Capítulo 00 — Coração de Dragão
Correntes, penduradas nas paredes por grossas estacas. O metal brilha em um prateado reluzente, iluminando os pulsos erguidos acima da cabeça. As chamas das tochas dançam, emitindo uma luz fraca, forte o suficiente para revelar mechas brancas escorrendo sobre o rosto.
Não enxergo nada. Mesmo piscando várias vezes, ainda assim… que bom, comecei a me acostumar com essa luz fraca.
Ergue lentamente o queixo, balançando a cabeça em confusão. Olha para os lados daquela sala cheia de sombras, com sua visão ainda meio embaçada. Vê prateleiras de um branco meio amarelado, não parecem que foram pintadas, seus suportes no formato de fêmur fazem pensar que são feitos de ossos.
Onde estou? Como vim parar aqui? Minha cabeça dói, pensa… ah, comecei a me lembrar.
Um homem, usando armadura ornamentada com estacas de gelo, feres translucidas o cercam sobre seu comando. Um riso, irritante ao ponto de ecoar como um zumbido, debochando da quedo como uma criança brincalhona. O sentimento, raiva além de qualquer coisa já sentida.
Sua respiração oscila, seu peito sobe e desce em um vaivém desordenado… carregado. Tenta mover os braços violentamente, mas não consegue sair do lugar. Puxa as correntes com toda a força que tem, drenando-o muito rápido.
Tenho que sair daqui, tenho que recuperar o…
Um assovio paira pelo ar, em um tom suave que cresce à medida que se aproxima daquele que está acorrentado. Uma fina silhueta se forma sob a luz baixa, aqueles cabelos negros, ainda assim, estão brilhantes na penumbra.
— Olha só, o Dragãozinho parece desorientado. — A figura de olhar âmbar faz pose, colocando a mão na cintura.
— Você! — As correntes estalam, ao jogar seu tronco para frente. — Por quê? Me responda.
— Meio vago, essa sua pergunta. — Ela coloca as mãos para trás, caminha largo, como se medisse cada passo. — Fala do Hugo? Da provocação ou será que… daquele que matei com minhas próprias mãos? — Lambe, de leve, os lábios. — Ah! São tantas opções.
— Ora, sua… vou te ma…
A predadora leva o dedo indicador aos lábios dele, calando-o no mesmo instante. Sua mão pousa sobre aquele peito ofegante, com um movimento leve. Se aproxima bem, colando sua respiração ao ouvido dele.
— Obrigada, essa caçada foi divertida. — Ergue o punho… palma esticada, com as pontas dos dedos encostadas sobre os rápidos batimentos cardíacos. — Nossa brincadeira termina aqui.
O peito é atravessado com precisão cirúrgica, fios líquidos escorrem, manchando o traje negro de vermelho. Os braços do acorrentado tentam recuar, mas as correntes que o prendem gritam em seu lugar. A expressão em seu rosto se fecha em uma dor insuportável, vendo seu coração sendo trazido para fora.
A palidez gélida toma seu corpo, enquanto a caçadora se afasta rumo a uma prateleira. Diferentes rótulos enfeitam aquelas paredes, potes cujo conteúdo são partes de presas caçadas por esporte. Ela pega um que está vazio e, ainda batendo em pulsação fraca, deposita com cuidado seu novo troféu. Olha por cima dos ombros, rumo ao seu prisioneiro, expressando serenidade ao vê-lo naquele estado.
— É uma pena que já tenha acabado, vou indo, então…
— Es… pera, eu… eu vou… te… — Sua cabeça se abaixa, fechando lentamente os olhos.
Ela não diz mais nada, apenas sai da sala. A porta se fecha lentamente atrás dela, devolvendo o cômodo… à escuridão. Logo caminha por diversos corredores, que mudam de ar a cada pedra pisada. Chega à frente de um enorme portal, feito de uma prata tão brilhante, que nem as sombras ousam se aproximar.
A predadora retira do bolso um medalhão, uma pedra avermelhada marca seu centro. Começa a brilhar, mudando até mesmo a cor do portal, que se abre em um rangido antigo demais para contar. Dentro, não há escuridão, mas algo que faz tudo à sua volta vibrar.
— Finalmente, agora, a raça Predator… irá dominar tudo. — O sorriso dela cresce, mas não mais que sua expressão maliciosa.

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