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    Sem esperar resposta, Brigitte já havia se afastado pelo corredor, com seus passos firmes desaparecendo à medida que corria em direção das escadas metálicas. O eco da luta ao longe continuava — tiros, estalos secos, o som que é feito quando Evelyn cria algo com sua Alma.

    O banheiro ficou estranhamente silencioso depois disso. Niko observou a entrada vazia por alguns segundos, como se estivesse avaliando algo além do que era visível, uma possibilidade. O olhar dele então deslizou para a garota sentada no chão, ainda tremendo, abraçando os próprios joelhos com força. Ele se aproximou devagar, agachando-se a uma distância segura.

    — Ei… — disse, em um tom mais baixo. — Como é o seu irmão?

    A garota levantou o rosto lentamente. Os olhos ainda estavam vermelhos, úmidos, mas havia um sentimento a mais ali agora — uma hesitação cuidadosa, como se escolhesse cada palavra com medo de errar.

    — Ele… — começou, apertando os dedos contra o tecido da própria roupa. — Ele é uma pessoa má.

    A frase saiu pequena, quase envergonhada. Ela desviou o olhar para o chão por um instante, como se aquilo fosse uma forma de traição.

    — Mas… ele é meu irmão. — acrescentou, a voz falhando um pouco. — Eu amo ele mesmo assim.

    Niko não respondeu imediatamente. Apenas assentiu de leve, como se aquela resposta confirmasse algo que ele já suspeitava.

    — Você acha que ele faz o mal, não é? Então você gostaria de impedir o que ele faz?

    Ela apenas acenou com a cabeça, com a expressão triste se transformando lentamente em uma confusão curiosa.

    — Nesse caso, você nos ajudaria a encontrar alguém? — perguntou então.

    Gwen, encostada na parede ao lado, virou o rosto na direção dele com uma expressão incrédula.

    — Você tá falando sério? — murmurou, de canto. — A gente vai confiar nela assim? Ela primeiro disse ser o Valand, depois a irmã dele. Você acha mesmo que ela é confiável?

    Niko não olhou para ela. Ficar parado ali parecia errado. Cada segundo parecia pesado demais, cada segundo que não fazia algo o afastava do dríade. Depois de tudo que havia acontecido, depois de estarem tão perto do garoto, a ideia de simplesmente esperar dentro de um banheiro enquanto o resto da base estava ocupada com Evelyn e Brigitte era sufocante.

    Ficar no banheiro é realmente a opção mais segura”, pensou ele, lembrando das palavras de Brigitte, “Mas… eu não consigo ficar parado.

    — A gente precisa agir logo. — disse por fim, em voz baixa, mas firme. — Você sabe o quanto a gente tá perto, Gwen.

    A garota levantou o olhar novamente, fazendo um som hesitante, como se quisesse voltar a atenção a si. Niko e Gwen voltaram os olhos a garota no mesmo instante.

    — Ah. Tudo… t-tudo que o meu irmão tem relacionado ao… trabalho dele fica no escritório dele. — disse. — Documentos… coisas importantes… Ele guarda tudo lá.

    Niko franziu levemente a testa, tendo uma ideia de onde seria o lugar.

    — Escritório… fica no andar de cima?

    Ela assentiu.

    — Sim.

    Ele passou a mão pelo próprio cabelo, soltando um suspiro curto. Ele já havia visto isso no mapa da base. Já tentaram entrar lá antes e estava trancado. Mesmo que a — suposta — irmã de Valand conseguisse abrir a porta do escritório, ainda teriam que atravessar pelo armazém do segundo andar, ou seja, esperar por Evelyn e Brigitte. Não podiam fazer nada.

    — E pra chegar lá em cima tem que passar pelo armazém… — murmurou. — Que ótimo.

    A garota hesitou por um instante, como se estivesse decidindo se devia falar ou não.

    — T-tem… outra forma. — disse por fim. — Tem outra forma de ir para o escritório do meu irmão. Uma passagem secreta. Meu irmão usa quando não quer ser visto.

    Gwen soltou um pequeno som de descrença, um sopro curto pelo nariz, como se tivesse acabado de ouvir a desculpa mais conveniente possível naquele momento.

    — Claro que tem.

    Ela cruzou os braços com força, transferindo o peso do corpo para uma perna só, o olhar indo da garota para Niko e voltando novamente, desconfortável demais para confiar, irritada demais para ficar quieta.

    — Ainda acho que seria mais inteligente ficar aqui. — acrescentou. — Porta estreita, cobertura boa, além disso eles vão estar concentrados nas suas amigas. Não tem porque sair. Logo logo os capangas vão estar mortos ou desmaiados mesmo.

    Niko balançou a cabeça. Ele sabia os benefícios de ficar ali, mas ele tomou uma decisão quando viu pela segunda vez aqueles homens, que machucaram o dríade, naquela noite. Ele não iria voltar atrás naquela decisão.

    — Eu sei que é mais seguro ficar aqui, mas nesse banheiro a gente só vai perder tempo. Eu não aceito ficar aqui. — respondeu.

    Ele estendeu a mão para a garota. Ela hesitou apenas um segundo antes de aceitá-la. No instante seguinte, ela já estava de pé, fixa nos olhos albocernicos de Niko. Ela era apenas alguns centímetros menor que o garoto.

    — Mostra o caminho. — disse ele.

    Gwen soltou um suspiro irritado, empurrando a parede com as costas e o pé para se desencostar, como se estivesse se rendendo a uma decisão que já sabia que não conseguiria mudar.

    — Você é impressionante, Niko. — disse ela. — Ah, foda-se, eu vou junto com vocês.

    O armazém do segundo andar era um espaço amplo, aberto e alto, sustentado por vigas metálicas grossas que cortavam o teto como costelas expostas. Caixas de madeira e estantes de metal formavam corredores improvisados enquanto uma pequena passarela formava pontos elevados. Era um lugar pensado para armazenamento, mas funcionava ainda melhor como posição defensiva.

    Seis homens estavam espalhados pelo ambiente, todos armados — três com rifles, dois com pistolas e somente um com uma escopeta. Alguns se escondiam atrás de caixotes, outros ocupavam os locais superiores, vigiando as escadas e os acessos. O silêncio tenso indicava que estavam esperando pela elfa, sabendo exatamente de onde ela surgiria — das escadas.

    Foi então que um estalo seco cortou o ar. O chão próximo a um dos homens simplesmente explodiu em gelo, uma estaca cristalina rasgando o concreto e atravessando sua coxa antes de emergir quase um metro acima. O grito de dor mal terminou de ecoar quando outra lança surgiu sob um segundo capanga, acertando-o no abdômen e cravando-o contra uma pilha de caixas, que se desfez com um estrondo de madeira quebrando.

    Evelyn aproveitou a distração que criou e surgiu entre os escombros do piso rachado, com os olhos brilhando com uma fúria fria e concentrada. O ar ao redor dela parecia mais pesado, carregado de cristais minúsculos que orbitavam à sua volta.

    Os outros homens reagiram imediatamente — um da passarela superior e outro no solo. Dois rifles dispararam quase ao mesmo tempo. Evelyn ergueu a mão sem sequer olhar diretamente para eles, e uma parede de gelo irregular brotou do chão, parando as balas com impactos secos que espalharam rachaduras pela superfície translúcida azul.

    Em seguida, duas rajadas de gelo em forma de lâmina curva cortaram o ar em direção ao teto, deixando rastros brancos como cicatrizes congeladas. O homem que estava na passarela superior teve apenas um reflexo desesperado de se jogar para o lado, rolando sobre o metal para não ter o torso aberto pelas lâminas que atravessaram o corrimão e se cravaram nas vigas atrás dele com um estalo agudo.

    O outro capanga, no nível inferior, tentou contornar por um corredor estreito formado pelas pilhas de caixas, levantando a pistola com as mãos trêmulas enquanto avançava às pressas. Foi então que a elfa voltou a sua visão. O olhar dele estava fixo em Evelyn — medo puro misturado com a determinação suicida de quem sabia que não teria outra chance.

    O gelo já começava a se formar sob os pés dela, subindo em espirais finas pelo ar como se obedecesse a um comando invisível. Bastaria um gesto mínimo, um pensamento, e aquele homem seria empalado ou esmagado como os outros. 

    Antes que o pensamento se formasse, uma sombra caiu sobre o corredor no último segundo. Brigitte surgiu do alto, descendo em um golpe preciso, o corpo girou no ar antes de estender a perna em uma voadora direta no peito do homem. O impacto foi explosivo, seco, acompanhado do som abafado de ar sendo arrancado dos pulmões dele enquanto o corpo era lançado para trás, atravessando uma pilha de caixas que se desfez em madeira estilhaçada antes de ele desaparecer entre os destroços.

    — Ei! Ninguém pediu sua ajuda! — gritou Evelyn imediatamente, sem sequer olhar para ela.

    Brigitte ergueu os olhos para a passarela, avaliando rapidamente as posições inimigas como se a irritação da elfa fosse apenas ruído de fundo.

    — Calma, Eve. — respondeu, em um tom leve demais para a situação. — Você tá meio estressadinha hoje. Precisa se preocupar não que eu te ajudo.

    Um dos homens tentou aproveitar a distração e avançou por trás de uma pilha de caixas, levantando a escopeta para disparar à queima-roupa.

    Brigitte girou o corpo e o atingiu com um soco ascendente brutal. O impacto levantou o homem do chão e o arremessou contra uma coluna de metal, onde ele desabou inconsciente.

    Evelyn finalmente virou o rosto na direção dela. Os olhos estavam estreitos, gelados e furiosos.

    — Grrrr…

    O som saiu baixo, quase animal, vibrando na garganta enquanto o gelo ao redor dos pés dela começava a se espalhar pelo piso como rachaduras congeladas. Sem dizer mais nada, ela avançou novamente na direção dos inimigos restantes.

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