Capítulo 12 — Discípulo e Mestre

Elena leva Heragon até um refeitório. Como já havia avisado, não está nem um pouco disposta a poupar o bolso de Sundar. Até o garoto se espanta com o ritmo dela, mas entra na brincadeira, e logo aquilo vira quase uma competição de comilança.
Aventureiros à volta começam a apostar: Elena, uma Rank S da elite, contra o garoto desconhecido de cabelos brancos. A mesa se enche, e as mãos dos dois se movem rápido demais. Pouco depois, o jovem acaba deitado sobre a mesa, vencido e empanturrado.
Ao redor, risos se espalham. Os que apostaram nele nem se abatem. No fim, todos tinham ganhado um bom momento de diversão.
Após uma breve digestão, saem do refeitório passando pela recepção a caminho do treinamento. No meio do fluxo, o jovem para em frente a um dos quadros, curioso. Sua expressão revela o que esta pensando: maneiro.
Se prestarmos atenção, em um dos quadros há uma missão interessante: Rank B, Grau I, escolta (guiar um grupo pela dimensão Draconia). No rodapé, uma observação: missão do tipo nomeada. Necessária a colaboração de um membro da raça dos Dragões.
Heragon não vê o cartaz; fica ainda mais curioso com o quadro de Rank S.
Elena leva dois dedos à boca e solta um assovio agudo. O som corta o ar e, instantes depois, uma grande ave mergulha do céu, pousando ao lado dela com um bater pesado de asas.
As penas se agitam como folhas arrancadas pelo vento, e a criatura abre a envergadura imponente, avisando que veio ao chamado. Diz para Heragon Subir na ave.
Os olhos do garoto se acendem no mesmo instante. Ele se aproxima sem disfarçar o encanto, admirando a ave de perto antes de montar. Elena leva a mão ao rosto, já sentindo o peso da tarefa que tinha aceitado.
A expressão dela diz o que a boca não precisa repetir: dali em diante, teria mesmo que cuidar daquele caipira.
A ave ganha o céu com um salto poderoso. O vento chicoteia roupas e cabelos enquanto os dois cruzam a imensidão verde, passando por galhos largos como pontes suspensas entre as nuvens.
Depois de algum tempo, descem sobre um galho extenso que avançava até uma pequena ilha isolada na ponta. O lugar parecia apartado do restante do mundo, silencioso, reservado apenas para aquilo. Elena salta primeiro e aponta ao redor.
— Essa é minha ilha de treino. Vai ficar aqui durante todo o seu treinamento.
Heragon observa o lugar, a casa, o espaço aberto, o vazio em volta. Solta a resposta sem muita convicção, já entendendo que discutir não mudaria nada.
Elena nem perde tempo com isso. Entra na casa e retorna trazendo uma bacia. Ajoelha-se, enche-a com água e a coloca no chão entre os dois.
Sem rodeios, ela começa a instrução. O físico dos Dragões, já dispensava a parte mais bruta do treinamento. O foco ali seria outro. Respiração.
Heragon já tinha aprendido aquilo com o avô, mas Elena corta a confiança dele com um simples olhar e um gesto para a bacia. Ele enche os pulmões até o limite, mergulha a cabeça na água e permanece imóvel.
O tempo passa em silêncio. Só o vento corre pela ilha e balança as copas ao redor. Quando finalmente ergue o rosto, puxa o ar de volta com força, o peito subindo num tranco pesado.
Elena assovia baixo, impressionada apesar de si mesma. Sete minutos. A capacidade pulmonar dele era absurda. O problema vinha logo depois.
A respiração dele sai desordenada, funda demais, desesperada demais. Entre uma ofegada e outra, Heragon explica do jeito que consegue: o avô havia ensinado a puxar tudo de uma vez e soltar como se fosse o último sopro de vida.
Elena aperta a testa entre os dedos. Aquilo servia para reunir Eco, não para sustentar o corpo em combate, em esforço contínuo ou em controle.
Respira fundo, recompõe a paciência e manda que ele tente de novo. Dessa vez, devagar. Entrada calma, saída curta, retomada leve. Primeiro superficial. Depois, aos poucos, mais profunda. Mais ritmada. Mais consciente.
Heragon mergulha o rosto na água repetidas vezes. Erra o tempo. Se adianta. Prende demais. Solta tudo de uma vez. Tenta corrigir no impulso e só piora.
Ainda assim, insiste. Elena observa, corrige, interrompe, manda repetir.
Em certos momentos, cruza os braços e apenas encara; em outros, estala a língua, visivelmente incomodada com a lentidão dele. Mas segue ali. Quando a noite cai, o treino finalmente cessa.
Os dois entram na casa. O interior é simples e funcional. Nada de banquetes ou confortos exagerados, só o necessário.
A refeição já estava separada, prática e sem qualquer encanto: barras de cereal e proteína empilhadas como se aquilo bastasse para substituir comida de verdade.
Heragon encara o que recebeu com uma expressão difícil de esconder. Elena, sem a menor piedade, apenas manda que ele coma e descanse. Antes de se recolher, ainda deixa a última ordem:
— Quando deitar, continue treinando a respiração até dormir.
Na manhã seguinte, Elena retorna à ilha e encontra o jovem treinando.
Pequenas chamas atrás dos calcanhares criam impulsos que aumentam a velocidade e a potência dos chutes. Ele faz o mesmo nos cotovelos para aumentar a força dos socos.
Em um movimento arriscado, Heragon perde o equilíbrio e coloca força demais na chama do calcanhar.
O corpo gira e, sem querer, ele desfere um golpe na direção de Elena, que o apara com facilidade, claro.
— Quem disse que podia treinar algo fora do que estou te ensinando? — ela pergunta, sem muita paciência.
— Tenho o costume de treinar todos os dias de manhã.
— É um bom costume. Mas, a partir de agora, enquanto estiver aqui, treine só o que eu mandar. — Elena cruza os braços.
Heragon olha para o lado, claramente insatisfeito. Os primeiros sinais de rebeldia começavam a aparecer, como em qualquer adolescente.
Para um Dragão, aquilo não era só impressão. Por viverem muito, a puberdade chegava mais tarde. Elena continua o sermão.
— E não é para acordar mais cedo para treinar escondido. Tenha uma noite de sono completa, entendeu?
— Tá… está bem. — Ele estala a língua, indignado.
— Vamos seguir um cronograma de treinamento: de manhã, artes marciais; à tarde, equilíbrio; à noite, respiração.
— Equilíbrio?
— Quando chegar a hora, eu te explico. Enfim… entre em posição. Os movimentos que conheço da arte do Dragão são cópias, então não me pergunte os nomes dos golpes. Em resumo: vamos lutar, e você vai absorver e prestar atenção em tudo o que eu fizer.
— Estou com uma dúvida… como assim, cópia?
— Minha família tem um Brasão espiritual, passada de geração em geração, chamada Controle da Alma. Além de manifestar nossa alma para fora do corpo, sob certas condições, podemos copiar técnicas de luta dos oponentes. Enfim, vamos começar o treinamento do dia.
O treinamento do dia começa, Elena claramente pega leve, mas, ainda assim, é um massacre técnico. Durante o treino, ela precisa acelerar o ritmo.
O jovem aprende seus movimentos numa velocidade impressionante. Depois de um descanso rápido, eles vão almoçar.
À tarde, a segunda parte do treinamento começa. Ela o leva para trás da casa, onde vários postes de madeira estão fincados no chão.
— O equilíbrio é extremamente importante nas artes marciais. Todo golpe que você usa, se errar, volta contra você. Aprender a manter o equilíbrio por instinto mantém sua guarda alta. Suba em um dos postes.
Heragon sobe em um dos postes, mas antes que consiga se firmar, Elena flexiona os cotovelos. Uma massa invisível se condensa ao redor de seus braços.
Ela soca o ar num movimento seco, mas certeiro. grito do Alfa ainda corta a noite.

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