Capítulo 09 — Veneno vs Nevoeiro

A uma certa distância do pilar, Dragão e caçador se encaram. Com um olhar confiante, Ravier faz o primeiro movimento:
Fase Cheia!
A energia dele se desfaz em fumaça enevoado tudo ao redor. Pouco a pouco, os olhos brilhantes somem atrás da cortina esbranquiçada.
Vultos circulam a área a passos rápidos, quase sem sombra de movimento.
Da fumaça adagas se formam sendo lançadas do nada, assoviam no ar rumo ao Dragão que as desvia com movimentos simples de mão.
Uma kunai é arremessada com precisão, Ouroboros move a cabeça em evasiva, mas outra sem aviso se aproxima rapidamente rumo ao seu olho… feito uma sombra viva, Ravier chega por trás atacando de baixo para cima.
O mestre contorce seu corpo em um ângulo impossível, parando ambos ataques ao mesmo tempo.
O caçador não desiste, se afasta arrastando as mãos no chão já conjurando seu próximo movimento. Correntes irrompem do solo prendendo Ouroboros em um aperto mortal, esferas de energia forradas de espetos pontiagudos o certam e expandem de uma só vez.
— Oi, oi… não me diga que já morreu? — diz Ravier com grande confiança.
— Haha… bela sequência de golpes. Mas, creio que nunca lutou contra um Dragão… odiamos ser subestimados. — De dentro dos orbes, uma fumaça verde começa a vazar. Aqueles objetos de energia derretem voltando ao imaterial.
— Hã… Dragões vivem muito, mas não são imortais. Se morrem, podem ser caçados. — Levanta o rosto em superioridade.
— Vejo que não me apresentei. Meu nome é Ouroboros. Resista a isso… e talvez eu leve o que você falou a sério. — O velho dragão ergue a cabeça.
— O quê…? Espera… aquele Ouroboros?! — Os olhos de Ravier se arregalam.
Fase Cheia!
Escamas que variam do marrom claro ao escuro se espalham pelo corpo. O tronco alonga. A silhueta toma a forma de uma serpente colossal, com um chifre cravado bem no centro da testa.
A cauda varre a névoa num único golpe, abrindo um rasgo de visibilidade no campo. Ele abre a larga boca e da garganta, dezenas de serpentes venenosas disparam para fora.
Elas deslizam pelo cobertura enevoada em torno de Ravier, mordem violentamente o revestimento de energia arrancando pedaços que esfumaçam no ar.
— Aprenda… caçador. — As serpentes se desfazem em fumaça. — Nunca subestime seu adversário.
Um turbilhão gira densamente em uma esfera corrosiva. Quando o ataque cessa, Ravier ainda está de pé com o corpo salpicado de manchas negras e os olhos brancos, vazios.
Um segundo depois, desaba de costas completamente paralisado.
Ouroboros desfaz a forma dracônica e puxa o ar, fundo.
— Usar a primeira fase foi um pouco demais… — murmura, ajeitando os cabelos. — Que inveja do Fiogon… queria ter lutado contra o Hugo.
Ele retorna ao Pilar, onde Sara está sentada calmamente lixando as unhas, enquanto um grande urso de pelúcia de aparência sinistra desfere golpes constantes na Predator desacordada.
— Sara, pode parar. Ela já está inconsciente. — Põe a mão na cintura.
— Mas ela me irritou! — Estica os braços com os punhos fechados.
Com um estalo de dedos, a criatura é puxada por um portal.
— Entendeu, Heragon? — diz Ouroboros. — As Fases extraem da Lunae poder puro.
Heragon, ao ver tamanho brutalidade, engole seco e com toda certeza, vai se lembrar disso.
O mestre caminha até o Pilar em passos largos. Ao tocá-lo, uma luz nasce de baixo para cima. Então surge um portal circular, faiscando pelas bordas, brilhando em espiral num roxo vivo que corre das bordas ao centro.
— Irei te enviar para Símia, procure o posto avançado dos Guias. Mostre o medalhão, irão te levar para onde quiser depois disso.
— Sim, senhor. Obrigado por tudo. Esses dois anos, foram divertidos.
— Menos drama. Sem abraço, apenas vá. — Meche a mão em sinal de vai logo.
— Boa sorte, fofinho! — grita Sara.
Caminha a passos curtos. Cada pegada carrega as marcas das memórias que o trouxeram até aquele momento. Diante do portal, lança um breve olhar para trás e, com um gesto simples da mão, se despede do passado para manter o foco na jornada que está à sua frente.
— E lá vai ele. — Ouroboros passa a mão em seus cabelos. — Sinto que estou esquecendo algo.
Sara abre a bolsa para guardar a lixa. A revira, seu alhar é de “Ah” ao ver um passaporte com o nome do jovem.
— Ah, hehe… se esqueceu… não deve ser importante.
Na maior cara de pau, em pensamentos, apenas deseja boa sorte ao garoto.
Enquanto Heragon se move pelo tecido do espaço, em outro lugar… onde a brisa sopra suave e a natureza trabalha em perfeita harmonia, o próprio som do ambiente parece uma serenata para o mundo. Ali, uma mansão majestosa faz jus ao cenário.
Pilares ornamentados com fios de ouro, telhado de telhas esculpidas em safiras, detalhes refinados por toda a estrutura. Diamantes refletem a luz do sol, exibindo para qualquer um que veja aquela casa o poder de quem vive ali.
Ao entrar e seguir por um corredor repleto de obras de arte, chegamos a uma porta dupla, coberta de runas que brilham constantemente. Atrás dela, há uma ampla sala com diversos retratos de uma única pessoa. A única que importa.
Ao redor, menos importantes do que os retratos, relíquias inestimáveis e ornamentos cobertos de pedras preciosas adornam as paredes. Ao fundo da sala, há um tatame escondido atrás de um véu translúcido.
Por trás do tecido, uma mulher observa em silêncio: bela, sedutora, cabelos dourados como fios de ouro, cacheados como uma cachoeira inquieta, com olhos tão brilhantes quanto as pedras preciosas ao redor.
Ao seu lado, uma esfera flutua, um enorme globo ocular com uma runa no lugar da pupila. Encará-la dá a sensação de que ela vasculha a sua alma.
— Entre — diz a mulher, com uma voz majestosa.
A porta se abre, e uma jovem entra. Cabelos loiros tão longos que quase tocam o chão, roupas leves e um olhar confiante. Ela se ajoelha diante da incomparável mulher.
— Bia Mormou se apresenta diante da Guia Suprema.
A beldade observa com serenidade, enquanto um sorriso sedutor se desenha em seus lábios. Leva um dedo à maciez da própria boca, inclina levemente a cabeça e apoia o rosto sobre o punho.
— Você, dentre os jovens, é a mais talentosa. Já está apta para sua primeira missão. Será seu teste de graduação.
— Agradeço o elogio, senhora. Prometo não decepcioná-la. — A garota baixa a cabeça em respeito.
O olhar da mulher pesa ao escutar uma certa palavra.
— Ah… quer dizer: bela dama, nossa grande Guia Suprema. — Bia se corrige.
— Melhorou. Perdemos contato com nosso posto avançado em Símia. Quero que vá até lá, verifique a situação e me reporte pessoalmente quando retornar.
Com um aceno elegante, a Guia Suprema a dispensa. A jovem se levanta em silêncio, um sorriso leve nasce no canto de sua boca. Se vira movendo seus cabelos já dando o primeiro para a saída. Quando a porta se fecha, um homem de máscara negra se destaca na penumbra, encostado à parede, braços cruzados.
— Ela ficou bem orgulhosa — comenta, num tom calmo.
A belíssima se levanta apoiando os braços ao assento. A esfera flutuante a acompanha enquanto ela atravessa o véu e caminha até a janela, observando Bia ir embora.
— Muito talento pode gerar excesso de confiança. Com o tempo e com experiência, ela mudará.
— Você não mudou.
— Sou incrível demais. Meu orgulho é perfeitamente compreensível. — Um sorriso confiante toca aqueles lábios delicados.
O mascarado lança um olhar para a esfera ao seu lado, pensando que aquela coisa continua sinistra como sempre. Percebe o grande contraste que tem aqueles dois, ao ver a mulher apoiar o cotovelo no Artefato flutuante.
— Ele já os notou.
Em sua máscara, uma runa branca se destaca ao meio ao preto. O estranho símbolo se move de maneira irregular, se moldando em uma expressão contente.
— Era de se esperar. Com o selo prestes a se romper, ele deve sentir com mais clareza as mudanças desta linha do tempo. — Passa a em seu canelo, jogando fios para trás da orelha. — Não é algo que precise nos preocupar. Por conta da natureza do que eles são, notá-los será o máximo que conseguirá fazer.
— Assim espero. — O padrão da máscara muda para confusão. — Percebeu que Heragon está indo para Símia.
— Claro que Percebi, quem você acha que eu sou? Mas, de acordo com os planos daquele homem, ainda é cedo. Então o mandei para aquele outro lugar.
— Se é esse o caso, vou para lá observá-lo de perto.
— Não vai vigiar aquele outro?
— Enquanto ele estiver com o selo amaldiçoado, não se moverá.
— Imagino que seja verdade. — Ela aceita a resposta com um leve aceno. — Abrirei um portal para você. Lembre-se: sua interferência deve ser mínima. O jovem deve aprender a se virar.
— Eu sei.
A Guia Suprema retorna ao tatame. Com um simples gesto, um portal se abre em meio à sala. O homem atravessa o véu dimensional e desaparece.
Sozinha outra vez, restando apenas a companhia do Artefato flutuante, ela fecha os olhos e sussurra:
— Grande Gaia… esta é a nossa última chance. Desta vez, não podemos falhar.

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