Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 6. Hrafn. Agarrando-se à Vida
Hrafn observou tudo aquilo sem conseguir decidir o que mais o impressionava; os caídos ou os voroirs.
Os caídos vinham em ondas desordenadas, como se a noite os vomitasse aos punhados, e os voroirs os recebiam com uma disciplina que parecia existir antes mesmo de eles nascerem. Se ele não estivesse tão perto da morte, talvez até estivesse mais fascinado. Mas ele sabia que, assim que os caídos atravessassem em número suficiente, não haveria mais diferença entre assistir e participar.
E mais e mais formas emergiram da escuridão. Várias tropeçavam ao cruzar o anel de sal que havia ao redor do acampamento, conforme entravam dentro do círculo, estremeciam como se tivessem pisado em brasas. Quando avançavam mais perto da estrada, pareciam perder parte da força também, conforme a pedra de sal ali fazia efeito. A vantagem de lutar sobre terreno preparado, por pouco preparado que fosse, era clara, e os voroirs fizeram essa vantagem valer por tempo suficiente para matar dezenas, mas não o suficiente para manter a linha.
Ele apertou o punho da espada quando, na parte da formação perto, um dos pequenos demônios da noite se desvencilhou dos voroirs como um cão raivoso escapando de uma corrente. Atingiu o chão, rolou na terra e se levantou de novo, voltado para a retaguarda, para ele. A criatura então parou por um instante. A cabeça inclinada na sua direção não tinha olhos, ainda assim, Hrafn se sentiu visto antes que o caído atacasse.
Isso não é bom.
Ele era firme, sempre se julgava ser firme, talvez até corajoso quando ninguém olhava perto demais. Naquele instante não era nenhum dos dois. Seu corpo parecia mal ajustado a si mesmo, como se suas pernas, braços e mãos pertencessem a outra pessoa e tivessem sido costurados nele às pressas. Se tentasse correr, cairia. Se tentasse golpear, erraria. Salvação veio tão perto do último instante que ele já conseguia sentir o cheiro da coisa.
Para sua sorte, algo se chocou contra o flanco do caído e o arrancou da trajetória. A besta derrapou pela terra, passou por Hrafn pela distância de um palmo e se virou com um guincho irritado para… Sigrid, que tinha pequenas faíscas correndo por seus braços e ao longo da haste de uma lança que ela segurava. A criatura investiu contra ela uma vez, depois de novo e mais uma, mas ela desviou todas as vezes por pouco.
Coragem, Hrafn! Não vá morrer de medo.
Sigrid continuava se movendo… bem demais para durar. Não contra algo daquele tamanho e daquela velocidade. Não se ela tivesse de continuar desviando sem pausa e protegê-lo ao mesmo tempo, ele precisava fazer alguma coisa. Hrafn então decidiu circular por trás, tentando permanecer fora do estranho campo de percepção da besta. Ele não confiava no próprio corpo, muito menos na própria velocidade, os dois à sua frente se moviam rápido demais. Se ele entrasse sem pensar, poderia atingir Sigrid antes mesmo de tocar o caído ou acertar o ar.
Ela pareceu entender o que ele estava tentando fazer e estendeu o braço para a esquerda, um gesto breve antes de ser forçada a se esquivar de novo. Ele se moveu na direção que ela apontou, adiantando-se. Quando o caído saltou outra vez e errou, precisou de um momento para recuperar o equilíbrio. Hrafn, já no ponto certo, avançou e desferiu o golpe mais forte que pôde, mirando a cauda rígida. A espada pesada não a cortou por completo, mas mordeu fundo o bastante para deixar o membro pendendo num ângulo grotesco.
“Parece que assim combina mais com você”, ele zombou antes de pensar melhor.
A criatura gritou, e a satisfação durou menos que a frase. O som antinatural entrou pelos seus ouvidos e parecia descer por sua espinha, fazendo toda a coragem que acabou de encontrar virar pó. Não foi muito diferente para Sigrid, mas ambos insistiram em encarar a coisa. O que já os colocava acima da maioria; vários dos jovens selecionados estavam mortos, escondidos ou reduzidos a barulho. Até muitos dos filhos da pequena nobreza, criados ouvindo falar de elevação e deveres, não passavam de peso inútil no meio do caos.
Alguns, porém, tinham utilidade. Hrafn viu um deles de lado, o mesmo que tivera uma ‘’revelação’’ naquela mesma tarde: Briorn. Lembrou-se do nome com atraso. O rapaz não carregava arma alguma, conforme vinha gritando e correndo na direção deles. Também havia algo fanático em seus olhos, como se o peso daquele dia o tivesse quebrado em algum lugar.
“Espera!”, avisou Hrafn.
O chamado caiu em ouvidos surdos e, por um instante, ele pensou que o tolo desarmado seria rasgado do queixo ao ventre. Mas, quando Briorn bateu o ombro contra o flanco da criatura, o impacto saiu errado. Mais forte do que deveria, mais pesado do que ele parecia, conforme a terra sob seus pés pareceu carregar a investida junto com ele, e o caído foi arremessado na direção de Hrafn, como se tivesse sido atingido por um homem com o dobro do seu tamanho.
Recuando do corpo que vinha em sua direção, ele enfiou sua espada por reflexo onde dava. Foi um golpe ruim, arrancado mais do medo do que da habilidade, mal causando dano. Mas a criatura pareceu não ter gostado, investindo contra ele em seguida, equilibrando-se de um modo antinatural sobre apenas três membros, tentando empalá-lo com a estaca restante, conforme sua boca larga estalava e mordia à frente, mantendo Briorn e Sigrid afastados.
Hrafn rolou na terra para um lado e depois para o outro, tentando permanecer inteiro. A cada desvio, algo dentro dele, adormecido até então, começava a se mover, apesar de não ser a sensação mística que alguém poderia esperar. Era mais próxima da sensação de um braço começando a responder de novo depois de ficar parado tempo demais; desconforto primeiro, estranheza, então percepção. De repente, a perna pontuda do caído parecia vir através de água grossa, o crepitar das faíscas em Sigrid, a respiração pesada de Briorn, o grito de alguém morrendo mais atrás. Tudo vinha com clareza demais e velocidade de menos.
Ele conseguia entender tudo aquilo. Esse era o problema, pois até o movimento dos próprios olhos dentro das órbitas era torturantemente lento e, com essa nova percepção, veio outra certeza muito menos agradável. A estaca óssea descendo em direção ao seu peito continuava descendo. Ele entendia o ângulo, a posição do próprio corpo, braço e espada, um pé mal fincado na lama, e entendia que, como estava, qualquer resposta seria tarde ou ruim demais. Ele seria empalado, fizesse o que fizesse.
Ah. Maravilha.

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