Um homem de vestes negras e barba grisalha atravessa o teto. Antes mesmo de tocar o chão, agarra uma cadeira pelo encosto, puxa para si e se senta, cruzando as pernas com todo o conforto do mundo. O avô nem sequer reage. Mantém a postura intacta. Apenas enche outra xícara e a empurra na direção do visitante. No ar gélido da noite, até a lareira esfria diante daqueles dois se encarando.

    No mesmo instante, Heragon se pergunta: O quê? Mas… quem é esse cara? — Observa em silêncio, louco para perguntar o que está acontecendo, mas não consegue abrir a boca.

    — Depois de velho, esqueceu como funciona uma porta, Hugo? — O avô se senta, assoprando o chá.

    — Ora, ora, qual seria a graça de entrar pela porta da frente, Fiogon? — O invasor apoia os cotovelos na mesa. — Mas que inveja… você continua com essa aparência jovem. Qual é o segredo?

    — Hohoho, vantagens de cuidar bem da própria pele. — Sorri de canto, provocando.

    — Foi difícil te encontrar. Se escondeu em Floressi, bem no quintal da raça Predator. E ainda na Garra Verde, foi uma jogada esperta.

    — O melhor lugar é sempre o mais óbvio. — Toma um gole de chá. — Costuma ser o último onde resolvem procurar. Mas diga, a que devo a honra da visita do infame… Caçador Implacável?

    — Haha! Se fazer de desentendido agora é uma das qualidades do Guardião do Santuário? Você sabe por que eu vim. — A voz de Hugo endurece. — Vai ser do jeito fácil ou… do difícil?

    — E qual seria a graça do jeito fácil? — Fiogon levanta os ombros.

    As presenças dos dois se chocam. Partículas prateadas pontilham o ar ao redor, enquanto a energia o move violentamente. A pressão cresce de repente. A mesa se ergue do chão… gira à volta deles em espiral, até ser lançada contra a estante de livros. Páginas se soltam e voam pela cabana, presas num redemoinho intenso.

    Heragon tenta se manter firme diante dos dois, mas a pressão arranca seus pés do chão. Suspenso no ar, sem nada em que se apoiar… prestes a ser levado pela força que transborda deles, seu avô simplesmente pisca em sua direção.

    A paisagem muda diante de seus olhos.

    Uma brisa leve move seus cabelos. Suas mechas brancas brilham sob a luz prateada do luar, e a grama áspera roça seus dedos. A certa distância, Heragon avista a silhueta da cabana. Antes segura e aconchegante. Agora, hostil e… fria ao ver seu lar ser invadido. Não entende direito o que está acontecendo e sabe que é fraco demais para fazer qualquer coisa.

    A energia ao redor da cabana vibra… distorcendo a visão. Um clarão rasga tudo ao redor. As árvores em volta tombam com o impacto. 

    Fase Cheia!

    Sob um comando dado em pensamentos. De dentro da casa, irrompem dois gigantes. Madeira voa para todos os lados, erguendo terra com a força do choque. Por um instante, uma nuvem espessa de poeira cobre tudo num tufão prateado.

    Quando a poeira baixa, Hugo aparece envolto por uma grande armadura de energia. Tem a forma de um caçador fantasmagórico usando uma máscara de caveira.

    Fiogon assume uma forma serpentina de escamas roxas, flutuando sem asas. O Drake se move rasgando fendas no espaço, sem se prender a um só lugar.

    As nuvens se afastam.

    Hugo faz surgir um arco de energia entre os dedos do grande fantasma. Ao mesmo tempo, dispara uma sequência de flechas de luz na direção do alvo, cortando o ar num ritmo mortal.

    Fiogon ergue uma das garras e abre rasgos no espaço que engolem a saraivada. A quilômetros dali, o horizonte explode em clarões, erguendo cogumelos de poeira.

    — Sabia que você ia usar isso. — Hugo sorri.

    Ele ergue a enorme mão fantasma com os dedos em garra. Uma lança gigantesca de ponta curva se forma em pleno ar e dispara em linha reta, cortando as nuvens pelo caminho.

    Fiogon gira o corpo, serpenteando ao redor da lança. Faíscas pipocam com suas escamas raspando pela haste. Abre a boca, preenchida com uma energia lilás pulsando em sua garganta. Dispara um feixe que rasga o céu em linha reta. Ao mesmo tempo, abre uma fenda diante do raio. O ataque se divide saindo por outros portais, cortando o campo em todas as direções.

    Os braços do fantasma se cruzam, formando paredes translúcidas. Um escudo após o outro é destruído em sequência, até aquele devastador ataque parar.

    De longe, Heragon assiste. Seus olhos brilham com medo e admiração, os dois embaralhados em silêncio. Entre os arbustos, uma silhueta se move pelo escuro com passos curtos e sorrateiros. Num avanço rápido, dispara na direção do jovem… braços erguidos para agarrá-lo.

    De repente, um rugido paralisa tudo. O som sai da garganta de Fiogon, liberando uma onda que trava o espaço à volta. O avô voa rapidamente até o neto, tira o medalhão do próprio pescoço e o coloca na mão do garoto.

    — Você deve fugir. Eu vou segurá-los aqui, assim… não vão conseguir te rastrear.

    — Não! Vovô! Posso ajudar. Posso lutar ao seu lado. Posso…

    Heragon tenta avançar, mas a pressão no ar o empurra de volta. Aperta o medalhão com tanta força que, por um instante, faz a pedra avermelhada brilhar.

    O velho ergue o olhar para cima, e a voz sai grave. Sabe que ela está observando tudo.

    — Ei, velha gagá, abre um portal. Não quero que rastreiem Heragon pela minha assinatura de Eco.

    Uma bela voz invade sua mente no mesmo instante, indignada com a falta de elegância do pedido.

    ‘Velha gagá? Que falta de modos. É assim que pretende me pedir um favor?’

    — Só abre logo! — Fiogon mostra os dentes afiados.

    ‘Só porque é necessário. Não porque você mandou.’

    Sem enrolar mais, a voz obedece. Um portal se abre atrás de Heragon, distorcendo o espaço numa espiral de brilho dourado. O Drake ergue uma das garras e empurra o neto com cuidado em direção à abertura.

    — Vá, meu neto. Chegou a hora de andar com as próprias pernas.

    Heragon tenta resistir. Os dedos arranham o chão, o coração dispara… tudo dentro dele parece gritar. Por um segundo, encara o avô e percebe que insistir ali é matar os dois. Desiste e se joga, atravessando o portal com um olhar de agonia. O espaço volta a fluir normalmente. A silhueta que veio atrás do jovem corre em passos largos e salta sobre o ombro da armadura de Hugo.

    — Aconteceu como o senhor…

    — Esconda seus pensamentos, Ária — diz Hugo, sem desviar os olhos do Dragão. — Foi esperto pedir ajuda à nossa velha amiga, Fiogon. Vai ser bem mais difícil rastreá-lo agora.

    — Hohoho! Não nasci ontem. Mas, não acha injusto? Dois contra um velho indefeso? — Sorri de canto.

    — Ora, ora… chamar de indefeso um enorme Dragão, é muita cara de pau. Até para você. — Coloca as mãos na cintura.

    — Então… vamos parar de brincar? Sei bem que você não gosta de enrolação. — Fiogon estreita os olhos e retrai o corpo alongado até retomar a forma humanoide.

    — Finalmente. Gosto de caçar de frente… sem rodeios. Ter que me segurar é um saco. — Hugo fecha os punhos, e a armadura se desfaz em fumaça.

    O ar pesa. O chão racha sob seus pés em estalos. As folhas são lançadas em todas as direções pela pressão dos dois. As árvores que ainda se mantinham de pé se dobram, trincam e cedem. A mente de ambos se alinham.

    Fase Minguante!

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