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    A esotérica não falou nada de imediato. Ficou ali por alguns segundos, parada ao lado dele, observando a posição em que ele permanecia, como se estivesse tentando decidir se aquilo precisava mesmo ser interrompido. O cotovelo apoiou no balcão com um leve deslocamento de peso, e o corpo se inclinou um pouco na direção dele, sem invadir demais seu espaço.

    — Você já tá nessa posição faz quase meia hora… — disse por fim, em tom baixo, como se não quisesse chamar mais atenção do que o necessário. — Tá tudo bem?

    Não houve nenhuma resposta. O som do bar continuou preenchendo o espaço entre os dois. Copos, vozes, passos, risadas curtas demais para importar. Percebendo que Niko não dava qualquer sinal de reação, Gwen decidiu insistir. Percebendo a ausência de qualquer reação de Niko, Gwen decidiu insistir.

    — Olha, se você não quiser falar nada tudo bem, mas voc-

    — Eu odeio isso… — disse ele finalmente, de voz abafada, arrastada, comprimida contra a madeira.

    Gwen não mudou de postura. Não recuou, não se aproximou mais. Apenas deixou o olhar permanecer nele, absorvendo a frase antes de decidir o que ela significava.

    — A situação foi complicada mesmo. — respondeu, com naturalidade suficiente pra não parecer invasiva. — Aquela coisa do dríade…

    — Não. — interrompeu, ainda na mesma posição. — Não é a situação do dríade.

    A pausa que se seguiu foi curta, mas diferente. Não era vazia como as anteriores. Havia intenção nela.

    Eu odeio você.

    O som ao redor não parou. Nada no bar mudou. Mas, naquele ponto específico, algo pareceu se fechar.

    Gwen travou o olhar nele por um instante, como se tentasse entender se tinha ouvido certo. As sobrancelhas se juntaram de leve, numa quebra súbita de expectativa. Houve um pequeno atraso antes que algo mais suave surgisse por baixo. Não era exatamente mágoa, mas chegava perto. Um incômodo silencioso.

    — Me expressei mal… Não tava falando de você como pessoa… — continuou ele logo em seguida, ainda sem levantar a cabeça. — Mas o fato de que eu não te entendo.

    Agora sim, Gwen piscou. O peso da frase não desapareceu, mas mudou de forma. A tensão nos olhos cedeu espaço para outra coisa. A confusão continuou, agora vinha acompanhada de mais curiosidade, como se estivesse tentando reorganizar aquilo em algo que fizesse sentido.

    — …Como assim? — perguntou, sem pressa.

    Niko finalmente se moveu. Devagar. O braço que sustentava parte do peso deslizou levemente, o suficiente para sair daquela posição completamente afundada. Sustentou o queixo com a superfície da mesa, enquanto cruzava os braços à frente, cobrindo parcialmente a boca. Os cornicellos tilintaram com o ajuste, um som pequeno que logo se perdeu no ambiente.

    — Antes… — começou, a voz ainda baixa, mas um pouco menos arrastada. — Tudo tava funcionando bem… perfeitamente bem…

    A respiração entrou, saiu.

    — A gente foi pro terminal. Encontramos o suspeito. Fomos pra casa de um dos capangas. Fomos pra base deles. Cada passo progredia bem… — ele fez uma pausa curta. — Mesmo quando algo parecia dar errado… ainda dava certo.

    O dedo se moveu levemente contra a madeira, traçando um movimento sem direção.

    — Tudo parecia fazer sentido… Teve um momento que senti que qualquer direção que a gente tomasse iria ter resultados. — a albocerno mudou o olhar, indo em direção a Gwen, os olhos se encontrando. — Afinal, você tava do meu lado. Eu podia contar com a sua habilidade de fazer tudo dar certo pra você.

    Outra pausa.

    — E aí… — o som saiu mais seco dessa vez. — A gente entrou na base do Valand.

    O silêncio veio logo depois.

    — E tudo desandou… A gente foi capturado. Eu quase morri. E… — um grande suspiro. — A gente não encontrou o dríade…

    Ele virou a cabeça de lado. Um pequeno tilintar dos talismãs acompanhou o movimento.

    — Sua sorte… — ele murmurou, mais baixo agora. — Simplesmente morreu ali e eu odiei isso. Odiei porque não entendo. Odeio não entender as coisas…

    O som dos cornicellos ainda balançou por um instante, até se aquietar de vez, servindo como um “ponto final” físico para a fala de Niko.

    Gwen não respondeu na hora. O olhar dela passou do garoto para a frente, não exatamente nas garrafas de álcool, mas para além disso. Ficou encarando o nada enquanto preparava a resposta — como se não fosse algo que ela já carregava preparado.

    — …Eu também não entendo. — disse, por fim.

    Sem peso. Sem defesa. Só simplesmente a verdade. O som do bar atravessou o espaço entre as palavras antes que ela continuasse.

    — Não do jeito que você quis dizer, mas eu de fato não entendo isso. — acrescentou, apoiando melhor o cotovelo na madeira. — Não tem um padrão que eu consiga apontar e falar “agora o mundo conspira a favor de mim”.

    Ela inclinou levemente a cabeça, como se estivesse tentando lembrar de algo específico, não explicar.

    — Às vezes… só acontece. Às vezes o destino me escolhe e faz eu ter a maior sorte possível.

    Gwendolyn riu. Uma risada baixinha e curta, mas carregada de memórias e significado.

    — Teve época que eu não tinha nada. — continuou, ainda no mesmo tom. — Quando eu digo nada, é nada mesmo. Não tinha uma casa, não tinha comida garantida, não tinha amigos, família pra cuidar de mim, nada.

    A fala veio sem dramatização. Como quem menciona um detalhe qualquer.

    — E, mesmo assim, as coisas simplesmente apareciam pra mim e eu conseguia viver até melhor do que as outras pessoas na minha situação.

    Uma pausa curta.

    — Mas eu nem sempre ganhava esses presentes quando eu queria. — um pequeno movimento de ombro. — Mas, se tem algo que acontecia, é que eu sempre ganhava eles quando precisava. E quando eu ganhava… eu ganhava muito.

    Niko permaneceu imóvel, mas a atenção já não estava mais perdida no vazio. Ainda não era uma presença completa — era mais como alguém ouvindo do fundo de um lugar muito distante, tentando decidir se valia a pena voltar.

    Gwen não parecia nenhum pouco preocupada em convencer Niko. Ela apenas falava das memórias como quem revisita uma estrada que já percorreu tantas vezes mas que não tinha ninguém com quem compartilhar as aventuras.

    — Tipo, teve uma vez que eu tava realmente ferrada. — ela soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase um riso sem humor. — Eu devia ter uns treze anos. Tava chovendo fazia dias e eu tava doente, sem conseguir parar em lugar nenhum porque ninguém queria uma criança estranha tossindo perto da comida deles.

    Ela apoiou melhor o braço no balcão, continuando com o semblante nostálgico.

    — Eu tava com febre péssima, eu tava completamente podre. E eu lembro exatamente de pensar que, se eu dormisse ali, no frio, eu provavelmente não ia acordar muito bem no dia seguinte… Na verdade, eu nem sabia se ia acordar mesmo.

    A voz continuava calma. Quase irritantemente calma.

    — Até que eu passei na frente de uma casa enorme. Rica. Ridiculamente rica. E tinha uma janela da cozinha aberta.

    Ela ergueu um dedo, como se ainda visse a cena.

    — E, na mesma hora, uma senhora começou a gritar lá dentro porque alguém tinha deixado uma panela queimar e todo mundo foi correndo pra cozinha.

    Um pequeno sorriso apareceu.

    — E bem do lado da janela tinha uma cesta inteira de pão recém-feito e remédios separados pra alguém.

    Ela olhou de lado e, por um segundo, os olhos dos dois se encontraram.

    — Niko, eu não tô falando de “ah, achei uma moeda no chão”. Eu tô falando de coisas absurdas. O tipo de coincidência que parece quase mentira de tão perfeito que é.

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