Índice de Capítulo

    O restante da noite de Natal passou em um piscar de olhos. 

    A casa continuou cheia até tarde da noite, com risadas ecoando em cada canto, pratos sendo recolhidos e lavados, e conversas que se misturavam com tudo isso.

    Hana e Himari passaram boa parte do tempo sentadas ao pé da árvore, observando os presentes dali com… uma ansiedade clara.

    — Só um não vai dar problema… né? — Hana insistia, segurando uma das caixas com força.

    — Não pode! — Himari retrucava, tentando impedir ela. — O Papai Noel vai te colocar na lista má!

    As duas acabaram sendo contidas pelas mães. No fim, dormiram juntas no sofá, com a cabeça de uma no ombro da outra, completamente exaustas de tanto brincar.

    Seiji passou a maior parte da noite entre conversar alto com os pais e tentando arrastar eu e Rintarou para algum jogo maluco que ele tinha inventado na hora. 

    Kaori ficou quase sempre próxima das garotas, sentada perto delas depois de colocar um pequeno cobertor em ambas. 

    Não demorou muito para que a casa começasse a ficar mais vazia, e o ambiente ficasse mais silencioso.

    — Até! — eu disse na porta, me despedindo de Rintarou e Seiji.

    Naquela mesma noite, dormi com uma sensação diferente. Uma sensação de que algo tivesse se alinhado dentro de mim.

    No dia seguinte, acabei levantando antes do despertador tocar.

    O frio ainda era intenso. Olhei para a janela, vendo que o céu carregava aqueles tons típicos de cinza de inverno.

    Sentei-me na cama, bocejando, e encarei o chão.

    Eu tinha sido dispensado do trabalho por alguns dias, por causa da insistência de Arata e do patrão, por ter me tornado um… escritor de verdade. Mas claro, ainda teria que aparecer por lá de vez em quando.

    E aquela era uma dessas vezes.

    Coloquei um cachecol, enfiei as mãos no bolso do casaco e desci as escadas. O café quente ajudou a aquecer um pouco o frio que sentia, mesmo dentro de casa.

    Então, segui pelas ruas gélidas até chegar na biblioteca. O cheiro familiar de papel e madeira continuava me atingindo sempre que eu entrava lá dentro.

    — Olha só quem decidiu aparecer — Arata começou, já empilhando livros em um carrinho. — Bom dia.

    — Bom dia, Arata — respondi, indo direto para a sala para me trocar.

    O movimento era quase o de sempre. Bem tranquilo. 

    Arata repunha livros, atualizando novas revistas, com a calma de sempre. E eu continuava na caixa, com a cabeça apoiada na mão, observando o ambiente enquanto minha mente… vagava.

    Novamente, pensei na minha história.

    Ela ainda continuava lá, sempre girando no fundo da minha cabeça. As palavras de Rintarou e a empolgação de Kaori me deixaram com mais vontade ainda de continuar escrevendo.

    “O silêncio dos personagens, é…?”

    Claro, mesmo com aquelas coisas ocupando minha mente… ainda tinha aquilo.

    O Ano Novo.

    Inevitavelmente, um frio se instalou na minha barriga e mãos.

    Suspirei, apoiando o queixo na mão novamente, e encarando o nada por alguns segundos.

    “Fogos de artifício com a Yuki…”

    Era apenas um simples convite… e nós nem estaríamos sozinhos, então por que eu estava tão nervoso?

    Eu não tinha motivos pra ficar daquele jeito. Né?

    A voz de Kaito surgiu na minha mente, clara, tão clara que era quase como se eu tivesse escutado ela.

    “Encare seus sentimentos. Quem sabe o que a Yuki espera de você?”

    “Tenha coragem.”

    — Ei, Shin! — Arata me chamou, interrompendo meus pensamentos. Eu ergui o olhar, e ele então começou a rir levemente. — Tá tudo bem? Tá com uma cara de quem tá com algum problema e não sabe como resolver…

    — Hã!? — pisquei algumas vezes, surpreso por ter deixado transparecer meus sentimentos. — Ah, tá tudo sim, nada demais.

    Ele me encarou por alguns segundos a mais do que deveria, fazendo com que eu desviasse o olhar dele, nervoso.

    Mas no fim apenas assentiu, sem perguntar muito sobre.

    — Sei… entendi — ele virou o rosto depois de analisar minha resposta. — Se tiver cansado, só ir lá no fundo e sentar um pouco. — Ele olhou em volta da biblioteca e suspirou. — A gente não tá tendo muito cliente mesmo…

    Eu assenti, sorrindo de leve, enquanto ele voltava a organizar os livros nas estantes.

    Antes que eu colocasse a mão no queixo e voltasse aos pensamentos… o sino da porta tocou.

    Um cliente entrou, sacudindo levemente o casaco para se livrar do frio. Cumprimentei com um pequeno aceno, e ele retribuiu antes de seguir em direção das revistas.

    Arata olhou pra mim, com olhos levemente arregalados.

    — Eu acabei de falar que não tínhamos clientes por agora… — ele sussurrou baixo, e eu ri.

    Olhei para o homem que tinha entrado, e ele ficou alguns minutos ali, apenas folheando algumas capas e revistas.

    Continuou assim até ele pegar aquilo.

    Aquela revista específica que reconheci no mesmo segundo.

    A edição de Natal da Editora Kousei.

    Meu corpo enrijeceu levemente naquele instante.

    Ele veio até mim, no caixa, e pousou a revista com uma pequena nota e algumas moedas no balcão.

    — É tudo? — perguntei, e ele assentiu.

    Fiz o processo quase no automático, enquanto meus olhos passavam pela capa. Meu coração estava levemente acelerado.

    Peguei o troco,  com as mãos trêmulas levemente, e coloquei a revista na sacola, entregando-a.

    — Obrigado — ele disse, antes de sair.

    E novamente, o sino soou no ambiente.

    Eu… fiquei ali, parado, olhando para a porta fechada por alguns segundos a mais do que o normal.

    Foi quando eu finalmente percebi.

    Aquela mesma revista estaria nas mãos de muitas pessoas.

    Pessoas desconhecidas. Pessoas que nunca sequer ouviram meu nome.

    Então… o que elas pensariam ao ver meu rosto logo na primeira página da revista?

    O que eles diriam ao ler o que eu escrevi?

    Eles se interessariam? Ou apenas iriam ignorar e virar a página?

    A ideia de ter algo lido por estranhos… era excitante e aterrorizante ao mesmo tempo.

    Apoiei, novamente, a cabeça na minha mão, sentindo aquele misto… estranho de nervosismo e expectativa crescer dentro de mim.

    Suspirei.

    O Ano Novo se aproximava.

    E, com ele, vinha a compreensão que…

    …de repente, a responsabilidade de ser um escritor de verdade parecia muito mais pesada do que qualquer palavra que eu já tivesse colocado no papel.

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