Capítulo 03 — Respiração Ardente

No topo de uma montanha, primeiro é só um fio fino, escorrendo devagar. Logo, outros fios se juntam, formando um pequeno riacho que começa a descer. Serpenteia entre plantas gigantes, raízes grossas e folhas largas que brilham sob a luz dos astros. Dinossauros bebem em suas margens, e o chão treme a cada passo pesado que dão.
Mais adiante, o rio despenca em uma imensa cachoeira, rugindo alto e espalhando névoa por todo o vale. Lá embaixo, a água cai em um lago calmo, cercado por pedras e samambaias enormes.
À margem do lago, com o rosto enfiado na grama, um jovem repousa silenciosamente. Pequenos répteis andam em grupos, farejando qualquer coisa que pareça comida. Um deles se aproxima, curioso, e arrisca uma mordida exploratória.
— Aiii! Minha bunda! — Heragon salta, esfregando o local da mordida.
Olha ao redor, tentando entender onde está. O ambiente é tropical, úmido, desconhecido. Nota o medalhão em sua mão, aperta-o com força e se lembra do que aconteceu. Dobra o braço, com um olhar determinado: Onde vim parar? Tenho que achar o vovô.
Acostumado à natureza, se orienta com facilidade. Cruza um córrego, salta por cima de folhas enormes e abre caminho entre cipós. Ao puxar um galho volumoso, dá de cara com algo nada agradável: olhos grandes, pele negra porosa com manchas amareladas e uma cabeça achatada apoiada num tronco comprido.
— Eita! Esse padrão de cor é problema. — Heragon solta o galho, que volta como um chicote.
O focinho da criatura é acertado e folhas se espalham no ar. Não espera para conferir, corre, corre como se a vida dependesse disso. Furiosa, a fera dispara atrás dele, com o corpo longo e flexível deslizando pelo solo. Das manchas luminosas, bolas de fogo são disparadas em sua direção, cortando a escuridão.
— Aaah não. Era só o que me faltava!
Desvia como pode, rodeando árvores que logo são incendiadas, escapando de galhos e grandes samambaias. A perseguição se estende até alcançarem um pequeno desfiladeiro. Heragon salta com tudo agarrando a parede do outro lado por um triz.
A criatura freia na borda e o encara. Com um sorriso de vitória, agarrado na beirada com uma mão, mostra a língua para o bicho, provocando-o. A fera, no entanto, olha para baixo, vê o rio… simplesmente se atira, caindo de peito na água. Logo reaparece, nadando em sua direção e escalando a parede como se não fosse nada.
— Agora ferrou. — Sobe o mais rápido que consegue.
A criatura volta a persegui-lo. Até que se deparam com a base de uma montanha, íngreme demais para ser escalada, enquanto a selva se fecha nas laterais.
Encurralado, ele não tem escolha. Avança para cima da fera. Heragon desvia das bolas de fogo e tenta golpear, mas o soco escorrega pela pele úmida da criatura. O fazendo perder o equilíbrio… a chicotada da cauda estala em seu peito. O impacto o arremessa contra a pedra. Caído exausto no chão.
— Ah! Estou no meu limite. — Aperta o olhar. — Vovô! — Com a visão turva, fecha os olhos, e o avô lhe vem à mente numa lembrança de dois anos atrás.
Heragon treinava artes marciais. Movimentos desengonçados, sem técnica, sem experiência. Fiogon desviava dos golpes do neto com facilidade, em movimentos leves e precisos. Quando um soco passa direto no ar, o jovem tropeça e cai. Fica no chão, com o peito queimando de exaustão.
— Vovô… eu estou… muito cansado. — Seu peito sobe e desce em um vaivém desordenado.
— Hoho. Já chegou no limite? Levante-se, mais uma sequência. — O velho insiste.
— Não… consigo.
— Esse não é seu limite. Esse seu “não consigo” é porque você não sabe respirar.
— Claro que sei! Eu estou respirando!
— Respirar para viver e respirar para sobreviver são coisas diferentes.
— Como assim? — Se apoia, sentando no chão. Encara o avô enquanto coça a cabeça.
— Levante. Vou te ensinar a respirar direito.
De volta ao momento presente, o jovem se levanta com dificuldade, apoiando-se na parede de pedra.
Retire todo o ar dos pulmões. — Heragon obedece, esvaziando o peito de uma só vez. Relaxa os ombros, que caem, deixando os braços soltos.
Um líquido viscoso escorre pela pele do monstro, entrando em combustão em segundos. O ar é puxada para sua boca, sugando as chamas para dentro. Após canalizado, dispara um jato de fogo contra o garoto.
Inspire lentamente o máximo que conseguir. — O Eco ao seu redor começa a pontilhar, brilhando em prateado enquanto o jovem abre os braços para os lados, puxa o ar devagar.
As chamas são sugadas para dentro de seus pulmões à medida que chegam até ele. O branco toma seus cabelos por inteiro, brilhando sob o reflexo do luar. A criatura o fita com olhar confuso. Sem pensar muito, prepara outro ataque, focada em sua presa.
Com o Eco mais calmo, seu corpo e sua respiração ficam mais leves. Só o agite se precisar de poder. — No silêncio absoluto de sua mente, as ondas de energia variam de tamanho violentamente, oscilando sem controle. Pensando no que precisa, ele escolhe. — Poder.
O Eco em grandes ondas se condensa junto às chamas em seus pulmões, formando um grande círculo de puro ardor. O inimigo não perde tempo, lança um novo ataque furioso.
Por alguns segundos, prenda a respiração… e expire como um último sopro de vida. É assim, meu neto, que você… deve respirar. — As narinas de Heragon se iluminam, sua garganta brilha em vermelho e faíscas contornam seus lábios. O sopro sai como um mar de chamas, queimando o solo, árvores e plantas pelo caminho.
As rajadas se chocam num clarão, oscilam em um cabo de guerra ardente, mas o fogo do jovem vence o da criatura, engolindo-a por completo. Sua energia se esgota por completo. Antes de desmaiar sobre o solo queimado, seus olhos brilham em vermelho. O cabelos por sua vez, permanecem no tom branco, cada fio, sem nenhum resquício do que era antes.
A salamandra por outro lado, se levanta queimada… mas viva. Avança ferozmente querendo saborear a teimosa caça. Abre a boca mirando a cabeça do jovem, pronta… para o bote final.

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