugar. Em um gesto simples de dedo, uma lareira surge para eles.
一 Sinto falta do irmão Olga… Queria poder encontrá-lo. Porque mesmo que ele odiasse o próprio pai, ele precisa saber que o vovô morreu. 一 a última mordida no cereal esconde o seu semblante lacrimejante. Raisel não se permite chorar. Não de novo.
Encarando-o diretamente, Kimich volta a observar as chamas da lareira. Sua íris castanha parece ser consumida pelo fogo, assim como a madeira de uma floresta. Entre os estalos e o cheiro de baunilha no ambiente, os olhos dele se fecham.
Alguém bate na porta de madeira dupla. Empurrando-a com as duas mãos, Kimich adentrou na Sala de Reuniões na Base Temporária dos Selvagens.
一 Yolina, o que a Lebre me disse é verdade? 一 as sobrancelhas loiras tensionadas e o maxilar apertado, ele encara a senhora sentada sobre o globo rosa.
一 Sim… Alexander, o seu pai, está vivo. 一 sem vê-lo diretamente, a anciã o responde de maneira seca.
一 Como?! Eu tenho certeza de que ele morreu na expedição feita pela Estandarte dos Alaric! Eu vi ele sendo cortado até virar pó pelas lâminas fantasmas! 一 em berros, o rapaz balança o braço destro fortemente em negação.
A porta dupla se fecha bruscamente.
一 Se acalme, Kimich… Não sei ainda como ele sobreviveu, mas eu tenho certeza de que ele está vivo. Ele é o único capaz de remodelar Pessoas, além de Valdrien, com a Alquimia. Você sabe bem disso. 一 encarando-o de soslaio, os olhos afiados da velha se abrem brevemente.
Mas a afirmação dela apenas fez a fúria do loiro subir.
一 Tsc… Mesmo sendo questionável pela sua busca pela Eternidade, ele não faria tamanha atrocidade… Colocar uma multidão de pessoas para serem consumidas e fazer um Receptáculo de um Demônio…? Isso é muito baixo… 一 apertando os próprios punhos, o sangue respinga algumas vezes no chão.
一 Eu sei, mas é a realidade. Meu chute é que Balmund o trouxe a vida e está em posse do seu cadáver. Devemos muito a Alexander por ter ajudado a fazer nossas Bases e, principalmente, pela Titânia. Por isso, você–
一 Eu recuso. Não preciso jurar lealdade ou ser um peão seu pra destruir esses malditos… Até porque, você é tão suja quanto eles. 一 dando meia-volta, Kimich sequer passa pela porta e desaparece como um fantasma.
Abaixando levemente a cabeça, Yolina suspira.
一 Pantera, deixo com você a missão de monitorá-lo.
Dentro da sombra da senhora, um fluxo negro se desprende e desaparece na escuridão do cômodo.
一 491… 492… 493… 一 em sussurros, a voz sussurrante de alguém invade a audição do alquimista.
Abrindo os olhos castanhos lentamente, o loiro sente que a turbulência do lado de fora parou. Além disso, a contagem vem a fisgar sua atenção. Ao lado, Raisel está fazendo flexões de braço enquanto planta bananeira.
一 Parou. A tempestade parou… Você chama os outros, Raisel? Ainda tô meio bêbado… 一 com as sobrancelhas levantadas, o físico do garoto melhorou consideravelmente.
一 Posso… Falta mais cinco… Espera um pouco… 一 não interrompe o exercício mesmo para respondê-lo.
É hora de seguir em frente.

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