Capítulo 117 - A Segunda Camada
一 E qual vai ser o seu plano pra curar ela, Ray? 一 de braços cruzados, Zairom se vira para o outro enquanto desfaz o sorriso para manter uma postura mais séria.
O menino volta a encarar a desconhecida em seus braços ao pensar nas maneiras em que pode ajudá-la. No fim, acaba suspirando e olhando de volta para o elfo.
一 Um daqueles Ramos de Gaia deve ser o suficiente pra esses machucados dela, né?
Com a pergunta, os ombros do homem de cabelo branco murcham e suas mãos reviram o interior das vestimentas largas. Pouco depois, uma única semente marrom está entre seus dedos.
“Você passou no teste” 一 Ótimo, mas primeiro temos que achar um lugar para ela não ser atacada. Os Ramos são uma boa fonte de recuperação, mas seu defeito é restringir totalmente o paciente 一 a semente é esmagada no punho e o elfo começa a caminhar para se afastar.
Apontando o dedo indicador em direção ao chão, um Rascunho de cor amarelo-pastel surge. Ao soltá-lo, uma cratera espaçosa o suficiente é aberta para colocá-la ali. Mas, em seguida, os lábios de Zairom sussurram:
一 Langsame Blume…
O círculo mágico se desfaz em incontáveis pétalas brancas de tulipas, envolvendo a cratera até os céus e desacelerando a grama, os insetos e tudo o que entrou em contato com a barreira até o momento da ativação e posterior.
一 Solte ela aí com cuidado.
Sem demora, Raisel se ergue com ela nos braços e, gentilmente, se inclina para deixá-la descansando e se recuperando no local protegido.
Assim que Zairom solta a semente, a garota de elmo e cachecol alto de malha, é enrolada pelas vinhas e galhos dos Ramos de Gaia. Dessa maneira, o elfo estala os dedos e o buraco se fecha sob o domínio do seu Gewissen.
一 O Sábio e o Tejin conseguem fazer algo parecido, de mexer o ambiente com a própria energia… Parece ser bem útil 一 interessado nesta técnica, o humano volta a caminhar até o seu pássaro-montaria.
一 É só praticar. O Gewissen atende aos seus desejos e intenções. Por mais que seja difícil sua mente esvaziar e concentrar seu espírito naquilo, qualquer um é capaz de fazer desde que saiba dominar a si mesmo 一 montando na sua ave, o homem balança as rédeas para partir 一 Pronto?
Ainda pensativo, acaba demorando uns instantes para responder 一 Pronto!
Através de um gesto com a mão esquerda como se soltasse algo para cima, o pássaro de Zairom flexiona as patas ao comprimi-las como molas e salta com enorme potência. Os olhos do humano esbugalham com a cena, mas acaba repetindo o mesmo gestual e ambos planam lado a lado até começarem a voar de fato.
一 Nunca vi um pássaro pular tão alto na minha vida! 一 aos risos, Raisel encara o companheiro que também cai na gargalhada.
一 Essa espécie de Ptactvo se chama Propojka, mas existem outros com características mais específicas… Você provavelmente vai conhecer vários tipos conforme viaja por aqui 一 sorridente, o rapaz segura as rédeas com apenas uma das mãos enquanto sente a brisa bater sobre o seu rosto.
一 Os animais daqui são muito diferente dos monstros e animais de Balmund. É por causa da qualidade dos recursos, será? 一 as duas mãos seguram firmemente as rédeas e o vento ainda incomoda um pouco seus olhos.
一 Um dos principais motivos deve ser esse, mas com certeza existem outros… 一 os ombros de Zairom sobem e descem por um instante.
一 Pensei que vocês soubessem mais de história por viverem tanto, ainda mais do lugar em que moram 一 uma das sobrancelhas de Raisel se contorcem ao estranhar isso.
一 A maior parte dos pergaminhos e registros históricos foram trancados na Biblioteca Kollum e só entra lá quem for digno aos olhos do atual Imperador 一 o semblante apenas curte o horizonte do fim da manhã.
Por outro lado, Raisel ouve tudo aquilo em silêncio e passa a observar a paisagem junto do companheiro.
“O vovô dizia que a informação é a arma mais poderosa do mundo… Tirar isso do seu próprio povo é bem… questionável. Deve ser por isso que tudo aqui parece tão… estagnado? É, acho que essa é palavra certa” 一 com um pouco de pena pelo caso de Zairom, Raisel pesa o olhar contra a nuca do Ptactvo por um instante.
…
O céu, antes completamente limpo, toma manchas brancas em sua linda imensidão azul. O sol ainda raia, mas com obstruções momentâneas e relaxantes.
Há alguns quilômetros, o sobressalto do Portão de Acesso para a próxima camada pode ser visto. A área não possuí árvores ou muito menos grama, sendo um piso de metal lustroso e pedras polidas esbranquiçadas em sua decoração. Como o grande chamariz disso tudo, está o enorme portão que possui facilmente cerca de dez metros de altura e cinco de largura.
Descendo aos poucos, a dupla eventualmente pousa na margem da plataforma.
一 Pensei que houvessem seguranças ou guardas… mas não tem ninguém 一 observando os arredores enquanto puxa o Ptactvo pelas rédeas, Raisel passa a fitar as costas de Zairom.
Mas, escutando aquilo, o elfo apenas ri brevemente.
一 Relaxa, você ainda vai ver uma coisa que vai gostar.
Criando certas expectativas, o garoto respira fundo e acelera um pouco o passo.
Ao chegar no meio dessa plataforma, Zairom cessa a caminhada e passa a encarar o portão. Na beirada do piso, de onde vieram, inúmeras runas começam a subir em um tom dourado e os aprisionam ali dentro, eventualmente dobrando-se em um teto feito inteiramente dessa energia.
“Essa energia… se parece com a minha!” 一 sem entender nada, ele não sabe para onde olhar, mas um barulho sutil e grave a alguns metros crava a sua atenção.
O próprio portão emana essa luz áurea de suas dobras e quinas, abrindo-se brevemente para que alguém pudesse passar. Desse aglomerado de Gewissen massivo vindo da fresta do portão, uma forma humanoide ganha pele, carne e osso; transformando-se em uma mulher loira e olhos que não possuem pupila. Ela não veste nada, mas nenhum mamilo ou parte de sua genitália surge em seu corpo feminino.
一 É uma deusa?! 一 a cabeça do rapaz quase salta para frente através dos seus olhos arregalados.
一 Claro que não. Não existem deuses, seu esquisito… A gente chama essa daí de Malydanu, é uma espécie de… gerente do Portão 一 encarando o garoto de soslaio, Zairom volta a encarar a entidade à frente.
一 Apresente-se 一 a voz dela claramente é de alguma coisa não viva. Não sai apenas uma única voz, mas diversas sobrepostas uma as outras como múltiplas pessoas falando ao mesmo tempo.
一 Sou o Zairom Thikanin. Um Patrulheiro do Terceiro Campanário e estou fazendo a escolta de um meio-elfo até levá-lo a Casa Thinkanin, onde ele realizará o teste para a Licença de Viajante 一 abrindo as vestimentas, ele demonstra a insígnia de tulipa acoplada no interior do seu tecido.
Em silêncio, Malydanu encara o distintivo que começa a brilhar sobre a presença dourada. Logo, Zairom o esconde dentro das roupas novamente.
一 Apresente-se 一 o rosto dela está direcionado a Raisel.
一 Meu nome é Raisel… Sou um meio-elfo que veio de Kanthen. Quero ter a Licença de Viajante para visitar vários… lugares 一 durante a fala, a entidade aponta o palmo em direção ao menino.
Em um piscar de olhos, a luz áurea de seu corpo entra em contato com o dourado sobre a íris do garoto. Incontáveis runas são emitidas sobre o feixe fino, como se os dados dele estivessem sendo repassados para ela.
一 Registro feito. Contatando o atual Kral sobre a presença de um indivíduo com Gluhen Puro e Beisen Puro 一 a outra mão de Malydanu é direcionada ao portal, transmitindo as runas absorvidas para ele.
Ao ouvir aquilo, os olhos de Zairom se abrem minimamente e um sorriso é formado na lateral dos seus lábios.
一 Meu amigo, é bom você se preparar… 一 com o canto dos olhos, ele fita o humano enquanto um suor escorre da lateral de seus lábios.
Ainda sem conseguir enxergar direito, a vista de Raisel retorna aos poucos.
一 Quem é Kral?! 一 coçando os olhos, ele pisca algumas vezes até se fixar no horizonte à frente.
Com uma magnitude colossal, diversas estruturas geométricas de mármore ao fundo, árvores repletas de frutos e gigantes feitos inteiramente de raízes caminham. Os pássaros parecem pequenos pontos e o caminho está bem envolvido com terra vermelha, grama verde e flores, como tulipas brancas, cravos amarelos, rosas carmesim e galhos dourados.
一 É o atual… Imperador 一 complementa Zairom.

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