O ar tropical carrega a leve brisa úmida da primavera. Dinossauros fazem o chão tremer, e um mestre ranzinza… começa o treinamento de um espírito teimoso.

    — Heragon, sabe o que é o Eco e as Ressonâncias? — pergunta o mestre, colocando os braços para trás.

    — São poderes legais para lutar. — O jovem sorri, orgulhoso da resposta.

    — Vejo que ainda temos muito o que trabalhar. — Ele suspira. — O Multiverso tem um grande teto, um colossal firmamento chamado Lua.

    — Uau! Tipo, já ouvi histórias. Tem outro nome, qual era mesmo? Pa-pateal.

    — Panteão, e isso não vem ao caso agora. Ele produz uma energia bruta, o Luar. Quando essa energia chega à camada que protege as dimensões, ela é filtrada. Sabe o que sobra quando isso acontece?

    — Ooo… Lu?

    — Tá querendo levar um cascudo? Enfim, o Eco, uma energia residual. Ela paira pelo ar das dimensões e, às vezes, pode ser vista como brilhos pontilhados.

    — Já… vi isto uma vez. — Ele abaixa o olhar.

    — Imagino onde tenha visto. Ela pode ser visível sob o choque de grandes presenças. Bem, existem duas formas de repor Eco: respiração e alimentação. Estamos constantemente absorvendo essa energia, mas em pequenas quantidades ao respirar. Com a técnica certa… esse processo pode ficar mais eficiente. O método através da alimentação é naturalmente mais preciso e não exige técnica. Animais e plantas já absorvem Eco eficientemente por natureza.

    — Então, tenho muita disso. Comer é muito bom. Quando vamos almoçar mesmo?

    — Se concentre! Ou então vou te servir sopa.

    Heragon aperta os lábios, arregalando os olhos em extrema concentração.

    — O Eco vibra em diferentes frequências o tempo todo. Seria algo como sete pessoas falando ao mesmo tempo em um espaço fechado. Ressoar seria… alinhar o tom das vozes. Ou seja, alinhar essa vibração em uma única frequência usando o canal.

    Heragon cruza os braços e franze a testa, tentando acompanhar.

    — Certo… certo… entendi.

    — Entendeu mesmo? — O mestre arqueia uma sobrancelha.

    — Pensando bem, não entendi foi nada. — Desvia o olhar.

    — Moleque. — Ouroboros lhe dá um cascudo.

    — Dentro de todo ser vivo tem o núcleo, algo como um segundo coração. Ele é dividido em sete repartições chamadas canais, que são como trilhas. Elas decidem para onde você vai. Eles são o Elemen, Mater, Forti, Modi, Invo, Mani e Adap. Este último serve como ponte entre canais.

    Heragon pisca algumas vezes, tentando acompanhar tudo aquilo.

    — Tá… então cada raça puxa mais para um desses?

    — Exato. Dragões usam Elemen. É o que nos permite criar e manipular elementos com base no atributo da própria espécie. Irei te mostrar. — Ele abre a palma da mão esquerda. Dela sai uma fumaça esverdeada. — Minha espécie usa o elemento Toxina. Digamos que… ensinamos aos nossos adversários o significado do rótulo de caveira. — Ouroboros sorri.

    — Haha! Não entendi bem, mas não me pareceu algo amigável.

    — Para mim é, sou imune. Continuando, você não precisa se apegar à ideia de seu canal central. Ele apenas diz qual é sua base. Assim como um bolo, pode misturar outros ingredientes para fazer uma torta de maçã.

    — Se é assim, dá para usar outros canais em conjunto ao central para criar uma ressonância fortalecida.

    — Hum… entendi, usando comida fica mais fácil de te ensinar. — Massageia entre as sobrancelhas. — Vou mostrar na prática.

    A névoa tóxica saindo da sua mão se transforma em uma chama verde queimando em uma mistura de fogo e fumaça.

    — Uau, está usando fogo! — Cruza os braços. — Estranho… parece fumaça, mas é fogo.

    — Imagine que você tenha uma fatia de um suculento bife (Elemen), mas… quer comer com queijo (Modi), só que não tem pratos e não quer eles soltos na mão. O que você faz?

    — Uso um pão (Adap) para uni-los, assim terei um sanduíche (ressonância tier 2).

    — Precisamente. Quanto mais canais forem alinhados, maior o tier da ressonância e mais forte ela fica.

    Heragon observa, empolgado. Mas a animação logo dá lugar a uma dúvida mais pessoal.

    — Legal… Eu achava que era um Drake igual ao vovô, mas… se eu usei fogo, então sou um Ignivern?

    O venenoso se cala por alguns segundos, como se estivesse avaliando até onde Fiogon tinha ido nos ensinamentos.

    — Pelo menos ele te ensinou alguma coisa sobre os Dragões. Enfim, para usar Ressonância, tem que aprender o Sinal, a mais simples é a faixa imagética. Pense no que quer criar em diferentes imagens e qual o resultado dela.

    Heragon abre a mão apertando o olhar e se concentrando como pode, mas nada acontece.

    — Imagine a chama em sequência: primeiro surgindo, depois se movendo, depois causando seu efeito, como se passasse quadros em série dentro da mente.

    Heragon aperta os olhos de novo. Faíscas pipocam na mão. A pequena chama nasce… e apaga. Nasce… e apaga.

    — Desse jeito, não vamos a lugar nenhum. Tem uma Ressonância padrão da nossa raça que é mais fácil de visualizar. Vamos começar por ela. — O ranzinza estala a língua.

    Os dias se passam, com uma dura rotina. Heragon acorda cedo, treina até os braços pesarem, erra, recomeça, escuta bronca, tenta de novo. Às vezes, sente que está prestes a entender. Em outras, parece que voltou à estaca zero. O corpo dói, a cabeça cansa, a paciência vai embora rapidinho… mas ele continua. Teimoso como só ele. Até que, depois de vários dias naquele ritmo exaustivo, o velho o chama para conversar.

    — Heragon, tenho um desafio para você. Vá até uma caverna próxima e traga uma fruta que cresce numa plantinha.

    — Uma fruta? — O garoto pisca, confuso.

    — É fácil. Mas vai ser bom para o seu crescimento.

    A resposta é simples, quase seca, mas basta para acender algo dentro dele. Heragon parte determinado. E também empolgado, como se a simples chance de sair em missão já fosse uma recompensa.

    No caminho, a floresta parece maior do que de costume. Ele evita confrontos com criaturas enormes, escolhe trilhas estreitas, passa por ossadas antigas e troncos marcados por garras profundas. A cada passo, a sensação de estar sozinho numa pequena aventura só aumenta. Quando chega perto de uma cachoeira, atravessa um arbusto e bate a mão na roupa para tirar as folhas presas no tecido.

    Então percebe que não foi o único a sair dali. De outro arbusto, um pouco mais à frente, surge um garoto de manto longo, cabelos azul-claros de olhar curioso. Os dois param e se encaram com o mesmo pensamento.

    Quem é esse?

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