Índice de Capítulo

    A frase ficou entre os dois por um instante, simples e direta, mas firme o bastante para mudar completamente o ar ao redor. Gwen não respondeu de imediato. Primeiro apenas observou, ficou com os olhos fixos nele como se quisesse ter certeza de que aquilo não era só um impulso momentâneo. Não era.

    Ela percebeu isso no jeito como ele finalmente mantinha a cabeça erguida. Ainda cansado, ainda irritado, ainda longe de estar bem — mas presente outra vez. 

    Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dela. Um sorriso de orgulho, orgulho de que aquela pessoa continuava sendo o mesmo filho de Cernunnos que havia conhecido no início do dia.

    — Bem melhor assim. — disse, apoiando o queixo na mão. — Você deprimido era bem mais chato.

    Niko soltou um pequeno sopro pelo nariz. Não chegava a ser uma risada, mas já era mais reação do que tivera na última meia hora.

    — Isso é uma forma de apoio emocional?

    — Interprete como quiser.

    Ele balançou a cabeça de leve. Os cornicellos tilintaram outra vez, e só então ele pareceu lembrar que ainda estava usando aquilo. Levou a mão até um dos chifres, puxando um dos amuletos com uma expressão vazia. A corda se rompeu com um tic audível.

    — Ah é… Aquelas duas… — disse o garoto enquanto observava o objeto ainda em mãos.

    — Pode falar o que dizer delas, mas você ficou uma gracinha com essas coisas aí. — disse Gwendolyn, colocando a mão sobre a boca, tentando inutilmente disfarçar o sorriso do rosto.

    — Não enche…

    Gwen se levantou primeiro, ajeitando a própria roupa com naturalidade, como se aquela conversa inteira tivesse sido só uma pausa breve antes de voltarem ao trabalho. Niko demorou um pouco mais. O corpo ainda parecia pesado, mas agora havia direção. Ele empurrou o banco para trás, ficando de pé, e por um segundo o resto do bar pareceu notar.

    Não porque alguém tivesse parado para olhar diretamente. Mas porque presença mudava espaço. E alguém que estava morto havia meia hora agora estava andando de novo.

    Mais afastadas, Evelyn e Brigitte ainda conversavam perto de uma das mesas, enquanto Tsugumi tentava explicar alguma coisa com gestos exagerados e Gabe parecia discordar com a confiança de quem provavelmente não sabia do que estava falando. O tipo de discussão normal dentro daquela dinâmica, no mínimo, peculiar.

    Niko caminhou até elas sem pressa. Os passos ainda carregavam um resto de cansaço, mas não hesitação. Brigitte foi a primeira a perceber. O olhar subiu imediatamente em direção ao amigo.

    — Olha só. — disse, apoiando o cotovelo na cadeira. — Parece que o chefinho voltou dos mortos.

    — Foi um milagre religioso. — respondeu Gwen atrás dele, aproximando-se.

    — Eu sabia que os cornicellos iam funcionar! — Tsugumi surgiu quase instantaneamente, com orgulho genuíno na voz.

    Niko passou a mão no rosto.

    — Eu vou jogar vocês três no rio.

    — Então você realmente já melhorou. — disse Evelyn.

    Ela estava encostada na cadeira, de braços cruzados, observando em silêncio como sempre fazia. Mas havia uma leve mudança no olhar — menos vigilância e mais confirmação. Como se a versão emburrada dela tivesse desaparecido nesses trinta minutos.

    — A gente precisa voltar a agir.

    A frase saiu simples, sem ele elevar a voz, mas foi o suficiente para cortar o resto da conversa entre o grupo de Gabe. Brigitte foi a primeira a reagir. Cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça e estreitando os olhos, como quem já sabia que não ia gostar daquilo.

    — Agora?

    Niko assentiu.

    — Agora.

    Ela soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase incrédula com a insistência de Niko.

    — Você viu que horas são? Se você não sabe, uma investigação costuma funcionar melhor quando as pessoas ainda estão bem acordadas, sabia?

    — Eu sei.

    — Não, aparentemente não sabe. — continuou ela, já apontando com a mão como se estivesse montando uma acusação formal. — Já é noite, a cidade tá afundada no festival, metade das pessoas úteis foi dormir ou tá bêbada e, sinceramente, se a gente voltar naquela base agora, a chance de encontrar alguma coisa além de ratos e poeira é mínima.

    Ela fez uma pequena pausa, então completou:

    — E eu gostaria de registrar oficialmente que eu queria, pelo menos mais meia hora de paz antes da próxima péssima decisão coletiva.

    Niko não respondeu de imediato. Apenas sustentou o olhar dela.

    — Eu tenho uma ideia. — disse por fim. — Mas preciso de vocês duas também, somos uma equipe afinal.

    O silêncio que veio depois foi curto, mas suficiente. Brigitte ainda abriu a boca, pronta para continuar argumentando, provavelmente com excelentes pontos e ainda mais dramatização-

    — Tô dentro. — respondeu a elfa, não deixando nenhuma brecha para as reclamações da luminar.

    Brigitte virou o rosto na mesma hora.

    — Mas você nem ouviu o plano.

    Evelyn deu de ombros, simples.

    — Eu não consigo ficar parada enquanto tem um garoto precisando da minha ajuda.

    A resposta veio sem pose, sem heroísmo ensaiado, só verdade. E talvez justamente por isso tenha acertado tão rápido. Brigitte ficou em silêncio por um segundo, olhando para ela. Depois desviou o rosto, claramente irritada com o fato de que aquilo tinha funcionado.

    — Você justamente tinha que me lembrar disso agora?

    Ela passou a mão no próprio cabelo, soltando o ar com força.

    — Porque eu também não consigo fazer isso…

    Outro segundo. Então ergueu a mão boa em rendição ao mesmo tempo que se espreguiçava de leve.

    — Ótimo. Maravilha. Vamos todos tomar decisões ruins durante a madrugada. Excelente tradição de grupo.

    Tsugumi ergueu a mão na mesma hora.

    — Eu gosto dessa tradição.

    — Mas você nem é desse grupo… — respondeu Brigitte.

    Foi nesse momento que Gabe finalmente decidiu entrar de vez na conversa. Ele se aproximou com aquele sorriso fácil de sempre, como alguém que já estava pronto para se envolver mesmo sem ter sido chamado.

    — Espera, espera… vocês vão sair agora?

    — Vamos sim. — respondeu Niko.

    Gabe ficou em silêncio por um instante, processando aquilo. O olhar passou por Evelyn, depois por Brigitte e depois por Gwen, como se estivesse conferindo se aquilo era realmente sério.

    Então ele olhou por cima do ombro para o próprio grupo. Matteo já tinha uma expressão de absoluto cansaço moral. Jakob parecia pronto desde antes mesmo da pergunta existir. E Tsugumi, de algum jeito, já estava empolgada.

    Gabe assentiu para si mesmo, como alguém que acabava de tomar uma decisão extremamente nobre e certamente não motivada por interesses questionáveis.

    — Bom… nosso turno acabou por hoje.

    Fez uma pequena pausa dramática.

    — Sem contar que garantir a paz e a justiça faz parte do contrato.

    Outra pausa. Ele apoiou a mão no peito.

    — Então, tecnicamente… isso pode contar como hora extra.

    Matteo fechou os olhos, colocando a mão sobre os olhos, levantando os óculos na ação.

    — Ah, lá vem.

    — E eu seria irresponsável se recusasse uma oportunidade dessas. — completou Gabe, completamente sério.

    Jakob soltou um riso curto pelo nariz.

    — Pela justiça, claro.

    — Exclusivamente pela justiça.

    — E pelo dinheiro. — disse Matteo.

    — Principalmente pela justiça. — corrigiu Gabe.

    Gabe então voltou o olhar para Niko, agora um pouco mais direto.

    — Então? Meu grupo pode ajudar o seu?

    Niko não hesitou, mas por um instante seu olhar passou por todos eles antes da resposta sair. Eles eram antigos companheiros de Evelyn. Queria entender melhor isso. Queria ver como ela era antes, como se movia dentro daquele outro grupo, quais pedaços dela existiam ali e ele ainda não conhecia. Havia algo quase curioso nisso.

    Além do mais, de forma puramente objetiva, mais gente competente significava mais chances de encontrar respostas. E, naquele momento, ele não tinha espaço para orgulho. Só precisava resolver aquilo.

    — Claro que pode. Toda ajuda é bem-vinda.

    Por um instante, aquilo pareceu reorganizar o espaço entre todos. Não eram mais dois grupos dividindo um bar — agora eram um grupo maior, que tinha uma direção comum. Gwen se aproximou logo depois, ajustando as mangas com calma, como se já estivesse pronta desde o início.

    — Finalmente. Achei que eu ia precisar jogar outro discurso existencial em alguém hoje.

    — Eu teria ido embora. — respondeu Niko.

    — Uhm, sei.

    Tsugumi já girava no próprio eixo, animada demais para alguém que claramente deveria estar cansada.

    — Tá, tá, tá! Pra onde a gente vai? Me digam que envolve perseguição em telhado. Ou infiltração secreta. Ou explosões.

    — Se tiver alguma explosão, fui eu. — disse Brigitte.

    — Se tiver uma explosão maior, fui eu. — corrigiu Evelyn.

    — Se tiver uma explosão e uma narração dramática, fui eu. — disse Gabe, corrigindo a correção de Evelyn.

    Matteo suspirou alto.

    — Eu imploro para que não tenha nenhuma explosão.

    No instante seguinte, houve uma pequena pausa. Niko olhou para todos eles. O bar ainda continuava vivo ao redor, mas agora parecia distante outra vez — não por vazio, mas porque a atenção finalmente tinha um lugar melhor para estar. Ele respirou uma vez. E respondeu:

    — De volta para a sede.

    No mesmo instante em que terminou a frase, algo tilintou levemente quando ele virou a cabeça. O som pequeno e irritante veio acompanhado do balançar de um dos cornicellos presos no chifre.

    Niko ficou imóvel por um segundo. Então levou lentamente a mão até a lateral da cabeça, segurando um dos amuletos vermelhos entre os dedos, como se só agora tivesse sido forçado a aceitar que ainda estava daquele jeito.

    Olhou para o objeto. Depois olhou para Tsugumi. Depois para Brigitte. As duas evitaram contato visual com a dignidade de criminosas flagradas.

    — Só… deixem eu tirar essas coisas ridículas dos meus chifres primeiro.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota