Capítulo 1 – Saga – Histórias
Sob cobertores velhos, dois olhos arregalados espiavam Nanna.
Mesmo com a luz fraca da lareira, ela via o brilho neles. Curiosidade, sim. Mas também aquele medo bom, pequeno, obediente, que toda história decente sabia arrancar de uma criança.
Quase riu.
Não podia. Rir estragaria tudo.
A casa estalava ao redor deles, aquecida pelo fogo. O cheiro de fumaça e chá pairava no ar. Do lado de fora, o vento rondava as tábuas, procurando frestas por onde entrar.
“Há muito… muito tempo”, começou Nanna, reunindo no rosto a gravidade mais solene de que era capaz, “as pessoas ainda eram livres para vagar. O mundo era cheio de vida. Florestas antigas cobriam a terra. Os rios corriam largos. E os homens não temiam o caminho diante deles.”
Ela se inclinou um pouco mais na direção do sofá.
“Mas havia, em certo canto do velho mundo, um reino governado por um rei tirano. Um homem tão odiado quanto temido. E, quando a velhice começou a subir por seus ossos, ele passou a temer uma coisa acima de todas.”
Nanna fez uma pausa.
Hrafn afundou ainda mais no cobertor.
“A morte”, sussurrou ela. “Porque sabia do julgamento que ela trazia.”
“A morte nos julga, Nanna?”
Agora só o rosto dele aparecia.
Aquilo lhe trouxe um orgulho infundado por sua própria atuação. Infundado, mas agradável.
Ela inclinou a cabeça devagar.
“Julga, sim. Por isso você deve sempre ser um bom garoto.”
Deixou um sorriso ruim escapar antes de continuar.
“Sabendo quão cruel fora em vida, e temendo o que o aguardava além do último suspiro, o rei ordenou a seus conselheiros, cavaleiros e lacaios que encontrassem uma forma de enganar o destino.”
O vento bateu na parede. A madeira gemeu.
“Tem como enganar a morte?”, perguntou Hrafn.
Só a ponta do nariz ainda estava visível.
Nanna precisou conter outro sorriso. Houve um tempo em que ela também acreditara que um simples cobertor podia afastar todos os males do mundo.
“Claro que não, pequenino. E foi exatamente isso que os conselheiros disseram ao rei.”
Ela se aproximou mais.
“Já os cavaleiros… bem. Esses voltavam de suas jornadas carregando falsos santos, relíquias inúteis e promessas vazias. Cada fraude apenas aumentava a ira do rei. E o desespero junto.”
A cadeira rangeu sob ela quando tornou a se inclinar.
“Mas, certa vez, um dos lacaios trouxe algo diferente…”
Nanna deixou o silêncio crescer.
“Um bruxo”, anunciou, e a palavra escureceu o canto da sala. “E esse bruxo disse ao rei que havia, sim, um meio de permanecer jovem para sempre.”
Hrafn prendeu a respiração.
“Sangue”, sussurrou Nanna. “Sangue fresco. Sangue de jovens inocentes.”
Estendeu as mãos na direção do cobertor.
“Sangue jovem, assim como o seu, pequenino. Para velhos ossos…”
Ela mostrou os dentes.
“Assim como os meus.”
Hrafn atirou o cobertor para o alto e saiu correndo entre gritos pela casa. A reação foi tão desmedida que arrancou de Nanna uma gargalhada inteira, limpa, sem personagem alguma dentro.
E então a personagem morreu.
O riso foi cedendo, e com ele veio um arrependimento leve, mas conhecido.
A história não tinha acabado, nunca acabaria.
Era assim com certas histórias.
Um barulho soou do outro lado da casa. O cheiro de lenha molhada e frio de rua entrou junto, e Nanna abriu os olhos, varrendo seu sonho para um canto.
“Sou eu, Nanna.”
Hrafn estava na porta, segurando a tampa de ferro da panela que havia derrubado ao entrar.
“Sempre essa mesma panela”, murmurou ele, esfregando um dedo no ouvido. “Juro que ela pensa. E tenho quase certeza de que não gosta de mim.”
“Oh, Hrafn, você está encharcado.”
Nanna se levantou. A cadeira surrada rangeu alto, e seus ossos responderam com uma música própria, mais seca, mais velha.
“Aqui. Cubra-se antes que pegue um resfriado.”
Pôs o pano sobre os ombros dele e, ao mesmo tempo, o examinou depressa.
Sem hematomas no rosto.
Sem corte novo nas mãos.
Bom.
Hrafn estava cada dia mais parecido com o pai. Ombros largos. Pele bronzeada. Cabelos castanhos escuros. Olhos negros, fundos, como carvão apagado.
Mais alguns anos e seria quase como ver o próprio filho diante dela outra vez.
Quase, havia uma diferença; o sorriso.
O sorriso de Hrafn nunca alcançava os olhos.
“Como foi o trabalho nas docas?”, perguntou ela, já sabendo.
“Não é bom deixar tanto papel perto da lareira”, respondeu ele, apontando para os livros e folhas espalhados.
Nanna afastou o comentário com um grunhido.
“Sigrid veio nos visitar hoje.”
Hrafn pegou uma caneca, e o chá caiu em silêncio.
“Ela trouxe folhas boas”, continuou Nanna, voltando para perto do fogo. “E perguntou por você.”
“As docas estavam tranquilas hoje”, respondeu ele, como se não tivesse ouvido.
Sentou-se perto da lareira e estendeu as mãos para o calor.
“Ela é uma boa moça”, disse Nanna.
Cutucou o carvão com a vara comprida. As chamas se ergueram um pouco.
“E gosta de você. Isso até um cego veria.”
Hrafn ficou calado.
“Na sua idade, seu pai já era casado.”
Ele soltou uma risada curta pelo nariz.
“Lembro dele contando como você o espancou quando soube da gravidez.”
Nanna tossiu, fingindo não ter escutado.
“Há coisas mais importantes este ano”, disse ele. “Vai haver seleção.”
Desculpas. Mentiras. Medo.
Ela conhecia as três coisas.
“Então já se vê elevado? Um entre cem?”
Ele não respondeu.
“Já consigo imaginar”, prosseguiu Nanna. “Um nobre e honrado voroir. Talvez importante demais para lembrar da moça que o esperou nas docas. Talvez importante demais para voltar.”
Hrafn apertou a caneca. “Não vai dar certo.”
A irritação em sua voz doeu nela.
Os pais dele haviam morrido cedo demais. Isso deixara um vazio fundo, e o vazio, quando ficava tempo demais dentro de um homem jovem, começava a se parecer com caráter.
Nanna sabia reconhecer a diferença.
Ela própria enterrara o filho.
Pais não deviam enterrar filhos.
E filhos não deviam crescer sem pais.
Mas, ao contrário dela, Hrafn ainda tinha tempo. Tempo de errar, de amar, de ter filhos teimosos, de reclamar do frio e da chuva.
Ele ainda podia ir adiante.
“Como pode saber, se nunca tenta?”
Nanna suspirou.
“Eu não estou ficando mais jovem, Hrafn. Tenho dormido mais. E meu sono anda cada vez mais fundo.”
Olhou para o fogo enquanto falava, como se pudesse ver alguma coisa ali.
“Temo o dia em que ele se estenderá para sempre.”
Aquilo não era manha de velha. Ela sentia. No estalo dos ossos. No peso das juntas. No tremor breve que às vezes tomava as mãos sem pedir licença. Havia madrugadas em que despertava de súbito e permanecia quieta, escutando a casa respirar no escuro, perguntando-se se aquela seria a última vez que ouviria o vento bater nas tábuas.
“Temo não vê-lo feliz antes disso”, disse. “Com uma família. Com uma vida.”
Talvez fosse baixo da parte dela.
Talvez.
Mas era pior continuar vendo o neto andar pela casa como se metade dele tivesse ficado enterrada anos antes.
“Eu sou feliz, Nanna.” Ele tomou a mão dela entre as suas. O sorriso veio largo.
Mas não alcançou os olhos.
“A senhora ainda vai viver muito.” Hrafn beijou sua testa e se levantou.
“Agradeça a Sigrid pelo chá por mim.”
“Vou agradecer.”
Ele ficou mais um instante perto do fogo, como se quisesse dizer outra coisa. Não disse. Depois foi cuidar da própria noite, e Nanna permaneceu ali, olhando as chamas se cansarem.
O vento seguia do lado de fora.
As janelas batiam de leve.
O chá a aqueceu por dentro. O corpo pesou.
E, junto com os anos, o cansaço enfim venceu.
Pouco a pouco, seus olhos se fecharam.
E Nanna adormeceu.
* * *
Hrafn estivera errado.
E Nanna certa, como sempre.
Ela dormira para sempre, exatamente como dissera.
Se soubesse que aquela seria a última conversa entre os dois, talvez tivesse ficado mais tempo ao lado da lareira. Talvez tivesse escutado outra história. Talvez tivesse prestado atenção em cada palavra, em vez de fugir delas.
Mas arrependimento era algo que Nanna desprezava.
Ele quase podia ouvi-la.
O arrependimento é uma criaturinha cruel, Hrafn. Se agarra ao coração e aperta sempre que você resolve olhar para trás.
Então ela suspiraria daquele jeito cansado, meio ríspido, meio afetuoso.
Olhe para frente, criança. Para frente.
“Eu sinto muito, Hrafn. Saga era uma mulher excepcional. Que ela descanse em paz.”
A voz de Thrud, mãe de Sigrid, o arrancou dos próprios pensamentos.
Ela usava branco, como os demais no funeral. O tecido claro se movia devagar sob o vento frio.
“Obrigado por vir”, respondeu Hrafn.
A própria voz soou distante.
Passara a vida inteira chamando-a de Nanna. Ouvir as pessoas dizerem Saga ainda lhe parecia errado. Como se estivessem falando de outra pessoa. Não da velha que xingava panelas, mentia sobre a própria idade e fazia chá forte demais.
“Olá, Hrafn”, disse Sigrid, surgindo logo atrás da mãe.
Ela se aproximou com passos lentos, como se temesse perturbar o silêncio do pequeno cemitério.
“Meus pêsames.”
A voz tremia apesar do esforço que fazia para mantê-la firme. Seus olhos observavam o chão, como se procurassem algo entre as pequenas pedras e a terra escura revolvida.
“Obrigado por ter vindo”, disse Hrafn.
Oferecendo um sorriso que nem ele mesmo acreditou.
Sigrid tentou sorrir de volta. Os olhos dela estavam vermelhos. Nanna fora avó para ela quase tanto quanto fora para ele.
Ao redor, lápides antigas se erguiam tortas, cobertas de musgo. As árvores escuras cercavam o terreno, e seus galhos nus se agitavam ao vento como dedos impacientes.
Fora isso, o lugar permanecia quieto.
O ar cheirava a terra molhada e coisa velha.
E a sepultura de Nanna parecia nova demais ali.
Sigrid e Thrud tinham sido as últimas a ficar.
Não que houvesse tanta gente para ir embora.
Saga era uma mulher idosa entre mulheres idosas, e a maioria das pessoas que haviam compartilhado sua vida já tinha partido muito antes dela.
“Você deveria ir descansar”, disse Thrud, despedindo-se com a suavidade de uma mãe.
“Eu irei em um momento”, respondeu Hrafn, sem desviar os olhos da lápide.
Ali estavam gravadas as palavras:
Aqui jaz Saga Skovrheim, guerreira, esposa amorosa, mãe e avó exemplar.
Nanna teria aprovado, poucas palavras, simples, sem enfeite demais
Amor e exemplo, foi o que dera a eles.
Pois era tudo de que precisavam.
Sigrid e sua mãe se afastaram pelo caminho de pedras, e o som de seus passos foi lentamente engolido pelo vento. Ele ficou ali.
Hrafn ficou sozinho.
Ficou ali até que as primeiras gotas começaram a cair, finas no início, tímidas, como se lhe dessem o devido tempo.
Chuva.
Nanna costumava dizer que a chuva era o choro do Véu pelas boas almas que se iam. Um lamento, sim, mas também uma alegria. Uma forma de dar boas-vindas à luz que voltava.
Ele sempre ouvira aquilo como ouvia tantas das histórias dela: com afeto, mas sem fé.
Agora, diante da terra recém-fechada e da madeira ainda limpa da lápide, a história lhe pareceu menos história.
A água tocou seu rosto.
E, pela primeira vez desde menino, Hrafn acreditou.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.