Capítulo 06 — O Mago Perdido

Os dois saem dos arbustos quase ao mesmo tempo. Por um instante, ninguém fala. Heragon mede o garoto à sua frente: manto longo, cabelo azul-claro, postura leve demais para alguém perdido numa dimensão como aquela.
— Oi! Sou Heragon, da raça dos Dragões. — Ele toma a iniciativa.
— Sério?! Um Dragão?! Que legal! Sou Merlin, dos Magos. Gosto de arroz e de conhecer pessoas novas.
— Prazer te conhecer. Tchau, tenho algo importante para fazer agora. — O Dragão corta seco.
— Espera, estou perdido, pode me ajudar? Não pode? Ah… tudo bem então!
Merlin dá um passo para trás e faz drama, com a clássica expressão de quem já se imagina sendo devorado sozinho no meio da floresta.
— já vou… sem rumo… nessa floresta perigosa… cheia de dinossauros prontos para me devorar…
— Aaah! Então tá! Vem comigo. Depois a gente acha o caminho para sei lá onde queira ir. — Suspira, colocando as mãos na cintura.
— Opa! Eu sabia que você era gente boa!
Os dois entram na caverna atrás da cachoeira. O túnel é úmido e escuro, a água pinga das estalactites, e morcegos levantam voo assustados à medida que avançam.
No caminho, conversam a passos lentos. Heragon conta sua história ate o presente momento, que foi desafiado pelo seu mestre a encontrar uma fruta que cresce naquela caverna. O mago se impressiona mais com a ideia do treino do que com o perigo em si, o que arranca uma risada do jovem Dragão.
O caminho segue, e a fala dos dois vai se costurando no ritmo dos passos, até chegarem a uma clareira. Uma fenda no teto derrama luz sobre o lugar, um corte brilhante no escuro. O feixe ilumina o pó suspenso no ar e revela movimento: insetos gigantes circulam pela área, zunindo em espirais lentas.
Por algum motivo, Merlin fica boquiaberto com a história que acabou de ouvir. Estranhamente surpreso, ele fecha os punhos, trava o maxilar e solta uma frase nada comum:
— História inicial de protagonista… — Merlin aperta os olhos. — Droga!
— O quê? — Heragon sorri sem graça, confuso. — Espera… ouvi algo.
Puxa Merlin para trás de um arbusto. À frente, dinossauros caçam em bando, rasgando formigas gigantes com precisão de açougueiro. O jovem Mago sussurra que já estudou aquelas criaturas. Rápidas, inteligentes e perigosas: Deinonychus. Também conhecidos como Deinos.
Ao ver as feras de duas patas, com braços que lembram pequenas asas, os dois se enchem de cautela. A ideia é seguir pelas beiradas, sem fazer barulho. Mas um passo em falso de Heragon arranca um creck nada agradável.
— Isso é ruim… pode soar estranho, mas você acabou de pisar em uma planta que odeia ser pisada. — Merlin arregala os olhos.
O grito da Mandrágora puxa os Deinos como um ímã. As feras avançam em sintonia.
Uma delas acerta o flanco de Heragon que cai, mas antes que o chão o engula por completo, trava o pescoço do bicho com os antebraços, segurando como pode. Garras em forma de foice rasgam o traje.
O fôlego do jovem Dragão encurta, preso entre o peso da criatura e a urgência de não ceder.
Merlin se posiciona ao lado, mão erguida, olhar firme.
Uma esfera se forma em sua palma. Pontinhos de luz surgem na superfície e, um a um, são ligados por um traço fino, desenhando uma rede compacta de intenção e cálculo.
Console: Mater — Matriz: Elemen Água! — Metralhadora D’água!
A esfera se rompe, transformando-se numa metralhadora de água, e dispara. As rajadas perfuram as penas do Deino preso a Heragon, atravessando-o com agulhas de pressão.
O peso finalmente cede. O jovem Dragão gira o corpo, rola para longe e se levanta num salto curto, ainda ofegante.
Com a mão aberta, tenta criar fogo… só ar quente escapando entre os dedos. Sem opção e tempo a perder, parte para o combate direto.
Avança no instante em que o Deino salta. O cotovelo sobe curto, batendo contra o lado do pescoço da criatura.
Antes mesmo de sentir o impacto por completo, Heragon gira a base e desfere um chute baixo, atingindo a perna dianteira para quebrar o impulso do predador. Em seguida, desliza para o lado num passo rápido, seco, saindo da linha de ataque. O Deino fecha a mandíbula no vazio. Aproveita a brecha descendo uma cotovelada entre os olhos do bicho.
— Uau! Você luta bem! — comenta Merlin.
— Aprendi com meu avô. Ele chama isso de… Kung Fu.
— Maneiro! — Ele sorri. — Tive uma ideia. Pode ser a isca?
— Como se eu tivesse escolha!
— Tente juntá-los num só lugar!
Heragon corre sem atacar, puxando o bando para si. Um bote passa por centímetros de seu braço. Outro rasga o ar às suas costas. Salta por cima de uma raiz grossa, aterrissa já girando o corpo e muda de direção no último instante, fazendo dois Deinos se chocarem num baque seco.
Um terceiro vem de frente. O jovem agarra o focinho da criatura com as duas mãos, trava o avanço por um segundo e a empurra de lado com violência, batendo sua cabeça contra a de outro que vinha no embalo.
O estalo é oco, pesado. Sem esperar resultado, ele se lança para trás num salto rápido, abrindo distância. Os Deinos se embolam no chão, rosnando, escorregando e trombando entre si na tentativa de se levantar.
Merlin aproveita a abertura.
Console: Modi — Matriz: Invo — Paredão!
Grandes rochas surgem do nada. Moldam-se em paredes em três lados, numa dobra súbita e brutal, fechando as feras numa caixa aberta, sem teto e sem fuga.
Console: Mater — Matriz: Elemen Vento — Rajada!
O ar responde com ventos em lâminas assobiando na direção dos bichos. O impacto chega de uma vez só, seco e esmagador, derrubando todos ao mesmo tempo.
— Heragon, da próxima vez, olha por onde pisa, hein?
— Engraçadinho.
Eles riem ainda com o pulso acelerado e seguem adiante. Merlin elogia os chutes de Heragon. Cabisbaixo, o jovem admite que consegue se virar na arte marcial, mas o que queria mesmo era usar Ressonância de verdade. Percebendo a frustração dele, o mago tenta explicar.
— Ressonância é, no fundo, uma mudança na vibração do Eco por meio de um dos sete canais. No caso dos Dragões, o canal central é o Elemen, e a forma mais comum de ativá-lo passa pela faixa imagética: o Sinal em Frames, moldando na mente a imagem do que se quer criar.
Heragon cruza os braços, confuso. As palavras entram, mas não se encaixam.
— Bem, é mais fácil para você do que para minha raça que só pode usar a faixa programática. Nosso jeito de usar ressonância é diferente por termos o canal central Adap.
— Pode me ajudar? Como vocês fazem?
— Programação. — Merlin se anima ao explicar. — A gente pensa no Eco como uma esfera cheia de pontos. Em cada um, coloca uma informação: tamanho, densidade, efeito… Depois liga tudo e forma um Programa.
Heragon pensa por um instante e logo chega à conclusão mais sincera possível
— É legal. Mas, pensando bem… não me ajuda em nada.
— Os magos decoram programas já criados, isso facilita nosso trabalho. No seu caso, o melhor caminho é agarrar a um exemplo claro, uma imagem forte o bastante para não escapar da mente.
— Vou me lembrar disso. Obrigado.
Andam mais um pouco, até avistarem uma fruta de casca escura, marcada por desenhos em forma de ondas. Heragon aponta já correndo para pegá-la. Merlin estreita o olhar.
— Essa fruta me é familiar… tenho certeza de que já a vi num livro.
Pela grama ao redor da fruta, finos filamentos se movem em sincronia. Cipós começam a serpentear rente ao solo. Quando se aproxima, o chão vibra. Ao redor da fruta, dentes brotam da terra. Afiados. Prontos para mastigar.

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