Capítulo 13 — Não olhe para as Nuvens

Um punho invisível dispara na direção do jovem, atinge-o em cheio, o derrubando do poste.
— Ei! Como vou desviar se nem consigo ver o que está vindo na minha direção?!
— Esse treinamento também serve para melhorar sua percepção do ambiente.
Eles passam a tarde inteira nisso. No final, Heragon não consegue desviar de nenhum golpe e cai todas as vezes. À noite, continuam o treino de respiração. Essa rotina se estende por dias.
Heragon aprende rápido, absorvendo cada golpe do estilo do Dragão que Elena copiou da mãe dele, como se o corpo já conhecesse aquele caminho.
Em pouco tempo, os movimentos deixam de parecer ensaio e viram instinto.
Então eles focam nos outros treinos. Com a base sólida, ele logo domina a respiração: o ar entra, o Eco responde, e a mente para de tropeçar nos próprios pensamentos.
A percepção melhora. Heragon começa a desviar com mais frequência dos golpes de Elena, lendo ombros, quadris, intenção.
Mas o equilíbrio… esse cobra o preço. E, justamente por isso, acaba puxando outro evento.
Duas semanas se passam. O início do festival se aproxima. Um novo dia começa com o calor aconchegante da manhã e uma brisa refrescante.
Na base da árvore colossal, uma garota observa a paisagem. Usa roupas justas com padrões de escamas de peixe, uma máscara com respirador cobrindo nariz e boca. Perdida em pensamentos, começa a falar sozinha:
— Aaaaah, que tédio. Meu mestre me mandou trazer e postar aquela missão e me mandou ficar aqui até alguém aceitar. Cara… hoje em dia é difícil ver um Dragão por aí. Vou acabar tendo que ficar aqui por um bom tempo.
A garota suspira e começa a andar de um lado para o outro. Até que vê uma estranha borboleta, com um bater de asas semelhante ao de um beija-flor, sobrevoando ao lado daquele galho.
Ela vai para beirada da ilha, dá um passo no vazio… e não cai. Um líquido cristalino sai dos pés dela, gruda na madeira das raízes e endurece, criando uma plataforma de gelo a cada passo.
Com cuidado, estende a mão, e a borboleta pousa em seu dedo.
— Que linda… aaaaah, estou tão entediada que até uma borboleta está me distraindo. Até participei da avaliação para passar o tempo. Foi um balde de água fria descobrir que ainda faltava mais de um mês para o festival… queria tanto algo que me ajudasse a matar o tempo…
Subitamente, uma forte ventania sopra, levando a borboleta, que gira descontroladamente. Com batidas rápidas de asa, recupera o controle e vai embora. Já a jovem…
. . . .
Um novo dia começa com o calor aconchegante da manhã e uma brisa refrescante. Heragon esta no treinamento de equilíbrio.
Durante essas duas semanas, ele demonstrou grande talento nas artes marciais, dominando as técnicas da arte do Dragão que Elena conhece.
Sua respiração está bem mais controlada e se adapta a cada mudança de movimento. Agora, ele consegue desviar de vários golpes no treinamento de equilíbrio, embora ainda perca o centro quando é acertado.
— Seu centro de equilíbrio ainda é uma bagunça — comenta Elena, colocando a mão na cintura.
— Estou dando o meu melhor — retruca Heragon, franzindo a testa.
— Não é o suficiente. Esforce-se mais. — Ela faz um gesto com as mãos.
— O quê? Estou dando tudo de mim! Você poderia pelo menos reconhecer isso.
— Ah… você é bem mimado. — Ela dá um sorriso de canto.
— Ah, sua… aaah… musculosa sem coração.
— Sério? Esse foi o melhor insulto que você conseguiu pensar?
— Cérebro de… de… de macaco.
Elena não responde. Firma a base, gira o quadril e ergue a palma à mostra. Uma grande massa translúcida se molda ao redor da mão e dispara. A pressão invisível atinge Heragon em cheio no peito e o arrasta até a beirada da ilha.
— Haaaa! Sua doida! Quer me matar?! — Ele se levanta, bravo.
— Moleque… se quiser morrer mesmo, é só repetir o que falou.
Nesse instante, o mestre da Guilda surge para observar o treinamento. Caminha calmamente, com as mãos para trás, trazendo consigo a presença serena e imponente de um verdadeiro mestre.
— Ei, vocês dois. Como anda o treino?
É ignorado. Eles continuam discutindo tão calorosamente, que nem percebem a presença de Sundar.
— Ei. Estou falando com vocês.
Ignorado de novo. As veias engrossam na testa, olhar dele endurece. Todo o ruído dos insetos e cantar dos pássaros sessam. Até os animais perceberam.
Aqueles dois, não. Ele estende as mãos, dedos abertos. As raízes rompem o chão, se trançam e moldam duas mãos gigantes, que agarram os dois pela cabeça, os levantando do chão.
— Parem com isso. Agora. — A voz vem baixa, mas corta o ar.
— Foi ela que começou — diz Heragon, virando o rosto para o lado.
— É esse cabeça-dura que não me escuta — responde Elena, olhando para o lado oposto.
— Não importa quem começou. O que exatamente está acontecendo?
Depois de ouvir a explicação, o mestre da Guilda conclui:
— Elena, já que ele está tendo dificuldade com o treinamento atual, que tal mudar o método?
— Bem, pensando por esse lado, tem razão. — Ela sorri de repente. — Hum, tive uma ideia. Pode nos soltar.
O mestre os libera. Elena ajeita a roupa e encara Heragon por um instante. Então ergue o braço e aponta para o horizonte.
— Heragon, olhe para as nuvens laaaaaa longe.
— E por que eu faria isso?
— Apenas olhe, não é nada demais, só vou te ensinar uma lição importante.
— Estou olhando. E agora? — Ele suspira.
Elena recua um passo. A expressão dela se afia aos poucos, satisfeita, enquanto ajusta a postura e firma o pé direito no chão.
— Você tem até o dia do festival para voltar. Boa sorte.
No instante seguinte, Heragon sente o impacto na bunda. Perde a sustentação e se vê lançado para fora da ilha, em pleno ar.
Antes de cair mais, ainda consegue enxergar Elena acenando com um tchauzinho, os lábios curvados num sorriso malicioso.
O grito vem em seguida.
— Sua desgraçaaaaaa…

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