Capítulo 08 — Dois Anos Depois

Em um portal no céu de Jurassic, uma mulher de cabelos azuis surge, sentada numa vassoura. Chapéu pontudo e um sorriso provocante. Ela desce sem pressa cortando o ar com leveza, voa entre as árvores aproxima-se sorrateiramente, devagar…
— Nem tente, Sara. Não estou com humor para brincadeiras! — exclama Ouroboros.
— Tsc, que sem graça. — Ela faz bico por um instante, mas o olhar continua brilhando. — Então esse é o neto de Fiogon?
— Sim. E você demorou.
— Passei para ver meu sobrinho numa dimensão próxima. — Ela sorri, satisfeita consigo mesma. — Trouxe o que você pediu… mereço um beijinho, né?
— Sim, você merece. Mas sem beijo de recompensa.
— Poxa… ainda o mesmo rabugento de sempre.
Enquanto isso, Heragon avança contra a criatura à sua frente. O soco estala na couraça dura fazendo sua mão ricochetear para trás.
O monstro responde no mesmo instante, virando o focinho e cravando os dentes no braço do jovem Dragão. Só que os dentes não atravessam.
Heragon endurece a própria pele, finca os pés no chão e não recua. Gira o corpo, usa a própria mordida da criatura como ponto de apoio e, num movimento bruto de alavanca, a arremessa com violência.
O bicho cai perto do topo da cachoeira, levantando respingos e poeira úmida. Num tranco, ele já se ergue de novo. A cauda vem cortando o ar.
Heragon desvia da primeira investida por pouco, mas o golpe seguinte o alcança e o prende em um laço vivo. A fera o puxa sem dar tempo de resposta, arrastando-o junto numa queda livre pela cachoeira.
Mesmo despencando, mantém a expressão firme, já tivesse a ideia do risco e calculado a resposta antes do impacto.
— Boa jogada… mas eu não sou o mesmo de antes.
O corpo dele se incendeia explodindo calor pelo ar. A criatura afrouxa o aperto por reflexo. Heragon aproveita o instante, puxa o fogo para o peito e comprime tudo em um único ponto.
Então assopra.
Um jato de chamas atinge o monstro em cheio o empurrando com força contra a água. A criatura se debate enquanto Heragon nada até a margem.
Quando pensa em se levantar, uma abocanhada violenta irrompe do nada, mirando sua cabeça. Só que ele já esperava por isso. Gira o corpo fechando os punhos, chamas irrompem por entre seus dedos. O soco que segue acerta em cheio, quebra a mandíbula da criatura e a lança de volta para a água, que desta vez não a recebe. Apenas a leva, arrastando-a rio abaixo. O jovem respira fundo, ainda com o peito subindo e descendo em esforço.
— Finalmente… estou indo até o senhor, meu velho.
Do alto, Ouroboros solta um suspiro. Sara, observando a cena com interesse renovado.
— Olha só! Ele é bem fortinho, quanto talento. — Ela assovia.
— Talento? Bobagem, pode até ser o caso nas artes marciais. Na ressonância, aprendeu na marra e determinação.
— Haaa, entendi. Ele parece ter puxado o jeitinho da mãe.
— Aaah! — Suspira cansado. — Nem me fale.
De volta à casa do mestre, Heragon chega tomado por uma animação que há muito estava presa no peito. Aquela vitória marcava a promessa feita dois anos atrás.
Ele entra já anunciando a missão cumprida, mas para no meio do impulso ao notar uma outra presença.
— Quem é essa bela mulher? Ela…
— Aaaaah, que fofo! Diferente do seu mestre, você sabe tratar bem uma dama. — Sara o envolve num abraço apertado demais.
— Agradeço… mas… não consigo respirar!
— Me chamo Sara da raça das Bruxas. Vim trazer seus presentinhos de formatura.
Começa a tirar objetos de uma bolsa encantada. Sem pressa e com calma, as coloca sobre uma mesa.
Uma bússola. Um mapa. Roupas novas.
— Olha só lindinho, essa bússola aponta para o Pilar mais próximo a ela. — Estende a mão para ele. — Pega esse papel, leia as instruções com calma depois. As do mapa também estão escritas ai.
— E essa roupa, ela é bem dahora!
— E são mesmo, são encantadas! Resistência física e elemental, o mais importante é a autor reparação. Sempre estará novinha, ah! Coloquei um extra, os bolsos de dentro do sobretudo tem espaços de armazenamento, não são grandes, mas da para guardar algumas coisas.
Heragon fica admirado de verdade, levantado a traje com um genuíno brilho no olhar
— Uau… deve ter dado um trabalhão conseguir tudo isso.
— Muito mesmo. Acho que mereço um beijinho. — Coloca um dedo sobre os lábios.
Heragon fica corado no mesmo instante, desviando o olhar aos poucos.
— Aaaaaaaah! Fofo demais! — Ela grita emendando outro abraço apertado.
Ouroboros manda que pare de atormentar o garoto, embora um riso breve escape dele também.
— Vamos ao que interessa, use esses itens com sabedoria. Essa será minha última lição, preste atenção.
— Sim, senhor! — Heragon ajeita a postura.
— Lunae é como chamam o núcleo seres vivos. Além de armazenar Eco e mudar sua frequência, ela tem uma função oculta.
O jovem Dragão engole seco, sua curiosidade foi atiçada. Olha seu mestre com muita atenção.
— Nome curioso, o que significa?
— Originalmente esse nome veio de outro lugar, onde a Lua esta em um ciclo de fases. — Ele caminha em volta de Heragon. — Cada vez que alguém chega ao seu pico máximo de poder, a Lunae responde, quebrando limitadores.
— Legal, tipo… se transformar na forma de Dragão?
— Sim, cada fase desbloqueada aumenta seu limite de evolução. Se encontrar alguém que despertou uma fase, fuja.
Engolindo seco, Heragon apenas acena com a cabeça. Após essa aula, se preparam para a partida dele. Roupa nova, itens legais guardados e coração decidido. Partem em direção ao Pilar.
Após um tempo de caminhada, logo avistam a estrutura. Um Pilar de pedra escura com rachaduras emitindo luz roxa, uma ponte entre dimensões cavada ao solo de cada mundo. Subitamente o ar ganha peso e um portal se abre. Duas figuras encapuzadas saem dele, com sorrisos maliciosos estampados em seus rostos.
— Olha só Pamela… fomos premiados.
— Finalmente. Nem me diga, Ravier. Já estava ficando entediada.
Ravier avança sem aviso lançado lâminas de energia que cortam o ar, fazendo uma curva precisa.
Ouroboros solta apenas um suspiro curto, sem demostrar nenhuma expressão de surpresa… bloqueia facilmente destruindo aquelas adagas.
— Entregue o garoto e saímos em paz — diz Ravier.
— Hahaha… nem parece um Predator falando. Por acaso, vocês são Betas?
A resposta não sai pela boca, mas cravada no olhar. Em silêncio, os dois se afastam alguns passos, medindo a distância com cautela. As posturas se abaixam, o peso do corpo se ajusta, e a respiração controlada denuncia que nenhum dos dois pretende agir por impulso. Se afastam do Pilar, levando o combate, para outro lugar.
Pamela tenta se aproximar de Heragon, mas Sara estala os dedos, cortando o avanço da caçadora.
— Xo, xo, sai daqui mocinha! O fofinho tem coisa mais importante para fazer.
— Não se mete… feiosa.
O olhar da bruxa se fecha, se acomoda na vassoura flutuante com calma. Tira uma lixa da bolsa e focada nas unhas, sem nem olhar direito para sua adversária… faz um gesto simples com a mão.
Um risco marca o chão em vermelho, um buraco no chão surge puxando algo de dentro. Grande patas cravam as garras nos cantos, corpo largo e peludo… irrompe com olhos brilhantes.
Fase Cheia!
Sara inspira devagar, seus olhos brilham em escarlate. A criatura se distorce na mesma hora: músculos engrossam, os pelos se eriçam e a presença cresce até ficar sufocante.
Sara termina de lixar uma unha, aponta com o queixo… casualmente.
— Fluflu. Pega!

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.