Capítulo 114 - O Pensamento Stilte
Perdido em um breu absoluto, o ambiente totalmente apagado soa bastante familiar. Olhando as próprias mãos, Raisel está de pé e como veio ao mundo nas águas rasas desse lugar.
“Aqui é o meu interior? Bom, acho uma parte dele” 一 passando a fitar o horizonte, ele vê algo que chama a sua atenção.
Aproximando-se daquilo, o frio desse espaço já não o afeta mais. A sua silhueta coberta em um véu dourado é a única coisa que brilha ali. Logo, mesmo na vastidão das trevas, ainda há uma luz remanescente.
一 Já faz um tempo… Leraje 一 de frente para a esfera completamente negra, ela começa a se moldar em uma aparência humanoide 一 Por que me trouxe pra cá?
一 Você não ache que um mero Circuito será capaz de me parar caso eu tente tomar o seu corpo, não é? 一 a voz serrilhada permeia os tímpanos causando uma sensação de atrito como uma pedra desenhando sobre outra ainda mais áspera.
一 Não precisa pagar de poderoso. Eu sei as restrições que você tem e quais são suas liberdades agora 一 com um sorriso de canto, o menino cruza os braços e continua a falar 一 Mas não se preocupa, eu ainda vou caçar os Contratantes de Demônio que eu encontrar. Já que isso deve servir para diminuir o mal de onde eu passar.
As palavras do humano fazem Leraje engolir a própria voz, substituindo-a por uma espécie de sorriso distorcido no seu formato imperfeito de humanoide sombrio.
一 Você superestima demais a sua sorte. Mas se é assim que quer, aceitarei pacientemente e calado até o dia em que virá até mim por conta própria, pirralho. Sem seu Beisen, você não passa de um garoto com um brilho um pouco mais ofuscante, chato e principalmente… fraco 一 uma risada estridente como aço sendo serrilhado explode para os arredores
No ensurdecer da alma, os olhos de Raisel se abrem e deparam-se com o teto esbranquiçado de um cômodo desconhecido. Ao tentar se mexer, nota que seu corpo está quase inteiro envolvido por vinhas, raízes e folhas.
“Isso… era pra ser atadura?s Parece mais que vão me tacar numa caneca e fazer um chá…” 一 escorre uma gota de suor do seu rosto junto de um suspiro de alívio 一 “Pelo menos não morri.”
Uma fenda luminosa laranja surge em uma das paredes. De lá, o elfo de cabelos brancos com pontas douradas e roupas largas aparece, aproximando-se do humano em repouso.
一 Então seu nome é Raisel. O que você fez contra a Mestra foi bem impressionante… pelo menos para os outros 一 mantendo os dois pulsos para trás na altura da cintura, o homem permanece ao lado da cama com seu mesmo sorriso singelo de olhos e lábios.
一 E você é… o Zairom, né? Por quanto tempo eu fiquei desacordado? 一 ainda ouvindo alguns zunidos e com a vista levemente atordoada, o garoto passa a concentrar suas forças na restauração dos seus machucados.
一 Você passou dois dias apagados e, só complementando, meu nome é Zairom Thinkanin e quem vai viajar com você de agora em diante 一 o dedo indicador de uma das mãos permanece apontando para cima.
“Dois dias…? É, eu tava no limite mesmo. Até que foi pouco tempo…E por que ele tá tão animado?” 一 Viajar comigo? 一 encarando o outro diretamente, uma das sobrancelhas vem a se abaixar.
一 Isso! Você vai vir comigo até a Casa Thinkanin para conhecer a atual Matriarca e obter sua Licença de Viajante com ela 一 mostrando a parte interior de uma das suas vestimentas, Zairom revela uma espécie de insígnia de ouro com a imagem de uma tulipa desabrochando.
“Licença de Viajante… O vovô nunca tinha me falado sobre isso. Talvez nem mesmo ele tenha ido tão profundo nesse território.” 一 Entendi… Vamos partir quando?
一 Amanhã. Seus ferimentos internos e externos já foram curados pelos Ramos de Gaia, mas é bom sermos cautelosos por ser a primeira vez que você passa por esse procedimento 一 ao encostar a palma sobre essas ataduras naturais, elas brilham em diversas runas e se recolhem em três sementes.
一 Tudo bem… Onde o senhor Azlam está? Preciso conversar com ele… 一 com as pernas suspensas na beirada da cama, Raisel estala quase todo o corpo ao por uma das palmas sobre a nuca.
一 O Sábio… já foi embora 一 virando-se e indo em direção a parede, Zairom não encara o menino diretamente, mas o fita de soslaio.
Ouvindo aquilo, um sorriso junto de um suspiro florescem como parte de sua reação.
“É bem a cara dele sair sem se despedir… elfo louco.” 一 Onde estão minhas manoplas e meu sabre? Senti e vi algumas lascas sendo tiradas deles durante a luta 一 ele se levanta, mas recebe a ajuda do outro para caminhar.
一 Sendo sincero com você, a confecção humana é bem diferente da nossa. A Ferihylis inspecionou, mas disse que não consegue arrumar… Então muito provavelmente nenhum de nós consegue. Eles estão na ala Scientia, caso queira ver com os próprios olhos 一 o humano se apoia na mão de Zairom, sendo guiado com sutileza.
一 Depois eu passo lá.. Tô precisando mais é de comida e água… 一 o estômago do menino emite um barulho quase como o de um leão rugindo.
一 Haha…~ Vou te levar no refeitório, mas antes, você precisa vestir roupas novas 一 tocando a parede com uma das palmas, a fenda laranja se abre novamente para o clarão os engolir.
O cantarolar sinfônico dos insetos e animais ocupa até mesmo o espaço interno do Campanário. Através do gongo vindo do alto, do sino inaudível para outros, exceto os elfos, cada nota e vibração é complementada sem atropelar uma das outras.
“Os dias são todos assim, mas de noite é tudo silencioso… Por que será? O som da fauna serve para aproximá-los da natureza? Não nego que é bem relaxante…” 一 o cordão azul no colarinho prende com firmeza, o colete roxo com detalhes azuis e preto ganha notoriedade em seu peito. A calça larga escura e as sandálias de mesmo tom dão um respiro necessário nos farrapos que vestia anteriormente.
De baixo de uma árvore cujos galhos se assemelham a um guarda-chuva, Raisel e Zairom repousam sob a dança de borboletas luminosas coloridas. As folhas grossas e grandes que servem como bandejas ou pratos, estão bem dispostas no pano que serve como tapete.
Devorando tudo com uma vontade imensa, o elfo se surpreende com o humano.
“Que intenso… Todos os humanos comem dessa forma?” 一 pedaços de carne, salada, arroz e outros grãos voam para todos os lados.
一 Voxe nau bai comer? 一 encarando o homem orelhudo com as bochechas infladas e sujas de molho, o menino cessa a sua comilança.
一 N-Não, obrigado… A gente come em pequenas pausas durante o dia. É bem incomum alguém comer tanto de uma só vez 一 as mãos chacoalham para frente e a cabeça também, negando completamente a oferenda.
一 Hm… 一 as pálpebras de Raisel caem levemente, mas rapidamente volta a comer.
“Eles não usam garfo, faca ou colher aqui, mas até que é bom comer tudo com a mão.”
…
Após o caos da refeição, Raisel cai para trás exausto e com a barriga dura. Observando ainda a sujeira no seu rosto e mãos, Zairom suspira e estende a palma para a direção do garoto. Dela, um círculo mágico caracterizado em linhas oscilantes como chamas surgem e emitem uma brasa semelhante à um sopro.
Noutro segundo, todo resquício de comida externa no corpo do menino desaparece.
一 Você é um Hitzehaster… Por que não usou Kern no nosso Vonicka? 一 totalmente limpo, ele permanece deitado enquanto encara o elfo.
一 É Honicka… Ele é uma brincadeira entre as crianças, lembra? Por isso não se usa Kern, apenas os Skizzieren, Rascunhos.
“Então nem os elfos já nascem poderosos pra caramba. Bom, que bom que não usei Wunch ou seria contra as regras…” 一 ele passa a fitar a claridade do dia entre as folhas da árvore.
一 Posso te perguntar uma coisa, Raisel? 一 pondo as palmas sobrepostas sobre as coxas unidas, o semblante de Zairom desce levemente junto de suas orelhas.
一 Claro.
一 Todos os humanos… são como você? 一 a pergunta soa como um vento gelado e afiado. Os olhos baixos do homem provavelmente já tinham uma resposta, mas, ainda assim, ele necessita da verdade.
一 Não. Todos nós somos malvados, incluindo eu mesmo 一 a resposta não treme, apenas impacta como um vento capaz de desestruturar qualquer coisa 一 A única diferença entre eu e os outros, é que eu não me entrego aos meus impulsos…
Apoiando-se com os braços para se levantar, Raisel senta de pernas cruzadas como borboletas e passa a olhar Zairom diretamente.
一 O meu vilarejo foi destruído e, depois disso, eu me aventurei por vários lugares só para aprender a sobreviver. Depois de tudo, eu e meu avô fomos até o Centro Comercial de Balmund e consegui ver como as coisas realmente são… Tudo lá é injusto e cruel. Pessoas são vendidas como mercadoria, como troféu… e a liberdade se resume ao dinheiro. A quantas moedas de cobre, prata e ouro você tem 一 as palmas do rapaz agarram com brutalidade o tecido da calça, demonstrando um tremor pelo seu corpo enquanto suas sobrancelhas estão baixas e franzidas.
A resposta do humano causa um silêncio esmagador sobre o elfo. Mas, depois de respirar profundamente, a voz dele começa a aparecer:
一 Desculpa pela pergunta boba. Nem nós elfos somos iguais uns aos outros… e até por isso que estou aqui~ 一 uma espécie de riso seco escapa dos seus lábios.
Porém, mesmo ouvindo aquilo, Raisel não ri. A seriedade do seu olhar estremece a nuca do homem que também aperta as vestimentas em certa frustração. O lábio inferior é mordiscado e, de cabeça baixa, ele reúne as forças para continuar a falar:
一 A Matriarca da Casa Thinkanin é minha mãe… Nós nunca tivemos uma relação próxima por eu ser filho de uma antiga paixão dela, mas que a abandonou. Mas as coisas mudaram para pior depois que ela se tornou uma Matriarca. Não, foi depois de eu ter tentado me aproximar…
As lembranças de Zairom de estar diante do cômodo repleto de cortinas e cordas gigantes vem à tona.
一 As Quatro Casas Élficas possuem suas próprias filosofias. A Thinkanin abraça a ideia do “observar, contemplar a própria existência de maneira sutil, sem interagir com essas belezas e aproveitar o mero prazer de estar vivo”… e eu questionei isso. Eu questionei o Stilte à minha própria mãe.
Respeitando os sentimentos do outro, Raisel permanece em silêncio. Sua mão sobe e segura firmemente o ombro do elfo, como se não o deixasse escapar e uma súplica para que ele olhe para frente.
一 Deve ter sido difícil… Se perguntar das coisas é um hábito bom, sabia? Talvez por sermos tão curiosos que chegamos tão longe, nós humanos. Não acho que o que você tenha feito seja errado… Eu penso que, acima da ordem e das regras, você deve respeitar isso aqui 一 a outra mão estica o dedo para o centro do peito de Zairom.
Com aquelas palavras, os olhos laranja do elfo se abrem subitamente. As incontáveis inscrições em suas íris não são meramente uma habilidade ou feitiço, mas algo esculpido diretamente em seus glóbulos.
“Eu nunca ouvi ninguém dizer algo assim desde que eu nasci… Eu gostaria de saber como é o seu rosto, Raisel… Mas minha punição foi enxergar apenas cálculos e fórmulas…” 一 algumas gotas escorrem dos cantos de seus olhos que se fecham. Usando os punhos, ele seca essas pequenas lágrimas.
一 Obrigado por me ouvir.
一 Você também me ouviu. Amigos servem pra isso, né? 一 um sorriso largo surge de bochecha a bochecha.
Mesmo sem ver, o elfo consegue sentir aquilo. A sensação de estar diante de um segundo sol capaz de abraçar à tudo e a todos.

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