Capítulo 07 — Onda Doce

No impulso, Merlin salta rapidamente conjurando um programa.
Matriz: Elemen Vento — Ejetor!
Uma rajada de vento os arremessa para o alto. A boca gigantesca se fecha exatamente onde estavam. Prestes a caírem ali por perto, outra rajada amortece a queda. Então o solo se rompe. Do chão irrompe uma planta colossal, toda dentes e cipós. O Mago ergue o dedo, como quem finalmente encaixa a peça que faltava.
— Era isso! Carnoda é uma planta carnívora que guarda em sua boca uma fruta chamada de Onda Doce. — Bate um punho contra a palma da mão.
— Esse meu mestre! Plantinha uma ova! Olha o tamanho disso! — grita Heragon.
O jovem Dragão dispara sem pensar, correndo em direção à planta carnívora. Merlin tenta pará-lo para bolarem um plano de ação. Mas já era tarde demais.
Heragon salta na direção da planta. A Carnoda reage com uma chuva de cipós. Ele desvia das investidas, mas em um momento de descuido é agarrado pelas pernas e arremessado ao chão com força. O solo gramado, mas firme, arranca o ar de seu peito. Mesmo tonto, ele se levanta e avança de novo.
Merlin observa atento, procurando uma brecha.
Heragon desfere socos e chutes consecutivos. Aos poucos, consegue concentrar chamas fracas nos punhos, calor o bastante para avermelhar a superfície da própria pele. O dano é mínimo… mas real. A planta se enfurece. Os ataques ficam mais agressivos, apressados, impacientes. Cipós se entrelaçam num instante, torcendo e apertando até virarem uma broca viva. Ela dispara direto nele, girando com fúria.
Matriz: Invo — Teleporte!
Heragon desaparece no exato instante em que a broca estava prestes a atingi-lo. O golpe perfura o solo com força absurda, estilhaçando a terra. Ele reaparece ao lado de Merlin, ainda sentindo o vento do ataque que quase o pegou.
— Uau… pareceu o vovô. O que foi isso?
— Algo que gasta muito Eco… — Merlin responde, ofegante, com o peito subindo e descendo rápido. — Heragon, vamos trabalhar juntos! Eu sei que você quer aproveitar para treinar, mas a gente precisa de um plano.
— Desculpa, me empolguei. — Abaixa um pouco a cabeça.
— Tive uma ideia, talvez dê certo.
— “Talvez”? — Heragon estreita os olhos. — Isso é um plano ou uma aposta?
— Algo do tipo, hehe. Vamos tentar derrotá-la sem destruir a fruta. Você vai ter que queimá-la, e eu cuido da proteção.
— Minhas chamas ainda estão fracas…
— Dá um jeito. Confia na sorte. Eu sou sortudo!
— Tudo ou nada, então.
Heragon para de atacar e passa a apenas desviar. Um cipó despenca como chicote e explode no chão onde ele estava um instante antes.
Outro rasga o ar por trás, mas ele gira o corpo e escapa por um fio. Os golpes não vêm só de cima. Entram no solo, serpenteiam por baixo da terra fofa e surgem de repente, tentando agarrar seu tornozelo. Ele salta para trás, um pulo atrás do outro se esquivando rapidamente.
Dessa vez, não está reagindo por impulso. Observa atentamente medindo o tempo, lendo o ritmo da planta em meio ao caos. Cada esquiva afia mais seu olhar, cada salto, cada passo curto, cada recuo no instante exato.
No meio do combate, Heragon deixa de apenas sobreviver aos ataques e começa a entendê-los.
Merlin também analisa o padrão. Percebe que a planta sempre tenta puxar o alvo depois de imobilizá-lo. Ela está presa ao solo e não tem outra arma além dos cipós.
Heragon, agora com a visão mais aberta por ter parado de atacar sem pensar, também percebe. Finalmente usa a cabeça para algo além de buscar emoção.
— Merlin, prende meus pés no chão! — grita o jovem Dragão.
— Tem certeza? Você vai ficar vulnerável!
— Confia em mim. Tenho um plano.
Heragon se concentra. A pele se torna firme, quase metálica. Usando a única Ressonância que aprendeu com alguma facilidade.
Matriz: Elemen Madeira — Enraizar!
Merlin faz raízes romperem do solo, prendendo o outro jovem até os tornozelos. A planta carnivora ataca ferozmente, seus cipós se fecham ao redor de seu corpo, apertando e puxando. A Carnoda tenta arrastá-lo, mas é inútil. Ele finca o corpo, abaixa o centro de gravidade e segura a força da planta nos braços e na postura, travando cada puxão na força de vontade.
Vamos lá… lembra da Salamandra. Fogo… fogo mais quente.
Ele estreita o olhar, fecha os punhos, respira fundo e solta o ar devagar. O Eco em sua mente ganha forma, imagem atrás de imagem, lado a lado, até se fixar em uma só. Subitamente, um clarão. Seu corpo se incendeia. As chamas correm pelos cipós. A planta grita em agonia. A boca se abre por completo.
A brecha perfeita.
De olhos fechados, Merlin cria em suas mãos duas grandes esferas de Eco, painéis cheios de pontos de luz. Flutuando entre elas, forma uma esfera menor, compacta.
Fios de energia saem das maiores e se conectam à menor, ponto por ponto monta um circuito no ar. Quando tudo se encaixa, Merlin choca as esferas, fundindo-as em uma só. A estrutura vibra.
Protocolo — Matriz: Elemen Vento e Luz/Variante — Vácuo!
Uma barreira luminosa se ergue ao redor da fruta. O ar é expulso, formando um vazio que impede as chamas de tocá-la. A Carnoda é consumida pelo fogo desabando queimando à grama ao redor, enquanto a fruta permanece intacta.
— Merlin! Você está bem?!
— Ai ai! Isso gasta energia demais.
De longe, Ouroboros observava tudo com um sorriso satisfeito no rosto.
— Morgan… seu discípulo é talentoso. Vou ter que pegar mais pesado com o meu.
Sem se mostrar, ele passa a seguir os garotos de forma sorrateira enquanto eles conversam.
Heragon coloca Merlin nas costas, pega a fruta e seguem rumo à saída da caverna.
No caminho, Merlin estranha a expressão no rosto dele.
— Então… por que está sorrindo tanto?
— Não sei. De repente, fiquei empolgado.
Dragões são a raça mortal com a maior expectativa de vida, capazes de viver por vários séculos. Com o tempo, talvez por viverem tanto, desenvolveram quase que por instinto uma sede inesgotável por adrenalina.
Sem nem perceber, ele já sentia isso nascer dentro de si. E, pelo visto, emoção não lhe faltaria.
De volta à casa do mestre, os dois chegam exaustos, mas em segurança. Como bom anfitrião rabugento, o mestre já havia deixado o caminho livre de perigos.
Ouroboros nota de imediato a fruta nas mãos do discípulo… e também o companheiro extra.
— Mestre, consegui. Olha o que eu trouxe.
— Vejo que além da fruta, trouxe um extra.
— Oi, me chamo Merlin. Até apertaria sua mão, mas estou exausto.
O ranzinza entende sem dificuldade, pede a fruta e, ao ouvir que o garoto estava perdido, decide que o guiaria assim que ele recuperasse as forças.
O garoto empolgado agradece e, sem economizar no carisma, comenta que Heragon tinha sorte de ter um mestre tão legal. Ouroboros resmunga, chama o garoto de bajulador… mas o orgulho aparece no sorriso.
No dia seguinte, já recuperado, Merlin se despede.
— Heragon, se um dia você for à Magi, me procure! Sou bem conhecido por lá.
— Pode deixar! E, se precisar de mim, é só chamar.
Merlin então se vira como se estivesse encerrando uma cena importante. Endireita a postura, faz uma pose exagerada, ergue a mão e anuncia, com a solenidade dramática de quem acredita demais no próprio roteiro.
— Que vença o melhor protagonista!
— Fechou! Até a próxima! Pera… o quê? Prota… pragonista… protanista?
E lá se vai o jovem Mago, desaparecendo pelo caminho e deixando Heragon para trás, confuso, mastigando uma palavra que ainda não fazia sentido na cabeça dele. Foi uma colaboração inusitada. Um encontro entre dois jovens que, algum dia, voltariam a lutar novamente… lado a lado.
Por enquanto, Heragon treina incansavelmente. O tempo passou mais rápido do que esperava. Foram dois anos de puro esforço.
No topo de uma árvore, Ouroboros observa o pupilo. Heragon está diferente: mais alto, mais forte, com o olhar firme e afiado.
À sua frente, uma criatura monstruosa. Couraça grossa, focinho alongado, dentes afiados… e aquela calma predatória que sempre anuncia tempestade. Os dois permanecem imóveis, esperando o primeiro movimento.
Então, de repente, um portal se abre no céu. Montada em uma vassoura voadora, alguém se aproxima sorrateiramente de Ouroboros, com um sorriso claramente malicioso.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.