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    Do lado interno das janelas de madeira e papel, a crua e refrescante brisa da tarde percorre sutilmente por entre as arestas.

    Dentro do cômodo parcialmente escurecido, a elfa de cabelos esbranquiçados e despida bloqueando a porta, começa a se aproximar pelas costas de Raisel. Entretanto, antes que pudesse abraçá-lo, sua mão estende à frente bloqueando a passagem enquanto a encara nos olhos.

    一 Eu não quero isso de você. Valeu por me trazer aqui, mas pode ir embora 一 chacoalhando brevemente a palma estendida, o menino não retira os olhos do rosto dela nem por um instante.

    一 Eu… não posso… 一 recolhendo os braços entre os seios, Thamina engole suas hesitações 一 Por favor, tenha um filho comigo! Se nossa criança nascer com os traços da sua luz pura, vamos poder viver tranquilamente aqui!

    一 E se ela não nascer com a luz pura que você quer? Vai rejeitá-la mesmo sendo mãe de alguém? 一 a resposta vem na hora junto das sobrancelhas ligeiramente franzidas.

    一 E-Eu… 一 recuando o torso, a mulher morde os lábios e direciona o rosto até o chão 一 Me deixa… ficar aqui pelo menos?

    Encarando-a de soslaio, Raisel suspira e dá meia-volta para descansar em uma das camas redondas e emplumadas. Afrouxando parte das cordas e faixas da sua vestimenta, ele também retira as manoplas e deixa a espada escorada ao lado de uma bancada.

    “Se eu mandá-la embora, a Matriarca com certeza vai dar alguma punição a ela… Bom, pelo menos existe uma espécie de sofá. Acho que não tem problema de ela dormir ali…” 一 uma das mãos cobre o rosto 一 “Que sensação de estar fazendo algo errado horrível… Tem uma mulher que não é minha namorada nua a poucos metros de mim. Me desculpa de verdade, Raquel.”

    一 Tá, mas ali e não chega perto de mim, se não, eu vou ter que nocautear você 一 ele aponta para um amontoado de almofadas menores sobre uma caixa de madeira.

    一 C-Certo… “É normal para os mestiços baterem nas mulheres? Parece… agradável” 一 indo até lá na ponta dos pés após pegar seus trajes no chão, a elfa voluptuosa se deita enquanto encara o teto, não constrangida, mas frustrada por seu charme, até então irresistível, ter falhado nessa ocasião.

    De maneira semelhante, Raisel usa os próprios braços de travesseiro para se deitar.

    “Quero conversar mais com ela, mas conhecendo o pessoal daqui, devem estar tentando bisbilhotar… Só pra ter certeza eu vou tentar suprimir o ar aqui dentro pra nenhum som escapar…” 一 suspirando sob o ritmo das pálpebras se fechando, o garoto visualiza apenas a sua imagem ali descansando.

    Aos poucos, sua silhueta emite ondulações e fluxos dourados finos como linhas. Essas torções se expandem gradualmente, preenchendo o cômodo tal qual um aroma requintado doce, frutado e quente; jasmim. Conforme a energia dourada de Raisel ocupa o espaço, as paredes, teto e chão são envolvidas gentilmente pela luz, mas tudo isso desaparece em forma de fumaça de repente.

    “Fazer isso é… mais difícil do que eu pensei.” 一 o suspiro vindo de seus lábios sai em um tom de alívio, pois a concentração para a tentativa consumiu todo o seu fôlego.

    一 Está tudo bem? 一 a voz de Thamina vem junto do seu olhar de soslaio, naturalmente curiosa pela energia envolvente e acalorada do menino também passar por ela.

    一 Sim… Só tentei fazer uma coisa, não se incomode 一 “Como eu vou fazer pra ter uma conversa sobre esse lugar com ela sem que ninguém ouça a gente?”

    Vendo que o garoto está mais imerso nos próprios pensamentos do que no ambiente, ela se levanta na surdina após se vestir e caminha até as janelas, fechando-as totalmente e impedindo que o ar se propague de forma livre.

    一 Você estava tímido então… Deveria ter falado ao invés de ameaçar me… bater 一 pondo uma das mãos nas bochecha, Thamina inclina levemente o rosto e impõe todas as suas curvas para ele.

    Mas, ao vê-la, a testa de Raisel gradualmente se transforma em azul e as sobrancelhas vão para cima quase unidas. Os lábios tortos e os dentes da frente aparecendo, demonstram o quão repugnante é essa situação para ele.

    一 Eu já amo alguém, Thamina… por isso não estou interessado no seu corpo ou em você.

    Escutando essas palavras, a realidade da charmosa elfa se despedaça ao som de um trovão. Boquiaberta, o corpo trêmulo cede para trás pelas náuseas causadas por essa revelação.

    “Todo elfo puro é dramático desse jeito?” 一 É tão surpreendente ser rejeitada assim? 一 de braços cruzados, o rapaz se levanta e permanece sentado sobre a beirada da cama.

    一 Não… eu já fui rejeitada outras vezes, mas nunca imaginei alguém falando que conheceu o amor… Isso realmente existe? 一 as orelhas dela balançam algumas vezes, recuperando a força para permanecer de pé.

    一 Hã…? É claro que existe. Se não existisse, não teria casais, casamento, romance, ou conexão entre duas pessoas, ou até amor pelo mundo! 一 batendo a palma na própria coxa, uma das sobrancelhas dele permanece torcida.

    一 Mas não existe amor entre duas pessoas, isso é uma reação baseada em sensações e aparências para estimular a procriação… 一 com uma das mãos sobre o queixo, a última afirmação a deixa pensativa por uns instantes 一 E o mundo não se ama, só se contempla.

    Um suor escorre na lateral do rosto de Raisel cujos lábios tem pequenos espasmos 一 Tá, tá… Tanto faz amor existir ou não. Pra mim existe…. 一 ele ajeita a franja na lateral direita e continua a falar 一 Mas só fechar as janelas vai ser o suficiente pra ninguém de fora ouvir?

    Um sorriso de canto surge empurrando a sua bochecha.

    一 Temos a audição melhor do que vocês, mas ouvir ainda é ouvir… Desde que não elevemos a voz tão alta, o que os curiosos do lado de fora vão ouvir serão só ruídos já que o som não se propaga tão bem 一 o peitoral dela se expande para elevar a confiança na sua própria fala.

    Mas para Raisel, ela só quer aparecer para convencê-lo a ter um filho no fim das contas.

    “Será que eu acredito? Ela não parece idiota e eu não devia me importar tanto… Já que quem vai ser mais prejudicada aqui é ela.” 一 coçando a nuca, ele suspira pela última vez 一 “Por onde eu começo…?”

    一 Eu quero perguntar algumas coisas pra você aproveitando que estamos aqui.

    A mulher une as coxas e deita as palmas sobre elas; concordando com a cabeça.

    一 Você já… viu o Kral alguma vez?

    Ela nega balançando o rosto 一 Conhecer o Kral é a maior honra que um Elfo Puro pode receber. Ele é a perfeição encarnada! A natureza em pele e osso! 一 os olhos de Thamina brilham como diamantes contra o sol.

    Porém, o olhar do humano pesa com essa frase.

    “Se ela pensa desse jeito, a maioria, senão, todos devem pensar igual. Idolatrar um imperador que esconde conhecimento do próprio povo… Que insanidade.” 一 o rosto do garoto sobe para fitá-la diretamente outra vez.

    一 Sobre o Zairom, por que a Matriarca e vocês o trataram daquela forma?

    Ela abre os braços tendo as palmas viradas para cima.

    一 O Zairom é completamente louco. A Matriarca ainda teve pena dele por conta dos Olhos Âmbares Rúnicos, caso contrário, ele já teria sido enviado ao Repleno e ficaria lá por algumas décadas.

    “Olhos Âmbares Rúnicos…” 一 O que é Repleno?

    一 Um cômodo repleto de energia, onde transforma tudo em um clarão branco. Não dá pra perceber o tempo que você passa lá dentro, não tem calor, som e nem dá pra enxergar nada… É um inferno pelo o que dizem 一 abraçando os próprios braços, Thamina desvia levemente o olhar.

    “É uma cadeia dos elfos, mas não parece tão desagradável assim…” 一 Raisel coça a bochecha com uma das palmas 一 Acho que é tudo. Obrigado, Thamina…

    Entretanto, ao invés de seguir para o sofá onde estava, a mulher bate as pontas dos dedos das mãos uns contra os outros.

    一 Eu… fui bem? Posso pedir uma recompensa por ter ido bem? 一 o rosto brevemente inflado, o olhar baixo e as orelhas tristonhas são armas poderosas.

    Considerando todo o contexto e vendo essa cena, o garoto finalmente é atingido. O seu corpo trava e as bochechas ficam um pouco vermelhas. Desviando o olhar, ele raspa a garganta.

    一 Kuhm… Não vou ter um filho ou algo assim com você, já falei…

    一 Não, não é isso. Eu quero que você… me bata.

    Dessa vez, o trovão ruge na cabeça de Raisel. O rapaz abaixa a cabeça, segura o osso do nariz com os dedos e estica a outra palma para frente.

    一 E-Espera… Te bater? Sério mesmo? 一 olhando-a de soslaio, ele percebe que o pedido dela é sincero.

    O rosto da elfa não está vermelho, mas a tensão que consome o seu corpo vem da expectativa de provar algo além do seu habitual. Ter contato físico para essa raça é apenas algo natural para a procriação, mas agir tão selvagemente numa agressão… para ela é inédito.

    一 Tá… Vira de costas e não olha para trás.

    As palavras vindas do rapaz a arrepiam inteiramente. Já trêmula, ela dá meia volta e empina o traseiro para a direção dele; apoiando as mãos sobre o balcão.

    O som de algo de metal sendo encaixado a faz engolir ansiosamente a sua saliva. Mas, no instante em que os passos de Raisel se aproximam, a vista dela escurece e o corpo perece para frente após a pancada na nuca.

    Segurando-a no abdômen usando o antebraço revestido por sua manopla, ele desvia o olhar e a arrasta como um pano de prato até o sofá.

    “Elfas Puras são… muito esquisitas.”

    Dessa forma, a paz para descansar um pouco finalmente vem.

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