Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    Sob velhos cobertores, dois olhos espiavam Nanna com curiosidade, mas também aquele bom, pequeno e obediente medo que toda história decente sabia arrancar de uma criança. E ela quase riu, mas não podia. Rir agora arruinaria o personagem.

    “Há muito… muito tempo atrás,” Nanna começou, reunindo no rosto a gravidade mais solene que conseguiu, “as pessoas ainda eram livres para vagar, e o mundo era cheio de vida. Florestas antigas cobriam a terra, os rios corriam largos e os homens não temiam a estrada diante deles.” Ela se inclinou um pouco mais em direção ao sofá, conforme a casa rangia ao redor deles, aquecida pelo fogo; um cheiro de fumaça e chá pairava no ar e, do lado de fora, o vento procurava frestas por onde entrar. 

    “Mas havia, em um canto do velho mundo, um reino governado por um rei tirano. Um homem tão odiado quanto temido. Quando a velhice começou a subir por seus ossos, ele passou a temer uma coisa acima de todas as outras.”

    “A morte,” ela sussurrou. “Porque ele conhecia o julgamento que ela traz.”

    “A morte nos julga, Nanna?” Hrafn perguntou.

    “Julga. E é por isso que você deve sempre ser um bom menino,” continuou. “E, sabendo o quão cruel havia sido em vida, e temendo o que o aguardava além do seu último suspiro, o rei ordenou a seus conselheiros, cavaleiros e lacaios que encontrassem uma maneira de enganar o destino.”

    “A morte pode ser enganada?” ele perguntou, com apenas a ponta do nariz ainda visível no cobertor, e Nanna teve de conter outro sorriso.

    Pois houve um tempo em que ela também acreditava que um simples cobertor podia manter todos os males do mundo à distância. “Claro que não, pequenino, e foi exatamente isso que os conselheiros disseram ao rei. Quanto aos cavaleiros, bem… eles voltavam de suas jornadas trazendo falsos santos, relíquias inúteis e promessas vazias. Cada fraude apenas alimentava a ira do tirano e, com ela, o seu desespero.” Ela então inclinou-se ainda mais perto, antes de continuar: 

    “Mas um dia, um dos lacaios trouxe algo diferente. Um bruxo, e esse disse ao rei que sim, havia uma maneira de permanecer jovem para sempre…” Nanna sussurrou. “Com sangue; sangue fresco, o sangue de jovens inocentes.”

    Ela estendeu as mãos em direção ao cobertor. “Sangue jovem como o seu, pequenino, para ossos velhos…”

    “Como os meus!”

    Hrafn pulou de susto, lançou o cobertor para o alto e correu pela casa gritando. A reação foi tão desmedida que arrancou de Nanna uma risada inteira, sem personagem algum dentro dela, e com ela veio um arrependimento leve, mas familiar, porque a história não havia terminado.

    Um som veio do outro lado da casa. O cheiro de lenha molhada e frio de rua entrou com ele, e Nanna abriu os olhos, varrendo seu sonho para um canto.

    “Sou eu, Nanna.”

    Hrafn estava parado na entrada, segurando a tampa de ferro da panela que derrubara ao entrar. “Sempre esta mesma panela,” ele resmungou, esfregando um dedo na orelha. “Eu juro que ela pensa, e tenho quase certeza de que não gosta de mim.”

    “Ah, Hrafn, você está encharcado.” disse Nanna se pondo de pé, com a cadeira velha estalando, e seus ossos respondendo com um estalar próprio.”Aqui. Cubra-se antes que pegue um resfriado,” continuou ela, colocando um pano sobre seus ombros e o examinando ao mesmo tempo. Nenhum hematoma no rosto, nenhum corte novo nas mãos.

    Bom.

    Hrafn se parecia mais com o pai a cada dia. Tinha ombros largos, pele bronzeada, cabelo castanho-escuro e olhos negros profundos como carvão morto. Mais alguns anos e seria quase como ver seu próprio filho de pé diante dela de novo, quase. Havia uma diferença: o sorriso. O sorriso de Hrafn nunca alcançava os olhos.

    “Como foi o trabalho nas docas?” ela perguntou, já sabendo a resposta.

    “Não é bom deixar tanto papel perto da lareira,” ele respondeu, já ciente de que ela verificou seu corpo e apontando para os livros espalhados por ali.

    Nanna dispensou a observação com um resmungo. “Sigrid veio nos visitar hoje.” disse ela.

    Hrafn não respondeu, pegou uma caneca e serviu o chá em silêncio.

    “Ela trouxe folhas boas,” Nanna continuou, voltando para o fogo. “E perguntou sobre você.”

    “As docas estavam calmas hoje,” ele respondeu, ignorando a segunda parte; sentou-se perto da lareira e estendeu as mãos para se aquecer.

    “Ela é uma boa moça,” Nanna disse, cutucando as brasas com a vara comprida, fazendo as chamas se erguerem um pouco. “E ela gosta de você, até um cego veria isso.”

    “…Na sua idade, seu pai já era casado,” insistiu ela.

    Ele soltou uma curta risada pelo nariz. “Eu me lembro dele me contando como você bateu nele quando descobriu a gravidez.”

    Nanna tossiu, fingindo não ter ouvido. “Há coisas mais importantes este ano,” ele disse. “Haverá uma seleção.”

    “Então você já se vê elevado? Um entre cem? Já consigo até imaginar,” ela prosseguiu. “Um Voroir nobre e honrado. Talvez importante demais para se lembrar da garota que o esperava nas docas, importante demais para voltar.”

    Hrafn apertou a caneca com mais força. “Não dará certo.”

    A irritação em sua voz a preocupava. Seus pais haviam morrido cedo demais, e isso deixou um vazio profundo. E o vazio, quando ficava tempo demais dentro de um jovem, começava a se parecer com caráter. Nanna sabia dizer a diferença. Ela mesma havia enterrado o filho. Pais não deveriam enterrar filhos. Mas, diferente dela, Hrafn ainda tinha tempo para cometer erros, para amar e ter filhos teimosos, para reclamar do frio e da chuva. Ele ainda podia seguir em frente.

    “Como você pode saber se nunca tenta?” Nanna suspirou. “Não estou ficando mais jovem, Hrafn. Tenho dormido mais, e meu sono dura cada vez mais tempo.” Ela olhou para o fogo enquanto falava, como se pudesse ver algo nele. “Temo o dia em que ele se estenderá para sempre.”

    Não era só manha de velha. Ela sentia isso. No estalar dos ossos, nas juntas enferrujadas, em um breve tremor que às vezes tomava suas mãos sem pedir licença. Havia madrugadas em que ela acordava de súbito e permanecia parada, ouvindo a casa respirar no escuro, pensando se aquela seria a última vez que ouviria o vento contra as tábuas.

    “Temo não vê-lo feliz antes disso,” ela disse. “Com uma família, com uma vida.”

    “Eu sou feliz, Nanna,” disse ele, tomando a mão dela entre as dele. O sorriso veio largo, mas não alcançou seus olhos. “E você ainda vai viver muitos anos.”

    Hrafn então beijou sua testa e se levantou. “Agradeça a Sigrid pelo chá por mim.”

    “Vou agradecer.” disse ela, permanecendo ali, observando as chamas se cansarem conforme o vento ainda vagava lá fora. Seu chá a aquecia por dentro, o corpo ficava pesado. Até que a idade venceu, pouco a pouco seus olhos se fecharam… e Nanna adormeceu.

    * * *

    Hrafn estava errado, e Nanna certa, como sempre. Ela havia adormecido para sempre, exatamente como disse que faria. Se ele ao menos soubesse que aquela teria sido a última conversa entre os dois, talvez tivesse permanecido mais tempo junto ao fogo e teria prestado atenção em cada palavra em vez de fugir delas.

    Mas arrependimento era algo que Nanna desprezava, e ele quase podia ouvi-la dizer; O arrependimento é uma criaturazinha cruel, Hrafn. Ele se agarra ao coração e aperta toda vez que você decide olhar para trás. Então ela suspiraria daquele jeito cansado dela; Olhe para a frente, criança, para a frente.

    “Sinto muito, Hrafn. Saga foi uma mulher excepcional. Que ela descanse em paz.” A voz de Thrud o arrancou de seus pensamentos.

    “Obrigado por ter vindo,” Hrafn disse, após um momento.

    Ele passou a vida inteira chamando-a de Nanna, ao ponto de ouvir as pessoas chamarem ela de Saga soar estranho. Como se estivessem falando de outra pessoa, não da velha mulher que xingava panelas, mentia sobre a própria idade e fazia chá forte demais.

    “Olá, Hrafn,” Sigrid disse, surgindo logo atrás da mãe. “Meus pêsames,” comentou, com a voz tremida apesar do esforço que fazia para mantê-la firme, enquanto seus olhos observavam o chão. Como se procurassem algo entre as pequenas pedras e a terra escura.

    “Obrigado por ter vindo,” Hrafn disse, oferecendo um sorriso em que nem ele mesmo acreditava.

    Sigrid e Thrud haviam sido as últimas a ficar, não que tivesse havido tantas pessoas para ir embora. Saga era uma mulher idosa entre mulheres idosas, e a maioria das pessoas que haviam compartilhado sua vida tinha partido muito antes dela.

    “Você deveria ir descansar,” Thrud disse, despedindo-se.

    “Vou, em um momento,” Hrafn respondeu, sem tirar os olhos da lápide.

    As palavras talhadas ali diziam: ‘’Aqui jaz Saga Skovrheim. Guerreira, esposa amorosa, mãe e avó exemplar.’’ Poucas palavras, simples e sem ornamento demais. Nanna teria aprovado.

    Logo Sigrid e sua mãe se afastaram pelo caminho de pedra, e o som de seus passos foi lentamente engolido pelo vento. Deixando Hrafn sozinho, permanecendo ali até que as primeiras gotas começaram a cair. Finas no começo, bem tímidas, como se lhe concedessem o tempo devido.

    Chuva.

    Ela costumava dizer que a chuva era o choro do Véu pelas boas almas que se foram. Ele sempre ouvira isso da forma como ouvira tantas outras histórias, com afeição, mas sem fé. Agora, de pé diante da terra recém-fechada e da madeira ainda limpa da lápide, a história parecia menos história. A água tocou seu rosto e, pela primeira vez desde que era menino, Hrafn acreditou.

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